Introdução
“O homem jamais acabará com a escravidão. No máximo trocar-lhe-á de nome”. Essa citação foi atribuída pela escritora francesa Marguerite Yourcenar, ao Imperador Adriano, que governou o grande império romano no século II d.C.
O livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, utiliza-se da arte literária para resgatar essa citação de dois mil anos e escancarar a exploração do trabalho humano, em meados do século XX. Mas o premiado livro vai além dessa prática ignominiosa. Ele retrata a força das mulheres, a solidariedade humana, o compadrio e as paixões garimpeiras bem como as táticas e estratégias no sentido mais completo e amplo apresentado por Michel de Certeau1, em sua análise sobre relações de poder. Torto Arado expõe o viver de uma comunidade de maioria preta, no sertão baiano da Chapada Diamantina.
As resenhas sobre esse livro são fartas, pois dele pode-se extrair o inusitado, o não dito, o tácito, o subliminar. Ele é inesgotável pois trata do humano. É uma fonte generosa da qual muitos temas podem derivar.
De um lado a fazenda Água Negra com ricos proprietários rurais que viviam das riquezas de suas terras. Um gerente e elo de ligação entre as partes, Sutério, que cumpria as ordens dos senhores.
De outro lado, aproximadamente 40 famílias, alguns descendentes de escravizados, outros pósteros indígenas que produziam a riqueza daquela terra. Capitaneadas por Zeca Chapéu Grande, o curador, o pai espiritual daquela comunidade rural. Homem digno, ético, trabalhador e profundamente religioso daquele grupo quilombola.
A história registra a vida de Donana, seu filho Zeca Chapéu Grande, casado com Salustiana, e pai de quatro filhos, sendo as mais velhas Bibiana e Belonísia, as protagonistas. Bibiana casou-se com o primo Severo e teve filhos, entre os quais, Inácio, última geração da história.
Como disse Bibiana, sobre Zeca: “Meu pai era respeitado pelos vizinhos e filhos de Santo, por seus patrões e senhores, e por Sutério, o gerente. Era exemplo e nunca se queixava. Era o trabalhador da mais alta estima da família Peixoto, que vivia dos frutos da Terra2.”
A comunidade era composta por pessoas de distintos lugares, trabalhando de domingo a domingo, de sol a sol, para terem direito a construir uma casa coberta de palha e deveriam plantar uma horta nos arredores para se manterem e manterem a família. E, importante, deviam ter “gratidão” aos senhores das terras da fazenda.
Personagem algum dá um passo nas terras imaginárias de Água Negra sem que esse movimento deixe de expressar um sentido: é o toque com a terra seca, é o esqueleto do caramujo que fere, é o charco lamacento, ou o chão molhado. Pode ser o espinho que transpassa o couro duro do pé. É a entidade espírita que chora seu cavalo perdido. Tudo tem sentido. Tudo se enreda para formar a comunidade da fazenda Água Negra.
Quem chegasse para trabalhar na fazenda “era forasteiro”, poderia “comer e viver da terra, mas deveria obediência e gratidão aos senhores”. 3
Esse eufemismo – forasteiro – era uma estratégia dos proprietários para que os trabalhadores não se sentissem rotulados como escravos: o nome já sugere que eram “de fora”, estranhos às terras em que moravam e, assim, não eram incitados a reivindicar, no futuro, por direitos que a lei lhes assegurava. Sequer casa de alvenaria poderiam construir. Enfrentavam as intempéries extremas, com o sol inclemente, que tudo secava, ocasião em que eles tinham que disputar as palmas dos cactos com os animais, ou tudo arrastava, nas épocas das cheias, com suas águas barrentas e escuras.
Não havia dinheiro, a não ser o pouco obtido com os gêneros que os moradores podiam vender, produzidos em seus quintais.
A cidade mais próxima era apenas tangenciada pelos moradores de Água Negra: iam à feira ou em raros casos, ao hospital, como certa feita foram as irmãs Bibiana e Belonísia; levavam os filhos para batizar ou, eventualmente, alguns deles frequentavam a Igreja do lugar. Assim era a vida naquela terra, pelo menos nas primeiras décadas da história.
Diante de tanta opressão, negligência, ausências, com tanto trabalho, enfermidades, insegurança, como essa comunidade poderia se manter unida? Qual elo aproximou e solidificou esse grupo social não permitindo que ele se esgarçasse e, pelo contrário, mantendo-o unido?
