EPIDEMIA, MORTE E FÉ: Sacralização popular da Mártir Filomena na cidade mineira de Araxá

  1. A varíola

“A varíola sobrevivia apenas no corpo humano. Fora dele, digamos, numa página de livro, se a varíola não conseguisse chegar a uma célula humana dentro de algumas semanas, ela pereceria. Nenhuma outra criatura serviria; nenhum outro animal poderia dar ao vírus um lar. Isso foi decisivo para sua derrota.”

Os surtos epidêmicos que devastavam populações e que  deixaram marcas profundas na história da humanidade eram  frequentemente associados às represálias e aos castigos celestes. Da Antiguidade à Peste Negra no século XV – eternizada por Boccaccio em Decamerão como fruto da “justa cólera divina” -, a enfermidade flutuou entre o mistério sagrado e a busca pela explicação médica. Se o grego Hipócrates já no século V a.C tentava dessassociar as patologias das iras dos deuses ao propor o equilíbrio dos humores corporais, a razão científica levou milênios para conseguir rivalizar com as práticas religiosas e superá-las.

O vírus da varíola (Orthopoxvirus variolae), em sua longa trajetória de cinco mil anos, a partir do relato da primeira manifestação na história da humanidade, deixou um rastro de mortes e de desespero por onde passou como um açoite ensandecido. A cada três pessoas acometidas pelo vírus, uma era levada a óbito, enquanto as outras passavam a viver com os vestígios esparramados pelo corpo – marcas idênticas àquelas que os imunizados carregam na parte superior do braço – como cicatriz da vitória da ciência sobre esse flagelo.

Até a vitória científica com a erradicação da varíola o vírus ceifou vidas, imprimiu sinais nos corpos dos sobreviventes e deixou vestígios na história. Oficialmente, todos os vírus da vacina existentes no planeta encontram-se congelados em apenas dois laboratórios: em Atlanta, nos Estados Unidos, e na Sibéria, na Rússia.

As epidemias de varíola – como tantas outras que se abateram na história da humanidade – derrotaram governos e vergaram religiões; desarticularam cotidianos e permaneceram no imaginário das comunidades por longos períodos, enquanto os sobreviventes tentavam recompor suas vidas, marcadas por ausências e perdas. Segundo McNeill, elas facilitaram o domínio por invasores estrangeiros, pois

a história da conquista da América seria incompreensível se não se ressaltasse o papel da epidemia de varíola, que dizimou as populações nativas, propiciando a vitória dos espanhóis“. 

A partir da chegada dos europeus e no transcorrer dos séculos que se seguiram à conquista ibérica, as epidemias palmilharam a história colonial da América e do Brasil. No século XIX, contudo, os avanços da medicina e da higienização pública colidiram frontalmente com dogmas e costumes culturalmente arraigados. A proposta de transferir os sepultamentos do interior e do entorno das igrejas para cemitérios afatados dos centros urbanos, por exemplo, gerou forte resistência popular, como a “Cemiterada” na Bahia (1836). Em Araxá (MG) o cidadão João Carneiro de Mendonça denunciava à época os riscos à saúde causados pelas covas rasas no cemitério atrás da Igreja Matriz, registrando que “os porcos e cães que eram criados soltos nas ruas, ao revirarem a terra do cemitério, desenterravam os cadáveres em decomposição produzindo, além da ‘fedentina insuportável’ [e das ] cenas de horror que nós mesmos podemos imaginar.

Paralelamente, a vacinação obrigatória enfrentou medo e recusa sistemática. Documentos da Câmara Municipal de Paracatu registram que em 1858, a própria edilidade deliberou arquivar e não aplicar as “lâminas de pus vacínico” enviados pela província de Minas Gerais. Anos mais tarde, em 1904, essa mesma resistência culminaria na Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro. Foi nesse cenário de incertezas, tensão entre ciência, religião e infraestrutura sanitária precária que a varíola (bexiga preta) se abateu sobre o sertão mineiro.

2. A epidemia de varíola em Araxá

    Com matizes sombrias, deveria ser pintado o quadro de uma cidade, no final do século XIX, tomada pela força implacável de uma epidemia, onde a ciência era posta em dúvida e todos os fundamentos da existência humana eram pautados pela religião. Os acessos à cidade foram fechados, interrompendo o afluxo de pessoas; as precárias casas de saúde ficaram repletas; os sinos tocavam incessantemente, anunciando novos mortos, a ponto de incomodar os enfermos; ao caminhar pelas ruas e becos podiam-se ouvir os prantos dos que perdiam seus entes queridos e dos que viam irromper, na própria pele, as máculas que se transformariam em pústulas, no calor do corpo febril.

Para aplacar a fome da população, alimentos eram deixados nas entradas da cidade pelos moradores solidários de municípios limítrofes, comprovando o grau de indigência e de desarticulação em que a cidade vivia. No abrir e fechar de covas rasas que recebiam os fardos mórbidos, os ritos religiosos ficavam suspensos ou simplificados.

O espectro das epidemias sempre rondou o cotidiano do araxaense no século XIX, através dos surtos que se instalavam na Província ou no país, ou das medidas governamentais que buscavam controlar o inimigo invisível. Em abril de 1834, a Vila de Araxá recebera um par de lâmina de pus vaccine acompanhada de 12 mil réis para dar início a uma campanha de vacinação em massa, que não foi realizada. O temor do pus vaccine aconselhava que era melhor não proceder à vacinação, pois “em lugar de lhes proporcionar um bem futuro lhes pode trazer um mal presente”.

Em 5 de agosto de 1891, quando a população se julgava no maior bem-estar (…) irrompeu a epidemia de varíola, cujo primeiro caso foi observado em casa de um padeiro, sr. José Godinho, e que contaminou toda a cidade, relata o memorialista Sebastião de Afonseca e Silva. Em 4 de novembro do mesmo ano, a enfermidade atingiu a Freguesia de São Miguel da Ponte Nova, distrito próximo a Araxá, conforme os registros do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento.

Instalada na região, a varíola assombrou de tal forma a população que até os dias atuais o flagelo da bexiga preta ecoa pela cidade. Segundo Sebastião Afonseca e Silva, o memorialista da cidade e que na época tinha 14 anos, no início da epidemia, quase toda a população de Araxá estava sem vacinar, o que indica não terem sido bem-sucedidas – ou sequer tenham sido providenciadas – as campanhas de vacinação, haja vista o relatado nas atas da Câmara de Paracatu. Alguns, ou melhor, aqueles que podiam, procuravam se distanciar do flagelo, conforme pontua Afonseca e Silva: “impelida por um só impulso, um verdadeiro êxodo abandonou a cidade, refugiando-se nas fazendas dos parentes e amigos.

Muitas formas de contágio já eram conhecidas, afinal, a humanidade sempre conviveu com os microrganismos e, por óbvio, mantinham algumas condutas de afastamento. A fuga dos lugares acometidos pela peste era uma delas.

Sobre a já citada pandemia da Peste Negra, de 1348, na Europa, em seu esclarecedor livro sobre as epidemias, nos conta Ujvari que

“Entre as pessoas que fugiram da peste não se destacaram aquelas que permaneceram exercendo seu papel na comunidade, membros do clero e dos conselhos municipais. Algumas delas continuaram aglomeradas e enclausuradas, e assim foram vítimas do mal. Todos os agostinianos de Avignon morreram, bem como todos os franciscanos de Carcassone e Marselha, que eram em torno de 150. Dos 160 franciscanos de Maguelone, 153 morreram; em Montpellier, sobraram apenas sete franciscanos dos 140 ali existentes.”

Assim como a peste negra na Europa, nem o corpo eclesiástico da cidade, esteio da segurança e da esperança do povo araxaense, ficou imune ao flagelo. Entre as muitas morte, o falecimento do pároco local, padre Belchior Ferreira da Silva que cumpria o seu “sagrado dever religioso”.Essa morte teria afetado profundamente aos araxaenses que assistiram ao último esteio da esperança ser abatido. Tal fato intensificou os momentos de pânico até então vividos pela população, afinal cabia à Igreja orientar seus fiéis naquele momento de angústia.

Embora o falecimento do pároco local pudesse conter ingredientes para um processo de sacralização, afinal, ele morrera no “sagrado cumprimento de seu dever religioso”, atendendo aos moribundos ou ministrando-lhes a extrema-unção e amparando espiritualmente as famílias que tinham perdido seus próximos, foi uma mulher desconhecida, sem sobrenome ou biografia que foi elevada à condição de Mártir da epidemia. “Ela tem poder. Se você se apega com fé, ela te atende. Eu já alcancei muitas graças. Para mim, para minha família”.