“Sem Deus, sem remédio, sem justiça, sem terra”4 o que poderia ter poder para mantê-los em um convívio de relativa tranquilidade num período de algumas gerações, nas terras da fazenda Água Negra? O que poderia dar àquela comunidade o direito de reinventar seu cotidiano, de dar algum sentido à vida desamparada e superar tantas dificuldades?
A religiosidade em Água Negra

Se as personagens que dão vida à história são inúmeras, a partir das principais, como Bibiana, Belonísia, Salu, Zeca, Severo e Donana – a mulher que falava com os espíritos, “entidade viva, quase sobre-humana” – as entidades espirituais também são apresentadas em grande número e são chamadas de “encantados” ou “encantadas”.
Os encantados e encantadas têm participação ativa no desenrolar da trama a ponto de uma delas, Santa Rita Pesqueira ser a narradora da terceira parte da história. Ela não apenas encerra o livro como também traz à tona episódios que não tinham sido elucidados. Ela é a memória da família de Donana e de seus ancestrais. É a encantada que lidera e que sofre por estar sendo esquecida com o passar do tempo, especialmente depois que seu cavalo, d. Miúda, morrera. É uma ótima tese buscar entender se Santa Rita Pesqueira não seria Donana, já encantada. Mas esse já é mais um spin off que esse livro oferece.
Ao longo das 262 páginas do livro, por 83 vezes, os nomes encantados e encantadas ou seus correlatos, como encantamento, encanto, desencanto são citados na obra. E aí já se encontra uma das fortes evidências da religiosidade como um dos fios condutores do romance.
As pessoas que chegavam para trabalhar na fazenda tinham na presença de Zeca, o pai espiritual, o forte esteio que ampara e conforta. O chapéu que usava como parte integrante de suas parcas e pobres roupas pertencera à sua mãe Donana que o herdara de seu marido José Alcino, pai de Zeca, morto antes de ele nascer. Mas Zeca herdara muito mais do que o chapéu de Donana.
Depois de um período complexo de desvario, ainda em sua juventude, Zeca fora colocado sob os cuidados do curador João do Lajedo, morador de Andaraí, na Bahia, até que pudesse se curar das aflições que o atingiram e para que pudesse seguir o caminho e a responsabilidade de um curador, para o qual, por imposição espiritual, fora talhado, afinal, nascera com o dom, com a dádiva divina de ser um curador uma vez que “os curadores serviam pra restituir a saúde do corpo e do espírito dos doentes”5, diria, anos depois, sua filha Bibiana.
Participava com interesse e atenção das cerimônias religiosas na casa de João do Lajedo, “identificava com facilidade as entidades que surgiam, mudava o ritmo da cantiga, sabia em que velocidade os atabaques deveriam ser tocados, dependendo se queria agitar ou amansar algum espírito (…) ele já podia compreender a natureza do parto, da vida e da morte de animais e de cultivos.”6
Já curado das moléstias que o acometiam ele deixa a casa de seu curador, sua mãe Donana e a fazenda Caxangá, onde vivia com sua família, e parte em busca da fazenda Água Negra, não antes de prometer que voltaria para buscar todos. Quando se despede diz à sua mãe Donana: “O Velho Nagô me acompanha, mãe.”7
Sob a tutela de muitas entidades, como preconizou sua mãe Donana, Zeca Chapéu Grande parte em busca de seu destino: “Que os caboclos e os guias o acompanhem (…) Sete-Serra, Iansã, Mineiro, Marinheiro, Nadador, Cosme e Damião, Mãe d’agua, Tupinambá, Tomba-Morro, Oxóssi, Pombo Roxo, Nanã.”8 A entidade “Velho Nagô” também o seguiu pois desde que Zeca fora “curado do que havia sofrido com as perturbações da mente, sentiu o Velho se aproximar, sentiu seu toque e conhecimento o cobrirem como um manto.”9
Depois de um dia e uma noite de caminhada, Zeca, exausto, sentia que “seus pés doíam (pois) não havia repousado durante a noite. Teve medo de adentrar a mata que não conhecia. Caminhou com seus encantados. Mas os riscos rondavam. Quem sabe seus próprios guias lhe dessem o medo banhado na luz da noite para o deixar vigilante diante dos perigos? Quem sabe esse medo não o fizesse chegar com segurança ao seu destino? Eles iam à frente abrindo caminhos. Ele sentia que eles afastavam os perigos da estrada. Os perigos das cobras, dos caititus, das onças. Os perigos dos coronéis e seus bandos. Os perigos da cobiça por terra e diamante. Deus era o guia maior que olhava por ele e guiava os encantados.”10 Essa confiança em seus guias espirituais ajudou-o a prosseguir.
Zeca Chapéu Grande partiu para essa empreitada ciente de que ela seria marcada pela presença dos encantados e encantadas sempre prontos a ajudá-lo em cada dificuldade: a entidade Mineiro que tinha chegado “com o povo das Minas Gerais e por aqui ficou porque ele entendia de povo de garimpo” estava por perto; já Oxóssi, o Caçador, lhe dizia “por onde seguir, em meio à mata o que o livrava dos perigos, das serpentes peçonhentas, e também enfeitiçava as caças que o alimentariam na nova morada”. Mãe d’Água “o guiava pela água doce, matava sua sede” e continuava surgindo entre as folhas verdes e os troncos das árvores, entre os espinhos e os galhos retorcidos. “Ela corria, aparecia e sumia, e seus pés se desfaziam num rio negro e limpo que era o próprio caminho e promessa de vida no seu destino”. Ventania seguia na frente, estimulando-o “para que permanecesse desperto em sua caminhada.”11
Esses guias ou encantados e encantadas interagiam com os humanos de forma natural como os deuses e deusas homéricos milenares, providos de emoções e personalidades particulares, também se relacionavam com as pessoas comuns. Por conseguinte, como não associar o périplo desse homem sertanejo e a proteção que recebia de seres sobrenaturais às mitológicas intervenções divinas e decisivas dos deuses e deusas primordiais, com as quais Ulisses foi afortunado, numa aventura heroica, ao tentar voltar para casa, como narra o épico Odisseia, de Homero?
Respaldados na fé, a busca pelo êxito na empreitada foi encontrada nos seres cósmicos, como os encantados e encantadas de Zeca ou os deuses e deusas de Ulisses. Nas duas situações as atuações transcendentes foram decisivas para que os dois homens pudessem chegar aos seus destinos.
Com as bênçãos de seus protetores e protetoras chegaram dois Zeca Chapéu Grande na fazenda Água Negra: o Zeca trabalhador, fiel ao seu compromisso com os objetivos traçados do qual nunca se afastou e o Zeca religioso, seguidor da tradição religiosa do jarê12 e que depois de travar penosas batalhas com seu curador João do Lajedo, foi convencido a aceitar o “fardo do qual não pode livrar-se”13; e apesar de Donana não ter sido apontada como curadora, nela estava contida uma poderosa força mística e toda a carga hereditária de seus antecedentes que foram forçados a atravessar o Oceano Atlântico. E ela transmitira essa herança a seu filho Zeca.
Tão logo seus pés pisaram na terra da fazenda, Zeca apresenta suas credenciais: “Vim porque preciso de trabalho. Vim porque sou moço e tenho força pra trabalhar. Tenho mão boa para plantação. Tenho reza e remédio para praga de bicho comichão.”14 Na fazenda Água Negra ele encontra Salu e dá início à sua nova vida.
É por intermédio das protagonistas Bibiana e Belonísia que o leitor fica ciente de que os valores, crenças e práticas religiosas de Zeca estavam presentes desde sempre no lugar em que foram criadas, quando afirmam que “desde cedo, havíamos precisado conviver com essa face mágica de nosso pai.”
A cosmovisão dos ancestrais escravizados e escravizadas sincretizaram-se com a visão de mundo dos remanescentes indígenas que habitavam aquele sertão e com as práticas e rituais cristãos. Diante desse contexto histórico e social, a religiosidade emergiu como elemento estruturante da vida comunitária, conferindo sentido e coesão à existência marcada pela exploração.
No episódio sobre o desvario de Crispina, por exemplo, que ficara internada na moradia do curador até recuperar a sanidade pelas mãos de Zeca, Bibiana narra o fim do tratamento da jovem lavradora: “Agora, mais que antes, laços concretos nos uniam: a mão de meu pai estava repousada, enquanto vivesse, em sua cabeça. Repousada na cabeça dos membros de sua família. Zeca Chapéu Grande não era apenas um compadre. Era pai espiritual de toda a gente de Água Negra.”15
Esses vínculos aos quais se referia Bibiana foram a atenção, o cuidado, as mezinhas, as rezas que saíam da boca de seu pai e que “remetiam à segurança da magia que lhe creditavam”. Assim, pela força espiritual de Zeca, a jovem Crispina é curada. E esses laços concretos, como longos e protetores braços, uniam toda a comunidade em torno do curador, em sua simples morada: uma casa-templo.