Segundo o sucinto relato de Afonseca e Silva, a morte de Filomena teria ocorrido sem agravamentos que justificassem quaisquer comentários adicionais – além daqueles concernentes à situação ocasionada pela terrível enfermidade. Ela teria sido enterrada fora do espaço sagrado devido ter desaparecido o termo de coveiro e condutores de defunto de varíola”:

“De dezembro a janeiro, o declínio do mal já era franco e animador; raros casos eram notificados, e o povo em geral, ansioso por voltar a seus lares e quase todos já vacinados, começaram a entrar na cidade e a receberem os gastos que haviam feito. Contudo, ainda um ou outro caso era observado, e o último deu-se com uma mulher de nome Philomena de Tal, que teve a infeliz sorte de ser sepultada quase junto à estrada que subindo a ‘casa’ do Juca Pereira, fica logo no alto, indo junto a umas árvores de óleo, se vê uma cruz fincada.”

O surto epidêmico demorou aproximadamente cinco meses e

“debelado enfim, o pavoroso flagelo, de funestíssima memória, volta os foragidos aos seus lares abandonados. E é fácil imaginar o aspecto da cidade quando isto se deu. Tudo ali era triste, lúgubre, desolador. As casas, durante cinco meses desabitadas, transudavam a bolor e de seus interiores escapava um bafio de masmorra infecta… as ruas e praças, literalmente invadidas pelo matagal (…) e na lividez marmórea de cada fisionomia daqueles que voltavam aos seus penates, se estampava o terror, esse terror que é quase demência. Por toda a parte a devastação, a ruína, o luto.

Registros historiográficos relatam que a epidemia de varíola se abateu sobre os 2.400 habitantes do perímetro urbano de Araxá, quando a cidade sofria sérios problemas estruturais. A Câmara Municipal, por exemplo, não podia realizar as reuniões em seu recinto, devido ao estado precário de conservação; ruas sem calçamento e sem iluminação pública, enquanto a maioria das casas não possuía instalações sanitárias nem fossas sépticas. A população que convivia com animais soltos pelas ruas, não tinha acesso à água potável, pois existia “um projeto para a construção de uma caixa d’agua no alto da cidade, mas não tinha sido encontrado, ainda, alguém capaz de executá-lo.”

O estado de desassossego vivido por aqueles araxaenses que, não tendo para onde fugir, sucumbiam ante a peste, como a varíola também ficou conhecida, é claramente percebido. A peste era o castigo do corpo e da alma, da vida presente e do post mortem, afinal essa era uma condenação por pecados cometidos. A fé foi o sustentáculo encontrado pelos moradores de Araxá e região nesse quadro de amarguras que, facilmente, poderia ser remetido às descrições do purgatório, do inferno, das punições divinas pelas transgressões cometidas e tão apregoadas pelos representantes da Igreja e pelos livros religiosos. 

Nesse cenário de horror, apenas a fé era o remédio. Apenas ela poderia vicejar, pois como esclarece a psicóloga Eliude Felix o entrelaçamento entre religião e sofrimento, acredita-se “que são dois caminhos distintos, mas que findam por encontrar-se e permanecem juntos até que o sofrimento receba um novo sentido”.

À beira de um caminho de terra batida, uma cruz estava, invariavelmente presente, coroando a cova rasa daquela cuja morte assinalou o fim de uma epidemia mortal, no entendimento daqueles que começavam a tecer a história da “Mártir Filomena”, como ficaria conhecida. E eram as pessoas do campo que, deixando suas casas (ou voltando para elas) se deparavam com o signo da morte fora do lugar apropriado, ou seja, fora do cemitério local. A pungência do encontro entre a cruz e os crédulos que por ali passavam teria sido um ponto crucial no qual esses devotos, munidos da doutrinação recebida ao longo da vida, buscassem fundamentos para aquela situação anticristã. A cena representada suplicava explicação que pudesse justificar uma cruz, símbolo tão presente na vida cristã, fora do lugar apropriado. Era imperioso dar-lhe sentido. 

Respondendo sobre as lembranças de seu primeiro contato com a cruz de Filomena, relata D. Joana

“Ah! Seria eu bem pequenininha. Meu pai contava essa história. Fala até o nome da pessoa que fez o enterro, que se chamava Agostinho Lalau. Ele levou a Filomena no carrinho – assim meu pai contava – chegou lá e enquanto ele abria a cova para enterrar ela, ela pedia água e ele [o pai de D. Joana] acha que como era inverno e não tinha água, e com a pressa de enterrar, ele a enterrou pedindo água (…) Ele a enterrou viva, pedindo água. Da moda do outro, quando a pessoa queria pedir um milagre ou uma coisa assim, levava uma garrafa de água, e rezava um terço, um pai-nosso, uma ave-maria, lá, junto (…) dizem que ela pediu água e Agostinho Lalau puxava terra que tinha que fazer muitos [enterros].”

Com referência à informação de que Filomena de Tal fora enterrada viva, como afirma D. Joana e muitos outros depoentes deve-se considerar que em casos extremos como epidemias, os sepultamentos de enfermos em estado cataléptico, é de possível ocorrência, especialmente quando o receio de contágio forçava o maior distanciamento possível  das pessoas acometidas com a moléstia.   

Quanto das lembranças contadas por seu pai ainda persistiam integralmente na memória de D. Joana? Quantas incorporações ocorreram, ao ouvir de outros narradores, essa mesma história? Quanto foi acrescido, inconscientemente, ao longo dos seus oitenta e três anos de vida, na ocasião do depoimento, por ela acreditar que aquele fato aterrador, de se sepultar uma pessoa viva, como forma de “simpatia”, como será explicado a seguir, deveria ter ocorrido da forma como ela narrava? As memórias tendem a  modificar, flexibilizar, querem sempre atestar, responder, contestar. Querem ser verbalizadas; querem existir para além dos guardados mnemônicos.  

A cruz solitária na beira da estrada foi o ponto de partida para a busca por explicações, para se tentar entender o ocorrido, pois se o sepultamento, no mundo ocidental, mesmo realizado dentro dos parâmetros estabelecidos pelas igrejas é uma situação angustiante, quando ocorre em lugar devoluto, distante do espaço religioso, “produz medo, terror”, especialmente quando

“o imaginário do mundo cotidiano que o homem do campo habita é povoado de seres vagantes, humanos, sub- e super-humanos. Seres que a luz elétrica e as ideias claras espantam, empurram para o fundo dos matos, mas que até hoje não deixaram de existir nem perderam de todo o seu poder”.

Referindo-se a Max Weber, para quem “o homem é um animal amarrado a teias de significações que ele mesmo teceu, Geertz afirma que “assume cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura de significados.

3. As águas minerais

Os primeiros moradores da região de Araxá se instalaram no local devido à ocorrência das águas minerais e, em 1791, a região é reconhecida como Freguesia de São Domingos do Araxá. Essas águas minerais, tão importantes para a alimentação dos animais, devido à presença de sal natural, “são límpidas e de cor avermelhada, com um gosto amargo que lembra ao mesmo tempo o de ovos podres”, registrou Auguste de Saint-Hilaire, quando passou pelo local por ocasião de seu périplo pelo Brasil (entre 1816 – 1822). E segue o botânico francês: 

“A menção dessas simples características é suficiente para mostrar que elas são sulfurosas e, em consequência, poderiam ser empregadas na cura de todas as doenças para as quais são aconselhadas águas desse tipo, e em particular das moléstias de pelo, tão comuns no Brasil”.

Desde o feliz prognóstico de Saint-Hilaire muitos estudos começaram a ser desenvolvidos sobre a potencialidade das águas araxaenses sendo, inclusive, comparadas às grandes estações de águas francesas. As águas minerais de Araxá eram recursos indispensáveis ao gado vacum e cavalar. Notícias auspiciosas na terra “onde o sol nasce primeiro”. 

A historiadora Glaura Teixeira Nogueira Lima afirma que o zelo com a saúde física e a busca de clima ameno fizeram do Barreiro – como era chamado o afloramento das águas minerais devido ao pisotear dos animais que iam beber as águas – um reduto para temporadas das elites, principalmente dos grandes cafeicultores paulistas:

“Os anúncios que faziam a propaganda de Araxá aliavam o triunfo das águas ‘milagrosas’ à existência de vistas panorâmicas, ‘bellos parques e jardim de recreio com pomar’. As ‘casas de regimens’, atrativos de alguns hotéis ou de consultórios médicos, investiam em alimentação adequada aos ‘aquistas’ acometidos por doenças”. 

Nesse momento de perspectivas positivas, com a possibilidade de criação de uma estância hidromineral na cidade, ocorre o fatídico flagelo de agosto de 1891.