Em que pesem os casos pessoais atendidos e solucionados por Zeca, eram as festividades (ou brincadeiras) de jarê que reuniam a comunidade de Água Negra e de outros lugares.
Essas atividades serviam como a válvula de escape, o lugar seguro onde a crença numa visão cósmica do mundo poderia ser expressada; onde a liberdade e a alegria podiam se encontrar sem os compromissos das obrigações da fazenda; ali imperavam a alegria, as danças, as cantigas; onde os encantados e encantadas se abrigavam nos corpos de seus cavalos para também participar das celebrações; onde conselhos eram pedidos, orientações eram dadas. Ali, nas festas de jarê, quando a alma se sentia inquieta pelo incômodo do “encosto ruim”, havia o conforto de sentir-se amparado.
Enquanto os tocadores aqueciam seus tambores na fogueira acesa no terreiro, as filhas de santo ajudavam Zeca a se paramentar no quarto dos santos. É nesse espaço, conta Bibiana, que se “rezavam a ladainha, tinha velas acesas e uma profusão de cores das imagens e bonecas. Havia imagens de gesso e madeira de diferentes tamanhos e estado de conservação. São Sebastião, Cristo Crucificado, o Bom Jesus, são Lázaro, são Roque, são Francisco, padre Cícero. Havia pequenos quadros, uns de cores vivas, outros desbotados, de são Cosme e são Damião, Nossa Senhora Aparecida, santo Antônio. Havia fotografias de meus pais, da velha Donana, outras tantas, pequenas, de devotos. Havia flores de papel, algumas mais novas, outras pálidas. Sempre-vivas, que colhíamos na estrada ou nas cercanias, entre as rochas.”
O calendário litúrgico cristão era seguido para os acontecimentos religiosos. Datas como o dia de São Sebastião, “santo de devoção de nosso pai e celebrado na sua data de nascimento, havia a maior festa, a que mais agregava gente e a que mais trazia devotos de fora da fazenda. Muitos vinham de longe pra seguir os rituais da brincadeira para festejar com bebidas e comidas as dádivas que haviam recebido dos encantados.”16 Até o prefeito da cidade próxima comparecia às festividades. Santa Bárbara, incorporada em Zeca Chapéu Grande interpelou, certa feita, o prefeito e, na frente da audiência, com a espada em riste pediu que ele cumprisse a “promessa feita no passado (…) de construir uma escola para os filhos dos trabalhadores.”17
A noite de Santa Bárbara, a Iansã, era celebrada no dia 04 de dezembro. Incorporada em Zeca devidamente paramentado com as roupas de Iansã – ainda que a contragosto, posto que o curador se sentia constrangido em usar as saias do Oyá – Iansã rodopiava com seus movimentos rítmicos, ao som dos atabaques enquanto a audiência cantava, em coro: “É santa Bárbara, virgem dos cabelos louros, ela vem descendo com sua espada de ouro”.
No pequeno espaço da casa-templo, o sagrado e o profano se relacionam, se complementam, se confundem. É a religiosidade sem compromisso com as formalidades; as manifestações são descontraídas, livres, informais. É a religiosidade comumente chamada popular.
Corroborando com as palavras de Belonísia, “Zeca Chapéu Grande havia mantido os moradores da fazenda unidos, foi liderança do povo por anos, e sem permitir que infligissem maus-tratos a nenhum trabalhador da fazenda” e conclui que “muitas vezes interveio, sem afrontar Sutério, para impedir injustiças maiores que as que já existiam. Graças às suas crenças, havia vigorado uma ordem própria, o que nos ajudou a atravessar o tempo até o presente“18 (grifo nosso).
Contudo, desde o período da adolescência de Severo, novos ares começavam a oxigenar as terras de Água Negra, ocasionando uma série de abalos que apresentavam sentidos distintos de acordo com a perspectiva de quem os observava: para os proprietários da fazenda as novas ideias eram propagadas por um “bando de vagabundos”; já para os trabalhadores era o despertar da conscientização de que eles tinham direitos adquiridos e valia a pena lutar por eles. E saber que a “fazenda havia sido vendida a um preço minguado” devido à presença dos trabalhadores, que, morando no local a haviam desvalorizado, só contribuía para aumentar o desejo de lutar por seus direitos.
Na terceira parte do romance, quando o livro já se encaminha para o final, a encantada Santa Rita Pesqueira assume a posição de narradora e protagonista – os três atos do livro são narrados por mulheres – preocupada com o declínio de cavalos nos quais pudesse se incorporar. A Pesqueira, fiel representante da ancestralidade africana pois ressignifica a relevância dessa ancestralidade para o presente, também participa de decisões fundamentais, ao final do livro.
Após a venda da fazenda, a chegada de um “pastor de igreja” e candidato a vereador, como diziam, pedindo para fazer um culto para os moradores, causou contrariedade em Salu e Belonísia, que se recusaram a recebê-lo, mas esse episódio remeteu Salu ao seu passado, quando ela contou a seu neto Inácio, filho de Bibiana e Severo que sua avó “contava que os negros de Lagoa Funda chegaram num tempo que ninguém sabia dizer. Cada um tinha sua tapera, tinham suas roças, plantavam na vazante do rio São Francisco. Os filhos iam nascendo e iam fazendo suas casinhas e botando suas roças onde os pais já tinham. Durante muito tempo, não houve nada nem ninguém por aquelas bandas. Eram só o povo e Deus. Depois chegou a Igreja e disse que as terras da cidade lhe pertenciam. Não demorou muito e chegou até Lagoa Funda e tudo o que estava em volta da cidade. Disse que nossa terra pertencia à igreja, também”. Inácio, atento à história, pergunta se o povo teve que sair de seu lugar, ao que Salu responde: “Não. A igreja marcou com ferro as árvores com um B e um J de Bom Jesus. Marcou tudo o que podia. Disse que as terras pertenciam à Igreja e nós éramos escravos do Bom Jesus19. Bom, o povo estranhou, porque não se falava em escravidão em Lagoa Funda”.
A instituição religiosa católica acatou esse sistema social e econômico infame para seu próprio benefício. “O homem jamais acabará com a escravidão”.
Conclusão
A história da comunidade de Água Negra, em sua primeira parte, narra a vida em sua forma mais crua, destituída de qualquer sonho, na qual a luta pela sobrevivência é primordial.
Essa comunidade encontrou na religiosidade de Zeca Chapéu Grande, o guia espiritual de todos, com seus encantados e encantadas, o alento para conseguir superar as adversidades contínuas que a vida lhes apresentava, vivendo em um lugar “sem Deus, sem remédio, sem justiça, sem-terra.” Na casa-templo de Zeca a catarse acontecia muito além das questões religiosas: ali também se desfiava o rosário das angústias cotidianas, como o desabafo de uma companheira de infortúnio sobre a visita dos patrões às roças da fazenda, reclamando que eles não deviam levar o produto do quintal de suas moradas, que os moradores plantavam. “Até folhas pra chá levam. E se as batatas colhidas estiverem pequenas fazem a gente cavoucar a terra para levar as maiores”, dizia uma moradora com os olhos arregalados “para mostrar sua revolta. Que usura! Eles já ficam com o dinheiro da colheita do arroz e da cana”.
Essa forma libertária e democrática de viver a sua fé, como na brincadeira de jarê, na qual Zeca, o pai espiritual de todos, incorporou santa Bárbara e mais duas mulheres presentes no evento também receberam a Iansã, evidenciava que ali todos os direitos eram iguais. Santa Bárbara podia se multiplicar para atender a todos na audiência.
Religião livre para, num só ato, poder reunir um santa, uma iansã, um curador e um prefeito, numa audiência repleta e harmônica; dividir o mesmo espaço, conjugar as mesmas ideias. É a forma de religiosidade que agrega. Na casa-templo de Zeca Chapéu Grande o sagrado e o profano se mesclam, se fundem para gerar uma forma de religiosidade: a religiosidade popular.
O episódio em que Salu conta a seu neto Inácio sobre a chegada da Igreja em Lagoa Funda, onde nascera, é decisivo: apenas Deus era a companhia deles, naquele tempo, “depois” chegou a Igreja.