A propalação de episódios que, quando não matam, deixam marcas no corpo e “envenenam o espírito”, poderia comprometer o projeto de uma cidade “sã”. Para uma cidade que já tinha instalado uma casa de repouso” próxima às fontes minerais e que procurava atrair pessoas, “vendendo saúde”, a instalação de uma epidemia com alto índice de contágio representou sérias perturbações.

Os projetos que visavam a exploração econômica das águas do Barreiro, e que poderia impulsionar a cidade deveriam aguardar alguns meses para ter seu início, por força da epidemia de varíola. 

Para socorro das vítimas flageladas pela epidemia, o Presidente do Estado concedeu um crédito de dois contos de réis para a Freguesia de São Miguel da Ponte Nova e cinco contos de réis para a cidade de Araxá. Assim, o Estado mineiro tentava remediar o golpe aterrador que deixara em seu rastro várias mortes, bem como a economia e a sociedade desorganizadas. 

Nesse contexto paradoxal, Araxá se encontrava, nos fins do século XIX, entre o fim de uma catástrofe e o impulso benéfico das águas minerais que curam.

4. A vida e a morte sob custódia da fé

Consta no livro sagrado do cristão, no Velho Testamento, uma referência sobre o “culto aos mortos”, que doutrina sobre o comportamento ante um morto: “Meu filho, derrama lágrimas sobre o morto, e chora como um homem que sofreu um rude golpe. Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não desprezes a sua sepultura.

Historicamente, a Igreja Católica exerceu controle absoluto sobre o cotidiano e o imaginário ocidental, associando a moralidade e a salvação à obediência cega aos seus dogmas. Sob a ameaça constante do inferno e do purgatório, a instituição moldou uma “pedagogia do medo” onde a vida terrena deveria ser pautada na busca por uma “boa morte”. Esse monitoramento gerou um sentimento de vigilância divina constante e temeroso para o indivíduo.

As horas eram assinaladas pelos sinos, as atividades além do trabalho físico, eram determinadas pelos calendários litúrgicos; cada dia tinha um santo correspondente a quem deveriam ser dirigidas as preces; as orações ao nascer do dia eram imperiosas, e ao se deitar, também. Os nascimentos eram registrados na Igreja, notadamente no dia do batismo, afinal, era essa a data em que a pessoa nascia para o reino de Deus, assim como a morte, que deveria ser registrada no livro específico cristão. 

Apesar de o Deus cristão ser onipresente, onisciente e onipotente, cabia à instituição acompanhar, educar, conhecer segredos mais íntimos, punir, absolver (ou não), enfim, todos os poderes sobre a vida humana foram outorgados a ela. E a certeza de saber que Deus via e ouvia seus atos e seus pensamentos todo o tempo, pode ter sido angustiante, intimidador e traumático para o indivíduo. 

Poucos acontecimentos são tão presentes no imaginário da humanidade quanto o “morrer”. Presente e temido. A morte comprova a fragilidade e a impermanência humana. Essa forte herança religiosa moldou profundamente as reações coletivas diante do fim da vida. Como aponta o historiador Jean Delumeau, o medo da morte e da decomposição física andava de mãos dadas com a busca por proteção espiritual face a grandes tragédias, como as epidemias de peste.

Delumeau (1923 – 2020) corrobora com precisão o ocorrido no lugar de memória em que começava a ser transformada a pequena “cruz da Filomena”: o ato milenar de benzer-se em frente a uma cruz ou algum objeto sagrado, o poder da fé e a prática integradora de contar histórias, procurando, neste ato, entender e explicar o acontecido:  a oralidade. 

E foi sob a chancela desta prática que a história da última vítima da peste, em Araxá, avançou e chegou a todos os lugares da cidade: a persistência da memória através da oralidade. 

O regime de terror era o açoite invisível que as doutrinas utilizavam para manter os “cordeiros de Deus” sob rédeas curtas; a obrigatoriedade de manter a fé era cobrada diuturnamente pela Igreja, pela família, por toda a sociedade. Esse sentimento chamado Fé e que impulsiona a prática da religiosidade popular vem sendo estudado há muito tempo, por várias disciplinas. 

4.1. A fé

    Qual seria, afinal, a razão para a submissão humana que, em mais de dois milênios, possibilitou à Igreja Católica esse total domínio sobre pessoas, cidades e nações? A resposta teológica inicial remonta ao cristianismo primitivo, quando o apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Hebreus, procurava estimular a fé dos primeiros cristãos-judeus para evitar que caíssem em apostasias. Para esse incansável semeador, a preservação da fé representava a própria possibilidade de salvar a alma, definindo-a como “o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que não se veem”.

    Expandindo essa visão para além do dogma bíblico, o teólogo Professor João Batista Libânio conceitua a fé como “uma experiência humana fundamental que se faz entre as pessoas e que se prolonga para coisas, mistérios, religiões”, concluindo que crer é a condição essencial para existir no convívio humano. Sob essa ótica, o termo compreende conceitos como confiança, envolvimento e fidelidade, enquanto a palavra “experiência” ganha o sentido dicionarizado por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que a define como a “prática da vida” e o “conhecimento que nos é transmitido pelo sentido”.

    Essa relação entre a vivência prática e o divino é também explorada pela psicóloga Eliude Felix ao discutir o merecimento de se alcançar uma graça especial. Para ela, a fé diz respeito à confiança depositada em Deus, em Jesus Cristo e na Bíblia Sagrada, expressa na aceitação do ato de salvação. Trata-se de uma realidade que dispensa comprovação científica, fundamentando-se exclusivamente na experiência do religioso com o sagrado e servindo como “uma ferramenta importante para lidar com a questão do sofrimento”. Embora a obtenção de uma graça não seja alcançada por todos, aqueles que escolhem essa condição por meio da fé conseguem estabelecer uma conexão positiva com o divino.

    Essa separação entre o factual e o espiritual é corroborada pelo cientista Marcelo Gleiser, que, ao delimitar os campos da ciência e da espiritualidade, conclui de forma direta que a “fé é uma outra maneira de se relacionar com a realidade”.

    Por outro lado, a ciência também busca compreender o fenômeno da crença sob a perspectiva biológica e social. O biólogo americano e ateu David Sloan Wilson sustenta que a “fé evolui com o homem porque confere vantagens àqueles que a desenvolvem”, sugerindo que a crença foi incorporada à nossa espécie como parte de um processo de evolução cultural. Sendo o homem o único ser vivo com plena consciência de sua finitude, ele buscou encontrar algo maior do que si mesmo e do que as forças da natureza para aprender a vencer conflitos, lidar com perdas e se tornar mais apto a sobreviver.

    Essa busca por amparo dialoga diretamente com a visão psicológica trazida pelo historiador Reza Aslan em seu livro Deus, uma história humana. Citando Sigmund Freud em O futuro de uma ilusão, Aslan resgata a premissa de que a crença religiosa nasceu da necessidade humana de tornar tolerável o seu desamparo, surgindo de um desejo inato do homem primitivo de criar uma “figura paterna” perfeitamente boa e todo-poderosa. Afinal, os seres humanos adoram deuses porque, assim como uma criança idolatra o pai, necessitam de amor, proteção e conforto para seus medos mais profundos e sombrios.

    Na prática histórica e cotidiana, esse amparo verbalizado em forma de oração tornava-se o único refúgio em períodos de tragédia. No catolicismo, o devoto era impelido às igrejas em busca de proteção, organizando procissões como as que ainda se observam nos períodos de seca no nordeste do Brasil, onde fiéis marcham implorando a intercessão dos santos junto aos poderes divinos.

    Foi exatamente essa atmosfera contrita, somada aos anseios de uma população solidamente amparada nas práticas religiosas da virada do século XIX para o XX, que moveu o povo a santificar popularmente a figura de Filomena. Essas práticas eram especialmente fortes nas questões que envolviam o “morrer”, já que os dogmas católicos ditavam que a morte não implicava a finitude humana, ecoando as palavras de Jesus a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.

    Foi esse sentimento que levou os caminheiros do final do século XIX a cultuar o sepulcro abrigava o corpo de uma escrava chamada Filomena, morta em suplício, enterrada viva e com sede para cessar a epidemia em Araxá, dando início a uma narrativa que cruzaria as fronteiras entre o rural e o urbano para marcar a história de toda a cidade.

    É nesse cenário de crença fervorosa que se compreende a presença da cruz rústica assinalando um sepultamento isolado no “meio do pasto”. Passar por aquela sepultura, fosse de dia ou de noite, ativava as memórias e os ensinamentos religiosos dos transeuntes, despertando compaixão e uma profunda curiosidade. Perguntas sobre o porquê daquele isolamento, se a pessoa sepultada morrera de sede e quem a havia enterrado faziam os fiéis recorrerem imediatamente à sua fé e suas experiências cotidianas. Diante do mistério, a mente popular resgatava o contexto histórico da tragédia da varíola, da cova rasa e do sofrimento, misturando perfeitamente crença e realidade. Acreditar nas coisas que não se veem, conforme pregava o apóstolo Paulo, tornava-se absolutamente plausível para o crédulo. Afinal, já ensina outro mestre  “andar com fé eu vou, que  a fé não costuma ‘faiá’.”

    4.2. E a cruz

      Ao longo dos últimos dois mil anos, a cruz cristã tornou-se uma representação mundialmente conhecida. Sem necessitar explicações, ela é o signo de uma crucificação, ocorrida em Jerusalém (IL), e que simboliza o sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Conforme o professor João Batista Libânio, “Onde está a cruz, aí está o crucificado”.

      O local da cruz de Filomena, deslocado de seu lugar natural estava, portanto, impregnado de simbolismo sobre paixão e morte que precisavam ser explicados. “Todos que passavam por lá se benziam”, relata Dona Joana de Castro, a entrevistada de maior idade a testemunhar sobre a devoção popular a Filomena e que acompanhou a transição do sepulcro original para o templo atual, amplamente conhecido na cidade e em seus arredores.

      Filomena de Tal nunca esteve só. Sempre havia pequenos ramalhetes de flores do campo, colhidos pelo local, na junção dos dois pedaços de madeira que formavam a cruz. Depois começaram a ser ofertadas água e flores, não mais colhidas do campo. Alguém as trazia, propositalmente, acrescenta D. Joana de Castro. Fica subentendido que não eram mais os caminheiros que passavam pelo local, obrigatoriamente, mas alguém que se deslocara para ir ao túmulo levar sua oferenda. Garrafas com água não faltavam, afinal, atesta a narrativa oral: ela morreu com sede.  

      Os preceitos litúrgicos, tão recomendados pela literatura cristã e pelas pregações nos púlpitos foram negligenciados: o respeito ao morto, o velamento e o sepultamento em área própria e abençoada pela Igreja Católica, para o descanso final, enquanto o morto esperava a Parusia e a ressurreição.  E esse fato ocorreu em uma cidade do interior de Minas Gerais, no momento em que, conforme já assegurava o tradutor do Manual do Cristão, de 1912, todos os brasileiros eram católicos.

      O símbolo cruciforme tão representativo para os crentes erguia-se ali, à beira da estrada, como se buscasse ser compreendido. A cruz suportou as intempéries, resistiu ao pisoteio dos animais e ao avanço da agricultura. Nas primeiras décadas do século XX, quando um cafezal circundou a sepultura, o pequeno monumento tornou-se menos acessível. Foi justamente nesse período, contudo, que as pessoas passaram a cuidar daquele lugar de memória com maior zelo, fazendo com que a história por trás do fato inquietante passasse a circular pela cidade. Lentamente, no ritmo compassado daquela época, iniciou-se a peregrinação à cruz isolada. O marco representava uma singularidade incômoda para os crédulos cristãos. No caso de Filomena de Tal, os rígidos preceitos litúrgicos — como o velamento digno e o sepultamento em solo sagrado à espera da ressurreição — haviam sido completamente negligenciados.

      5. Oralidade

        “Ai, palavras, ai palavras,
        que estranha potência, a vossa!
        Ai, palavras, ai palavras,
        sois o vento, ides no vento,
        e, em tão rápida existência,
        tudo se forma e transforma!

        Qualquer que tenha sido a razão para o sepultamento de Filomena no meio do pasto, certo é que ela passou por um calvário: morrer de varíola no final do século XIX, sem medicação para aliviar as dores, a febre e o mal-estar, era uma condição deplorável, agravada pelas pústulas que recobriam todo o corpo e tornavam o contato com o enfermo extremamente doloroso. Os documentos fotográficos (no final dos anos 70, foi registrado a última ocorrência, na Somália, África) pode despertar uma forte sensação de repulsa. 

        Pode-se supor que o sepultamento de Filomena foi despido de qualquer preocupação além do mero descarte de um corpo varioloso, considerando tratar-se de uma pessoa socialmente excluída — caso contrário, ela teria recebido um funeral condizente com a doutrina religiosa. Como desfecho para aquela situação repleta de indignação e piedade, o símbolo da imagem mais reconhecível do mundo cristão, a cruz, teria sido a pá de cal do supremo ato da tragédia epidêmica. Ali estava a última vítima, a qual carecia de reconhecimento cristão.

         Diante do convergir de circunstâncias incomuns ao seu cotidiano, o devoto começou a criar, à sua maneira de entender o mundo, explicações que respondessem às suas inquietações pessoais e às indagações alheias. A narrativa oral começava a ser tecida: “Filomena morreu para a epidemia acabar. Ela pedia água, e as pessoas negavam. Morreu de sede para que o mal cessasse[1]. Foi uma ‘simpatia’”.

        No início do século XX, as conversas eram trocadas ao redor das mesas, nas horas das refeições e, de maneira assombrada, nas horas mortas, ao redor do fogão à lenha. Os cômodos eram iluminados por candeeiros à querosene ou pelas labaredas trêmulas do fogo, as quais   projetavam sombras desfiguradas nas paredes. Os mais velhos falavam, as crianças ouviam. E assim os casos eram interpretados, reinterpretados, contados e recontados, ressignificados:  e a história permanecia, no sertão mineiro do final do século XIX.  

        Os fatos presenciados – e narrados nesse momento de conversa em família ou entre amigos – eram passados não apenas pelo que foi presenciado, mas também por aquilo que o narrador acredita que tenha ocorrido. E a fala se torna fato, para quem ouve. 

        A procura por respostas ao sobrevir da morte acompanha a história da humanidade. Na busca por esse entendimento ocorre a 

        “necessidade religiosa, capaz de harmonizar o irracional e o racional. [Esta] é uma das peças essenciais ao equilíbrio humano. Segundo Dupront, essa necessidade e a capacidade de narrar ou rememorar é que possibilitam o equilíbrio mental do homem ao universo em que vive”.

        As teorias do sociólogo francês Maurice Halbwachs, sempre imprescindíveis quando se deve tratar das pesquisas sobre memória coletiva como mecanismo de manter vivo o passado, joga luz sobre a presença da criança, nas ocorrências do narrar e do ouvir. No caso específico de Filomena, as várias pessoas entrevistadas foram crianças que ouviram as histórias contadas pelos pais e avós e que, já adultos, prestaram em depoimentos os episódios vividos no processo de santificação popular de Filomena.  Foram essas crianças que ouviram as histórias, como D. Joana (nascida em 1937), portanto, da primeira geração após 1891, ou Helena, da segunda geração, que passavam pelo local e ouviam os relatos do que teria acontecido à Filomena. Citando Marc Bloch, pontua Halbwachs que

        “Em sociedades rurais, é bastante comum que, durante o dia, quando o pai e a mãe estão ocupados nos campos ou nos mil trabalhos da casa, as crianças pequenas sejam confiadas à guarda dos ‘velhos’ e é destes, tanto e até mais do que dos pais, que estas recebem o legado de costumes e tradição de todo tipo[2].”

        Em documentos do século XVIII, é comum encontrar a expressão “ouvi dizer que…”.  Essa maneira de se expressar linguisticamente era a forma de comunicação possível, em uma cidade interiorana. A rede de comunicação do período era o “boca a boca”, hoje conhecido por oralidade. 

        Com o passar do tempo, portanto, a visão da cruz assume uma contextualização concreta. Aquele lugar de memória já era o testemunho de um fato trágico, ocorrido na cidade e que os caminheiros, com o recurso da oralidade, não deixaram esquecer: para acabar com a epidemia de bexiga preta, uma escrava fora enterrada viva, pedindo água, para acabar com a peste. Nas palavras de Verena Alberti,

        Muitos não percebem, contudo, que a história oral tem o grande mérito de permitir que os fenômenos subjetivos se tornem inteligíveis – isto é, que se reconheça, neles, um estatuto tão concreto e capaz de incidir sobre a realidade quanto qualquer outro fato[3].”


        6. Santificação Popular

          Analisar como a morte de Filomena poderia ter sido compreendida por seus pósteros — reflexão para a qual é válido recorrer a Laura de Mello e Souza, para quem “num campo de estudo ainda pouco frequentado, não há como se furtar às hipóteses” — passa por entender que o seu sepultamento foi marcado por circunstâncias inabituais e pungentes:

          Por um lado, o fato de ter sido enterrada  próximo ao local em que vivia — circunstância confirmada no depoimento de Vicente Dias, cujo avô João Manuel teria conhecido Filomena e afirmava que ela era proprietária de uma pousada para tropeiros no mesmo local em que fora sepultada —, e, portanto, fora do campo santo, no “meio do pasto”, fez com que Filomena não recebesse os procedimentos ritualísticos da liturgia católica, ficando, assim, excluída dos benefícios tão propalados nas pregações religiosas.