A instituição católica, recém estabelecida naquele local, e que de tudo se apoderara, não fazia parte do ambiente carregado de significado espiritual que a comunidade já havia construído. Essa igreja não era a legítima representante divina para eles que tinham a sua própria religião, criada de acordo com suas origens, suas crenças e realidade: eles já conviviam com o seu Deus.
Três gerações depois, a religiosidade em Água Negra perdeu sua força e os últimos e trágicos acontecimentos foram decisivos para esse abalo estrutural. Santa Rita Pesqueira perdeu seu cavalo e não tinha mais montaria para caminhar como devia “da forma que um encantado deve se apresentar entre os homens, como deve aparecer por esse mundo”. Desde então passou a “vagar sem rumo, arrodeando aqui, arrodeando acolá, procurando um corpo que pudesse me acolher (…). Sem corpo para me apossar, vago pela terra.”20
Mas, vale a ressalva de que, com a vinda de novos trabalhadores para a fazenda, ainda na infância de Bibiana e Belonísia, quando a filha mais velha de Salu e Zeca ainda não compreendia a dominação que “nos faziam trabalhadores cativos da fazenda”, o irmão de Salu chega com sua família para aumentar o contingente de mão de obra gratuita do lugar, como já explicitado.
Com eles, entre tantos filhos, chega Severo: de início um menino trabalhador, espantador de chupim e, já na adolescência, um jovem sonhador, que devaneava e agia, em busca de direitos e da justiça social que as leis lhes asseguravam. Esses ideais, não sem muita luta e sangue, chegaram a Bibiana, Belonísia, Zezé e toda a comunidade da Água Negra, se esparramando como ares fecundos pelas gretas e frestas das palhoças de barro, pelos tetos de junco e taboa que cobriam as taperas.
A comunidade de “forasteiros” ou “escravizados” não mais seria a mesma.
- Conforme MENDONÇA, José Ricardo Costa. Poder-resistência e estratégia-tática: aproximação e distanciamentos teóricos entre Foucault e Certeau. XLVI Encontro da ANPAD. Versão on-line. 21 a 23 de set/2022, “para Certeau os indivíduos inventam táticas (ou micro resistências), em resposta às estratégias, com o objetivo de criar um espaço para se desvincularem das estratégias de controle e de dominação presentes em um lugar determinado”, já “as estratégias são mecanismos de articulação, que condicionam relações de forças e dominação, ao impor certa ordem, a partir daquele lugar, na estrutura social”. No caso específico de Torto Arado enquanto os proprietários proibiam
↩︎ - VIEIRA JÚNIOR, Itamar. Torto Arado. 1ª. Ed. São Paulo: Todavia, 2019, p. 53. ↩︎
- Idem, 183. ↩︎
- Idem, 259. ↩︎
- Idem, 39. ↩︎
- Idem, 181. ↩︎
- Idem, 183. ↩︎
- Idem, 183. ↩︎
- Idem, 189. ↩︎
- Idem, 188. ↩︎
- Idem, 189. ↩︎
- “Assim como as demais religiões de matriz africana, no Brasil, o jarê surge historiucamente por meio de complexas interações culturais entre cultos afro com o catolicismo popular de origem ibérica, o espiritismo e culturas indígenas”, conforme cantigasdojare.com.br, PARÉS, L. N. Religiosidades. In: SCHWARCZ, L.M.; GOMES, F. dos S. Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. [s.l.]. Editora Companha das Letras, 2018. Acesso em 13 de junho de 2025. ↩︎
- ALVES,Paulo Cesar, RABELO, Miriam Cristina, V ENECULT. Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura
27 a 29 de maio de 2009. Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil. O JARÊ – RELIGIÃO E TERAPIA NO CANDOMBLÉ DE CABOCLO. ↩︎ - VIEIRA JÚNIOR, ob. cit. p. 190 ↩︎
- Idem, p. 41 ↩︎
- Idem, p. 45. ↩︎
- Idem, p. 65. ↩︎
- Idem, p. 196 ↩︎
- Sobre a prática da escravização pela Igreja Católica, no Brasil, ver FRANCO, Vitor Hugo Monteiro. ESCRAVOS DA RELIGIÃO; Família e comunidade na fazenda São Bento de Iguassú (/recôncavo do Rio de Janeiro, Século XIX), Curitiba: Appris, 2021. ↩︎
- VIEIRA JÚNIOR, ob. cit. p. 203. ↩︎

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