          Por outro lado, a cidade de Araxá, como informou Afonseca Silva, estava sem o “condutor de defuntos”. Os sepultamentos fora do cemitério, sagrado pela instituição católica e pelos costumes, podem indicar, também, uma condição social desfavorável que a tornava “invisível” aos moradores “da cidade”. Como bem afirma o Padre José Alves: “Se ela morreu pela peste e nem no cemitério pôde ficar, ela foi marginalizada”.

          Sem o amparo religioso e o reconhecimento social, cabia à parcela da população considerada “popular” denunciar o ocorrido e restabelecer as circunstâncias da morte da última vítima da bexiga preta. Ela merecia receber os benefícios negados.

          Como não imaginar os cristãos — passando nos períodos envolvidos de pungência, como a quaresma, a sexta-feira da paixão, o dia dedicado aos mortos, ou apenas seguindo a rotina de ir à igreja para se confessar (momento de sua reconciliação com Deus) — ao cruzar por aquele pequeno pedaço da via dolorosa da cruz de Filomena e não se sentir tocado, envolvido, intrigado?

          A trajetória da construção da narrativa em torno da morte de Filomena começou, portanto, lentamente, sem episódios bombásticos ou manifestações sobrenaturais comuns a essas circunstâncias. As aparições ou vozes do além — ainda que o local pudesse propiciá-las, no escuro da noite, nas vozes do vento ou no estado emocional de cada transeunte — não fazem parte do conteúdo discursivo dos fiéis.

          Os peregrinos iniciaram o culto por força da atmosfera religiosa contida no homo religiosus, no dizer de Eliade, e dos hábitos arraigados que os impeliam a procurar apoio espiritual para suas questões cotidianas. A existência do lugar sacralizado pela cruz representou um elemento facilitador dessa construção. As pessoas que passavam (ou iam ao túmulo de Filomena), ancoradas no símbolo tocante, amalgamavam suas vivências com a suposta tragédia da Mártir, consubstanciando sua santificação.

          “Eu era bem criança, deveria ter uns oito anos quando tomei conhecimento que existia ela. Só tinha o túmulo lá, daí alguém teve a ideia (passado os anos), porque demorou alguns anos ainda, alguém teve a ideia de fazer um ranchinho por cima, depois construiu uma capelazinha pequena, daí o pessoal foi apanhando fé, tomando conhecimento da história dela. Aí o pessoal foi ajudando a melhorar a capelinha ainda mais, aumentando devagarinho.”

          Joana de Castro, nascida em 1935, também assimilou aquela presença simbólica ao seu cotidiano e testemunhou as alterações no espaço reservado ao túmulo: “Primeiro não tinha nada além da cruzinha, depois fizeram uma gradinha de ferro para proteger a cruz”.

          No momento em que foi colocada a gradinha de ferro delimitando o espaço do túmulo, teriam ocorrido os primeiros movimentos para a sacralização da morada final de Filomena. A comunidade que construía a história do ocorrido agora lançava as bases para a edificação do santuário no lugar em que a memória ficara resguardada.

          O devoto Vicente Dias — já citado e cujo avô teria conhecido Filomena — afirma que um dia “pediu uma graça e alcançou”. Como retribuição, cimentou o túmulo já sacralizado no imaginário daqueles que a cultuavam. De forma compassada, o lugar que remetia os transeuntes à memória de um suposto suplício começava a sofrer interferências.

          A sacralização do espaço de Filomena conferia importância ao lugar: um reconhecimento “oficial” de sua existência e uma legitimação de sua interação com os caminheiros. Tanto é que, anos mais tarde, quando uma plantação envolveu a área em volta do túmulo, as pessoas desviavam seus caminhos e adentravam o cafezal para procurar a cruz já emoldurada por uma grade. A relação estava estabelecida.

          “Nós morávamos em uma roça aqui perto e o caminho era a estrada da Filomena. Então sempre víamos a cruz lá. Depois que eu mudei para cá [para o bairro Santa Rita] todo final de semana minha avó vinha da roça e nós íamos ao túmulo da Filomena,” afirma a professora Helena Amaral, moradora próximo ao local da Capela.

          O depoimento constata que a família não apenas “passava” pelo local, mas também “ia” ao túmulo, procurando-o entre os pés de café:

          “A gente levava vela, água, flor (…) depois eu tenho a impressão que eles mudaram a cruz um pouquinho mais para cima e fizeram um contrapiso, em formato de um túmulo, depois cercaram a gradinha, depois cobriram. Isso o tempo foi passando. Tamparam com uma coberturazinha só com uma telha, colocaram quatro paus e tamparam com uma telha Brasilit, eu lembro disso. Aí começou aparecer muleta e estas coisas. Até então não tinha nada disso. Tinha era coroa de flor de plástico, prato de comida, garrafa de água, mas dava pra gente ver que eram poucas pessoas que frequentavam lá porque se fossem muitas haveria mais movimento, mais vestígio e isso não tinha.”

          Um par de muletas foi, conforme a depoente, o primeiro ex-voto colocado no túmulo e permaneceu dependurado por muito tempo em uma das madeiras que sustentavam a telha. Não é difícil dimensionar a força contundente desses objetos-testemunha que, associados à pequena cruz, passaram a representar no mais completo silêncio do lugar. A força de dois símbolos emblemáticos (o par de muletas e a cruz) dizia mais do que muitas palavras: a Mártir, que teria morrido para salvar uma comunidade, restaurara a saúde de um crédulo — e o par de muletas estava lá para provar o episódio.

          “E nós”, continua a professora Helena, “íamos todo mês levar um maço de vela. Antes a gente ia para levar água. Quando queria que chovesse: – Vamos levar água no túmulo da Filomena. Ela morreu de sede, então vamos levar água (…) depois eles construíram a capela. Foi depois da construção da capela é que aumentou essa quantidade de pessoas que vão lá.”

          A edificação da capela da Mártir Filomena — que ainda hoje é tratada carinhosamente por Filomena — substituiu os quatro paus cobertos por uma telha de amianto sobre a qual as pessoas se ajoelhavam, faziam oferendas e pediam a intercessão da Mártir. O sol ou a chuva, aos quais os devotos ficavam expostos, atrapalhavam, mas não impediam a romaria que se tornava rotineira.

          Essa cena foi testemunhada por Pedro Batista de Camargo quando passava em frente ao túmulo: “Aí eu passando notei que o túmulo estava muito desleixado, esburacado, estava tudo caindo. E era de tijolo simples, e eu pensei em fazer alguma coisa. Resolvi fazer um túmulo pra ela.”

          A atitude dos devotos em dar início ao processo de construção da capela — que começa com a “gradinha” até chegar ao túmulo erguido por Pedro Batista — encontra respaldo nas palavras de Eliade, quando afirma que:

          “para o homem religioso toda decisão existencial de se ‘situar’ no espaço constitui, de fato, uma decisão religiosa. Assumindo a responsabilidade de ‘criar’ o mundo que decidiu habitar, não somente cosmiza o Caos, mas também santifica seu pequeno Cosmos, tornando-se semelhante ao mundo dos deuses. A profunda nostalgia do homem religioso é habitar um ‘mundo divino’, ter uma casa semelhante à ‘casa dos deuses’ (…)”

          Vindo de outra cidade mineira para trabalhar no comércio araxaense, Camargo afirma que sua loja de confecção e tecidos lhe possibilitava obter “muito dinheiro, graças a Deus. E eu pensei que tinha condição de fazer alguma coisa. Então, sem falar nada com ninguém, fiz tudo”. E acrescenta:

          “Mandei preparar o túmulo, depois do túmulo, eu resolvi construir uma capela. Então fiz uma capela, porque aquela que está lá, hoje, mais da metade foi eu que fiz. Depois eu fiz o altar de mármore e, no túmulo as pessoas continuaram a rezar. Não havia chuva nem sol que impedisse. Então o povo começou a frequentar mais. Eu então terminei a capela e no altar eu coloquei uma pedra de mármore escrito: ESTA CAPELA FOI CONSTRUÍDA POR PEDRO BATISTA DE CAMARGO. Logo depois, muita gente começou a participar de lá, a construção aumentou, aí eles quiseram ampliar. Parece que a Prefeitura fez alguma coisa lá, e o povo também. E as pessoas que foram para lá pintaram em cima do nome que eu tinha escrito, tampando o meu nome.”

          Um fato, no entanto, pode ter contribuído para acionar a engrenagem que começava a ser criada no alto da colina e imprimido uma significação considerável no processo narrativo e no entendimento da santidade da Mártir Filomena. No ano de 1924:

          “o engenheiro agrônomo e professor Hildebrando Araújo Pontes transferiu sua residência para Araxá. Com ele vieram sua esposa Salvina Barra Pontes e suas três filhas normalistas e aqui fundaram o Colégio Santa Filomena. Situado à Praça Coronel Adolfo, mantinha o ensino primário, fundamental e secundário. Oferecia, ainda, cursos especiais de datilografia, pintura, pirogravura, piano, bordados à mão e à máquina.”

          Até que ponto teria ocorrido uma vinculação entre o Colégio Santa Filomena, situado na praça principal da cidade, e aquela mulher morta pela epidemia de varíola cuja memória perenizava-se no símbolo de uma cruz no alto de uma colina?

          O oferecimento de cursos como datilografia, pirogravura e piano, no início do século XX, conferia grande importância ao estabelecimento. Ainda que a maior parte da coletividade araxaense não tivesse acesso ao interior daquela instituição, a publicização do nome Santa Filomena — essa canonicamente reconhecida pela Santa Sé — alcançava toda a população.

          Essas circunstâncias poderiam ter induzido os moradores da área rural ou das cercanias excluídas, próximas ao túmulo de Filomena, a trazer o nome de sua mártir à memória. Acresce-se a isso o fato de que a Santa Filomena que nominava a instituição de ensino fora uma jovem cristã nascida na Grécia, presa, torturada e supliciada pelo exército pagão romano, cuja veneração começara em meados do século XIX.

          Além de todas as circunstâncias que envolviam a morte e o sepulcro de Filomena, a entronização na cidade de uma instituição de ensino ostentando o nome homônimo e santificado oficialmente poderia ter alimentado as narrativas que envolviam a Mártir araxaense.

          Construída lentamente, a Capela da Mártir Filomena ampliava seu espaço na mesma proporção em que santificava a figura popular e abrigava os fiéis que buscavam apoio espiritual — sem dispensar, nessa devoção, a proteção do santo padroeiro da cidade, São Domingos de Gusmão. A “religião do povo” permite essa convivência ambivalente e pacífica, conforme observa Eurico Gonçalves:

          “Tem domingo que vem mais gente aqui do que na Igreja Matriz de São Domingos. Tem domingo que isto aqui fica lotadinho, caravanas que vêm de fora… toda caravana vem aqui. Filomena é espírito de luz. Aqui é lugar de tradição (…) O Padre Zé Alves ainda vem aqui, almoça aqui, reza a missa. Ele é muito bom. O que tem que ser é com ele. A Capela pertence à Paróquia dele. O Bispo da Diocese de Uberaba já veio aqui. Já tem muito tempo. Deve ter uns quatro ou cinco anos, mais ou menos. Ele esteve aqui, visitou… porque eles não acreditam. Eu dou razão a eles porque cada um acredita naquilo que é a fé deles.”

          A forma resignada demonstrada por Eurico Gonçalves permite uma leitura: a religiosidade popular praticada — a exemplo da devoção a Filomena e de tantas outras sacralizações populares nos países católicos — organiza-se sem confrontos diretos com a oficialidade religiosa e sem a pretensão de ocupar espaços de “outros santos” católicos.

          Quando perguntado a quem se apegaria em caso de uma súplica, o devoto João Borges afirma que pediria a São Domingos e a Filomena. Já a devota Joana é enfática: “Eu pediria à Filomena. Ela está mais perto”. Ela esclarece, assim, a forma simples, descomplicada e direta com que dirige suas súplicas à Mártir: “A gente entra, faz uma oração, agradece um pedido atendido e pede outro. Ela pode não ser santa, mas um poder ela deve ter”, respaldando o pensamento do historiador João José Reis, para quem é “conhecida a relação de barganha, de troca simbólica, embutida na prática da ‘promessa a santo’, que Laura de Mello chamou ‘economia religiosa do toma-lá-dá-cá’.”

          Conclusão

          Ouvir algum araxaense dizer “vou na Filomena”, “preciso ir na Filomena” ou “fui na Filomena” não necessita de maiores explicações. Ela é, também, referência espacial: “moro perto da Filomena”, “na Estrada da Filomena” ou “no Caminho da Filomena” dispensam qualquer GPS.

          Desde o início do século XX, e com mais força a partir de meados daquele século, essa figura sofrida faz parte da história da cidade e, por suposto, de seus moradores. Filomena é familiar aos araxaenses. Foram eles os responsáveis pela entronização da Mártir na hagiografia local. Essa “gente simples”, como informa a devota Luciana em seu depoimento: “Sempre foi gente simples que frequentou a Capela da Filomena”. “Se você faz um pedido e ela não atende, é porque você não merecia aquela graça”, afirma Dona Joana.

          A sala de ex-votos da Capela testemunha os pedidos atendidos, o socorro que salva, e a fé na Mártir avança.

          Os crédulos que desenvolveram a trajetória que confluiu em sua santificação popular com a certeza de seus poderes intercessores não se basearam em fatos aleatórios ao seu cotidiano ou à sua fé: tiveram como fundamentação, como alicerce seguro, os princípios pregados pela Igreja Católica, a qual, no início do século XX, era absoluta para responder a todas as questões que envolviam o nascer, o viver e o morrer.

          A oralidade foi o recurso que elaborou e fez circular a explicação do fenômeno da cruz órfica. Transmitida de geração em geração, de forma agregadora, lenta e compassada, a sacralização popular avançou por décadas, apesar da aparente desconfiança da chamada “elite” da cidade e da distância segura da instituição religiosa, como atestam os depoimentos. Não havia, além da cruz, suporte visual para os relatos que criavam a forte narrativa: apenas a capacidade dos crédulos em representar suas próprias imagens do acontecido.

          As palavras e a capacidade de criar imagens do espectro da epidemia e da cruz na beira do caminho deram início e sustentaram a narrativa que ainda prossegue. Afinal, os crédulos, juntos, foram capazes de transformar uma realidade: já não era mais uma cruz perdida no meio do pasto.

          A história da Mártir Filomena — coroada pela força da religiosidade popular na construção de um templo que acolhe e conforta tantas pessoas — traz uma provocação inevitável: o avanço da tecnologia vai impedir as manifestações espontâneas da cultura popular ou os dois mundos vão conviver lado a lado? Afinal, os tempos são outros.  

          Desde meados do século XX, enquanto a narrativa de Filomena avançava, dava-se início à Era da Tecnologia, da Comunicação, da Informação — a Era dos dados, a era digital.

          Nesse avanço voraz da tecnologia, cada passo alcançado impulsiona outros tantos a serem conquistados. O historiador Yuval Harari pede que alguém pise nos freios e alerta para o colapso da sociedade, enquanto afirma que os humanos procuram, através da tecnologia, chegar à condição de imortais e de deuses. Para esse novo mundo, uma nova religião já existe: a tecnorreligião.

          “Uma tecnorreligião mais ousada está buscando cortar definitivamente o cordão umbilical humanista. Ela vislumbra um mundo que não gira em torno de desejos e experiências de quaisquer seres humanoides. O que poderia substituir desejos e experiências como fonte de toda autoridade e de todo significado? (…) A religião mais interessante que emerge disso tudo é o dataísmo, que nem venera deuses nem o homem – venera os dados.”

          O número de adeptos dessa nova religião tende a aumentar. É nesse novo mundo tecnológico que os debates envolvendo a noção de sagrado, como foi difundida por dois milênios, surgem com intensidade. Intrigantes questões florescem: onde ficarão as práticas religiosas, os sentimentos de piedade, a esperança em viver bem para um post mortem em paz? O que será considerado sagrado? Como serão manifestadas as diversas práticas religiosas se a tendência do mundo é cada vez mais virtual?

          O dataísmo já tem o seu mártir. A instituição religiosa e hegemônica no início do século XX, que tinha respostas para todas as questões, tem, agora, um adversário de peso: a tão sonhada enciclopédia que a tudo responderia está ao alcance de um toque de dedo, graças ao vertiginoso avanço tecnológico. Nos séculos VI e VII da era cristã, Santo Isidoro de Sevilha acreditou ter organizado e sistematizado todo o conhecimento da época em vinte volumes; hoje, esse universo é ilimitado.

          Os tempos atuais exigem que os portões do Vaticano sejam abertos para que as novas — e muitas nem tão novas assim — e desafiadoras questões sejam analisadas com o intuito de possibilitar a coexistência pacífica de posições tão antípodas.

          Se o Concílio Vaticano II (1962–1965) permitiu que os bispos assumissem o controle e o aprofundamento sobre fenômenos religiosos, especialmente para as questões relativas às sacralizações, não caberia, por consequência, a esses sucessores dos Apóstolos avançar esse olhar sobre o poder inconteste da religiosidade popular como suporte à nova configuração que os tempos atuais impõem à Igreja?

          Assim, a exemplo das petições que circulam entre Juazeiro e Roma e do espaço encontrado na disciplina da História Cultural — que permite olhar com lupa essas manifestações —, a força da religiosidade popular avança, como visto com a Mártir Filomena de Araxá.

          Seus devotos se converteram em uma grande procissão, com força imperiosa de retroalimentação. De início tíbio, adquiriu consistência no transcorrer do tempo com o agregar de novos adeptos, crédulos na narrativa que criavam, num processo crescente e multiplicador de livre flutuação. Aqueles que não se rendem aos poderes miraculosos da Mártir que a reconheçam, ao menos, como resultado da profunda fé da população araxaense.

          Essa procissão de fé que avança, iluminada e incensada pela religiosidade popular e que ignorou a marginalidade implicada no não reconhecimento oficial, pode ser traduzida nas palavras de Monsenhor Murilo de Sá Barreto quando, referindo-se ao fenômeno de Juazeiro, afirmou que as romarias “se farão com a gente, sem a gente, ou contra a gente”.


          [1] As práticas populares, conhecidas por “simpatias”, teoricamente consideradas pecaminosas e passíveis de encaminhamento ao Tribunal de Inquisição em tempos coloniais, eram conhecidas, aplicadas e muitas vezes toleradas pelas autoridades eclesiásticas. Muitos padres foram acusados nesse Tribunal por terem encaminhado seus fregueses calunduzeiros, reconhecendo a melhor eficácia dos negros no alívio de certas doenças físicas ou emocionais. Ainda que menos visíveis nos tempos atuais, essas práticas religiosas ainda ocorrem, notadamente nas cidades interioranas. Conforme a pesquisadora Vanda Cunha Albieri Nery, “O conhecimento das plantas medicinais da colônia, dominado pela cabocla e pela mulata, unido ao das plantas medicinais trazidas pelos portugueses, foi sendo repassado de geração em geração, originando o costume de curar doenças por meio de recursos naturais. Daí a procura pelas rezadeiras para fazer chás, simpatias, rezas e benzeções – uma solução eficaz para solucionar os problemas de saúde para as classes mais desfavorecidas”.  Rezas, Crenças, Simpatias e Benzeções: costumes e tradições do ritual de cura pela fé. Disponível em https://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/120415399193864084132347838529996558992.pdf, acesso em 29/07/2026.

          [2] O texto é de Marc Bloc. Mémoire collective, traditions et coutumes, citado na Revue de synthèse historique, 1925, n.118-120, p. 79, in HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Centauro,2006. p.84.

          [3] Alberti, Verena. Ouvir Contar – Textos em História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 9.

          FARRELL, Jeanette. Op. Cit. P. 30.

          UJVARI, Stefan Cunha. A História e suas epidemias – A convivência do homem com os microrganismos. 2ª. Ed. – Rio de Janeiro: Editora Senac Rio: Editora Senac São Paulo, 2003. p. 21.
          UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias – A convivência do homem com os microrganismos. 2. Ed. – Rio de Janeiro: Editora Senac Rio: Editora Senac São Paulo, 2003. p. 21
          A varíola é “descrita hoje como uma infecção viral que tem como agente causal um Orthopoxvirus variolae, que se manifesta clinicamente por erupções de vesículas generalizadas (…) O período de incubação é de 10 a 14 dias, com as erupções surgindo após febre elevada, acompanhada de indisposição, cefaleia intensa, dor nas costas, vômitos e exantema três a quatro dias depois dos primeiros sintomas, podendo culminar com o falecimento do enfermo ao fim da primeira ou segunda semana.” In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo. CARVALHO, Diana Maul (org.) Op. Cit. p. 211.
          A partir da década de 1970, a manifestação variólica foi mundialmente erradicada, o que dispensa a vacinação.
          McNeill, William. Plagues and peoples. In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do & CARVALHO, Diana Maul de (org.), p. 16
          Em 1527, uma epidemia é documentada no México. Os registros históricos e as crônicas literárias atestam que a varíola foi um poderoso aliado que os espanhóis contaram para dizimar populações nativas na América. In. SILVEIRA, Anny Jackeline Torres da. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. A doença revelando a história. In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. CARVALHO, Diana Maul de. (Orgs) op. cit. p. 17.
          FARREL, Jeanette. op. cit., p. 55
          Vírus: seres acelulares, microscópicos e que não possuem metabolismo próprio. No caso específico do vírus variólico (Orthopoxvirus variolae), a imutabilidade facilitou o processo da descoberta da vacina, no século XVIII.
          O TREM DA HISTÓRIA. Ano 4, n.16. jan/fev/mar. 1995. Publicação da Fundação Cultural Calmon Barreto. Araxá no Século XIX. A Saúde. p. 7.
          Em que pese o avanço e a competência da produção de conhecimento científico e os resultados comprovadamente benéficos desses procedimentos, no século XXI, é inconteste que parte da população mundial ainda cultive o medo da inoculação. Nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, afirmavam que a vacinação desencadeava outras patologias. E essas narrativas ainda hoje são ouvidas.

          Quando, em 2002, o Professor Marcos Spagnuolo Souza coordenou um projeto para digitar as Atas da Câmara de Paracatu – Sessões Ordinárias e Extraordinárias – 1857 – 1892, ele estava iluminando a pesquisa não apenas para a sua cidade, mas para todo o país, e em especial, para o Município de Araxá, cuja Comarca era limítrofe à Comarca de Paracatu do Príncipe.
          Os atuais Estados brasileiros eram chamados de Províncias, até 1889, quando foi proclamada a República no Brasil.
          https://oswaldocruz.fiocruz.br/index.php/biografia/trajetoria-cientifica/na-diretoria-geral-de-saude-publica/luta-contra-a-variola. Acesso em 25/02/2025
          SOUZA, Marcos Spagnuolo. Op. cit. p. 9
          O TREM DA HISTÓRIA, ano 5, n. 17. abr/mai/jun/1995. A Saúde, p. 4.
          SILVA, Sebastião de Afonseca. História de Araxá. 1914. Manuscrito. Acervo Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB). Afonseca e Silva, pai do Arcebispo D. José Gaspar de Afonseca e Silva, teve o zelo de registrar fatos considerados importantes que ocorreram no Município. Esses registros são imprescindíveis como um retrato de acontecimentos que, caso não tivessem sido anotados por ele, muito dificultaria diversos ramos da pesquisa nessa cidade.
          Município limítrofe a Araxá, distante 94 km. Transcrição do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento, de 03 de maio de 1886 a 1º de maio de 1892 (Acervo do Arquivo Público de Sacramento). Agradeço a Adriana Gobbo Borges a pesquisa e a transcrição do documento.
          Transcrição do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento de 03 de maio de 1886 a 1 de maio de 1892. Acervo do Arquivo Público Municipal de Sacramento (MG).
          UJVARI, op. cit. p. 62
          SILVA, Sebastião Afonseca e. op. cit.
          CÔRTES, Joaquim Antônio (Nhô Quim). Depoimento. Araxá, 21/08/2005. Gravado e digitado.
          A intenção primeira era historicizar a denominação da “Mártir” utilizando a grafia descrita por Sebastião de Afonseca e Silva, em seus manuscritos de 1914, ou seja, Philomena de Tal. Mas em respeito à forma como seus devotos a reconhecem, optou-se por registrar a escrita com “F”. A citada Monografia de Afonseca e Silva encontra-se arquivada na FCCB.
          SILVA, Sebastião de Afonseca e. op. cit.
          CORREIO DE ARAXÁ, Araxá, n. 111. 30/05/1915. A peste, pp. 3-4.
          CORREIO DE ARAXÁ. n. 111. 30 de maio de 1915. A peste. pp. 3-4.
          FELIX, Eliude Fernandes Silva. A importância da religião em contextos de sofrimento. Brasília. UniCEUB. Monografia apresentada como requisito para conclusão do curso de Psicologia. Disponível em repositório.uniceub.br em 22/03/2025.
          CASTRO, Joana d’Arc de. Depoimento. Araxá, 19/10/2004. Gravado e digitado. Apesar das lembranças de D. Joana em dizer que o período poderia ser invernal, os apontamentos de Afonseca e Silva nos informa dezembro ou janeiro, o que nos indica verão.

          Agradecemos as informações do Dr. George Sanguinetti, médico legista alagoano, para entendimento das questões ligadas à catalepsia, notadamente nas questões epidêmicas.
          BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Cultura das ruas. Campinas: Papirus, 1989, p. 23.
          GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora, 1993. p. 4.
          Vale lembrar que o gado vacum e cavalar eram fontes de alimento e de transporte, naquele período.
          SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1975. p.131.
          Sobre esse assunto ver: LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. O diamante líquido: história, memória e turismo na cidade balneária de Araxá. Uberlândia: Edufu, 2015.
          LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. Das águas passadas à terra do sol. Araxá: Bunge Fertilizantes, 2003, p. 26,
          Texto escrito em uma gravura escolar de um povoado francês. In. BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento. De Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro. Zahar. 2003. P.141
          ECLESIÁSTICO, cap, 38, vers. 16 e seguintes. In: BIBLIA SAGRADA. São Paulo: Stampley Publicações Ltda. 1974 Agradeço a indicação da leitura ao padre José Alves Caetano, da Paróquia Santo Antônio, Araxá (MG).
          Notadamente, a partir do século IV, do Imperador Romano Constantino. Enquanto o Império Romano perdia seu brilho e poder, a instituição religiosa expandia seus domínios nos rastros do antigo império e além. No século V ela o suplanta, definitivamente.
          GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. 8ª. Ed. Collegio da Immaculada Conceição) Botafogo. Rio de Janeiro 1912.
          GOFFINÉ, op. cit. p. vii
          DELUMEAU, Jean. O homem diante da Morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1999. Apud NASCIMENTO, Dilene. Op. cit. p. 27. Jean Léon Marie Delumeau foi um historiador francês especializado em estudos sobre a história do Cristianismo e autor de vários trabalhos relacionados com esse assunto.

          Cartas aos Hebreus, 11,1, atribuída ao Apóstolo Paulo.
          LIBÂNIO, J.B. Fé. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. p. 12.
          NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Editora Nova Fronteira, 1986. p. 743. Verbete: experiência.
          FELIX, p. 27
          “A diferença entre ciência e fé é a seguinte: em ciência, a gente tem que ver para crer. Você observa a natureza, você observa o mundo, obtém dados sobre como o mundo funciona, analisa esses dados e entende. Pela fé, você crê para ver. A crença vem antes da visão. Você acredita naquilo, nem precisa ver nada, acredita naquilo e esse, essencialmente, é o cerne da fé, que é uma outra maneira de se relacionar com a realidade, muito diferente da ciência”, https://www.fronteiras.com/leia/exibir/21-ideias-marcelo-gleiser-e-a-complementaridade-entre-religiao-e-ciencia. Disponível em 19/02/2025.
          https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe

          https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe, disponível em 19/02/2025.
          ASLAN, Reza. Deus, uma história humana. Rio de Janeiro; Zahar, 2018, p. 40.
          “A tese de que a religiosidade acompanha o ser humano em sua evolução ganhou força ruidosa um pouco mais para a frente, quando o biólogo americano Dean Hamer, coordenador do setor de genética do Nation”, conforme site: https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe, disponível em 10/02/2025
          João 11, 25-26.
          D. Joana de Castro
          ALVES, Castro. A cruz na estrada. Domínio Público. Castro Alves nasceu em 1847 e morreu em 1871).
          MEIRELES, Cecília. Romanceiro da inconfidência. 5. Ed. São Paulo: Civilização Brasileira, 1981. p. 136
          SOUZA, Laura de Mello e. História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América português. São Paulo: Cia das Letras. Vol I, 1997. p. 193
          OLIVEIRA, Elda Rizzo. O que é benzeção. 2a ed. São Paulo, Brasiliense, 1985 in NERI, Vanda Cunha Albieri. Rezas, Crenças, Simpatias e Benzeções: costumes e tradições do ritual de cura pela fé. Trabalho apresentado ao NP Folkcomunicação do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom.
          CORREIA, Iara Toscano. Caso João Relojoeiro: um santo no imaginário popular. Uberlândia: EDUFU, 2004. P. 240.

          O texto é de Marc Bloc. Mémoire collective, traditions et coutumes, citado na Revue de synthèse historique, 1925, n.118-120, p. 79, in HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Centauro,2006. p.84.
          Vale a ressalva de que a escravidão foi extinta por decreto em 1888, sendo que a permanência dessa prática permanecerá por décadas.
          Alberti, Verena. Ouvir Contar – Textos em História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 9.
          SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização séculos XVI – XVII. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 40.
          ELIADE, Mircea. Op. cit. p. 17
          OLIVEIRA, João Bosco de. Depoimentos. Araxá, 17/02/2005. Gravado e digitado. João Borges é um dos fundadores da Associação dos Administradores da Capela Mártir Filomena.

          SOUZA, Helena Amaral. Depoimentos. Datado de 19/10/2005. Gravado e digitado.
          CAMARGO, Pedro Batista. Depoimento. Araxá, 20/10/2005. Gravado e digitado.
          ELIADE, op. cit. p. 61
          Conforme Camargo, o Sr. Anastácio “um espírita que morava perto do Cristo [escultura próxima à Capela da Mártir Filomena foi quem o ajudou a construir o túmulo e a capela.
          Possivelmente o nome do colégio referia-se à Santa Filomena de Mugnano del Cardinale (Itália). O Papa Gregório XVI (1831-1846) “tendo recebido o parecer favorável da Sagrada Congregação dos Ritos à canonização de Santa Filomena, elevou-a à honra dos altares, instituindo ofício próprio para o culto e a festa, proclamando-a Grande Taumaturga do Século XIX, Padroeira do Rosário Vivo e Padroeira dos Filhos de Maria”. Disponível em www.rosariopermnente.leiame.ne.Acesso em 14/10/2005.
          Agradeço a informação sobre o Colégio Santa Filomena ao professor Luciano Marcos Cury.
          Filomena significa ‘filha da luz divina’, conforme o site https://cruzterrasanta.com.br/santa-filomena/81/102/#google_vignette, acesso em 04/04/2025

          BORGES, Eurico Gonçalves. Depoimento. Araxá, 16/01/2005. Gravado e digitado.
          REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Cia das Letras, 1991. p. 59
          https://bibliotecacatolica.com.br/blog/santidade/como-uma-pessoa-se-torna-santa/
          https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-05/congregacao-causas-dos-santos-cardeal-semeraro-entrevista.html, disponível em 30/03/2025.

          CAVA, Ralph Della. “Enfim, o lava-pés de Padim Ciço?” JORNAL ‘O ESTADO DE SÃO PAULO’, 1° de maio de 2005, p. J4. Della Cava é pesquisador sênior adjunto do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia de Nova York e professor emérito de História no Queens College, Cidade Universitária de Nova York. É, também, autor do livro “Milagre em Joaseiro (1970).
          O Cardeal Joseph Ratzinger foi entronizado como Papa Bento XVI em 24/04/2005. Em 28/02/2013 renunciou ao cargo.
          Programa veiculado pela Rede Minas, no dia 16/10/2005, sobre o Padre Cícero Romão Batista.
          Ibidem
          FERNANDES, Luciana Maria. Depoimento. Araxá, 06/08/2005. No período do depoimento Luciana Maria era Coordenadora de Centro de Referência da Cultura Negra de Araxá (CRCNA).
          HARARI, Yuval. Homo Deus: uma breve história do amanhã. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 57.
          Idem, p. 59.
          Idem, p. 369.
          (*) Grifo nosso
          “Em 11 de janeiro de 2013, o dataísmo conheceu seu primeiro mártir, quando Aaron Swartz, um hacker americano de 26 anos, cometeu suicídio em seu apartamento (…) ele também acreditava firmemente na liberdade de informação (…) Ele acreditava firmemente na liberdade de informação”. Harari, op. cit. p. 385/386.
          Santo Isidoro de Sevilha foi considerado patrono da Internet pelo para João Paulo II pelo seu vasto conhecimento. Está suspenso, no Vaticano, devido a morte do Papa Francisco, a canonização do jovem ítalo-inglês (15 anos) Carlo Acutis, beatificado em 2020. Apelidado de “influencer da santidade” ela utilizava as redes sociais para divulgar a causa cristã. E também está sendo considerado como patrono da Internet.
          CAVA, Ralph Della. Op. cit. p. J3


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          4 comentários

            • Obrigada, Lerinha. A pesquisa tem dois componentes amplamente dominados por você: a força da espiritualidade e acometimentos patológicos, portanto, seu comentário vale ouro. Obrigada!

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