Sacralização popular da Mártir Filomena na cidade mineira de Araxá

EPIDEMIA, MORTE E FÉ: Sacralização popular da Mártir Filomena na cidade mineira de Araxá

  1. A varíola

“A varíola sobrevivia apenas no corpo humano. Fora dele, digamos, numa página de livro, se a varíola não conseguisse chegar a uma célula humana dentro de algumas semanas, ela pereceria. Nenhuma outra criatura serviria; nenhum outro animal poderia dar ao vírus um lar. Isso foi decisivo para sua derrota.”

Frequentemente, associadas às represálias e aos castigos celestes, as epidemias deixaram marcas no transcorrer dos tempos. Elas estão citadas na Bíblia, na mitologia do povo grego, nas cicatrizes variólicas de múmias egípcias do século XII a.C., na literatura medieval, nos tempos atuais. Os registros são inúmeros e compatíveis com a gravidade do flagelo que se instalava por ocasião de seu ataque.

A enfermidade, no entanto, poderia ser compreendida de forma favorável, de acordo com o ponto de vista do observador:

“No final do século VIII a.C., Ezequias, rei de Judá, atribuiu a doença à defesa divina de Jerusalém. O exército assírio sitiou a cidade e ia invadi-la, mas uma epidemia virulenta acometeu o acampamento, que não apresentava boas condições higiênicas, assim favorecendo a contaminação e a disseminação da doença. Em pouco tempo, aumentou o número de cadáveres de assírios”.

A mitologia grega auxilia a entender a força epidêmica quando deuses são convocados para, nem sempre com sucesso, combatê-las. 

“O culto a Asclépio iniciou-se no século VI a.C., na Tessália, e permaneceu por quase mil anos com a construção de mais de duzentos templos”, onde sua figura era representada ostentando nas mãos um bastão no qual se enrolara uma serpente. 

Asclépio, deus da medicina e da cura, filho de Apolo, era cultuado e solicitado a combater as doenças infecciosas. Por ser filho de um deus, era qualificado para enfrentar as patologias desencadeadas por outros deuses.  

Péricles, figura expoente e célebre de Atenas – que teve seu nome vinculado ao período de ouro ateniense – morreu em 429 a.C. de uma peste que assolou Atenas. Com certeza, Asclépio, o deus da medicina e da cura desse período, recebera inúmeras súplicas e sacrifícios para salvar a vida do grande estrategista ateniense, mas falhou. 

Vale ressaltar que o surgimento do pensamento filosófico (final do século VII a.C.), nessa mesma Grécia mitológica, procurava desassociar as patologias das questões divinas. Hipócrates (o pai da Medicina – século V a.C.)  associou o equilíbrio vital aos quatro fluidos (humores) principais do corpo, como a bile amarela, bile negra, fleuma e sangue, afirmando que a saúde estava no equilíbrio desses quatro elementos enquanto a doença era fruto do desequilíbrio dos mesmos. Hipócrates ousou   separar as patologias das associações com as cóleras divinas, mas a razoabilidade das ciências percorreu muitos séculos até conseguir ombrear com as práticas religiosas para, então, sobrepô-las. 

Em Decamerão, célebre obra literária florentina, Boccaccio imortalizou a pandemia da Peste Negra, na segunda metade do século XIV, como uma “justa cólera divina”. Alguns autores afirmam que a bactéria Yersínia pestis, que desencadeou a pandemia da peste negra, teria ceifado a vida de 30% da população europeia, nesse período. 

O vírus da varíola, em sua longa trajetória de cinco mil anos, a partir do relato da primeira manifestação na história da humanidade, deixou um rastro de mortes e de desespero por onde passou como um açoite ensandecido. Entre suas vítimas, encontram-se faraós egípcios, como Ramsés V, imperadores chineses, como Chu Yuan-Chang, fundador da dinastia Ming, incontáveis personagens conhecidos publicamente e milhares de anônimos em todo o mundo.

A cada três pessoas acometidas pelo vírus, uma era levada a óbito, enquanto as outras passavam a viver com os vestígios esparramados pelo corpo – marcas idênticas àquelas que os imunizados carregam na parte superior do braço – como cicatriz da vitória da ciência sobre esse flagelo.

Mas até chegarmos à erradicação da varíola o vírus ceifou vidas, imprimiu sinais nos corpos dos sobreviventes e deixou vestígios na história. Oficialmente, todos os vírus da vacina existentes no planeta encontram-se congelados em apenas dois laboratórios: em Atlanta, nos Estados Unidos, e na Sibéria, na Rússia.

As epidemias de varíola – como tantas outras que se abateram na história da humanidade – derrotaram governos e vergaram religiões; desarticularam cotidianos e permaneceram no imaginário das comunidades por longos períodos, enquanto os sobreviventes tentavam recompor suas vidas, marcadas por ausências e perdas. Segundo McNeill, facilitaram o domínio por invasores estrangeiros, pois

a história da conquista da América seria incompreensível se não se ressaltasse o papel da epidemia de varíola, que dizimou as populações nativas, propiciando a vitória dos espanhóis.”

A partir da chegada dos europeus e no transcorrer dos séculos que se seguiram à conquista ibérica, as epidemias palmilharam a história colonial da América e do Brasil. 

No século XVIII, no velho continente, experimentos científicos viabilizados pela difusão e melhoramentos   do microscópio começaram a entender o comportamento do vírus da varíola, dando início ao combate que terminaria com a vitória dos cientistas. Nas primeiras décadas do século XIX, a vacinação já era exigida em algumas regiões do mundo. 

“Assim foi que, mesmo com a vacinação exigida na Bavária (1807), Dinamarca (1810), Rússia (1812) e Suécia (1816), a epidemia de varíola continuou a se espalhar pela Europa. Em 1837, 2100 pessoas morreram de varíola em Londres. William Farr, em 1840, no periódico britânico de medicina The Lancet, comparou a evitável e persistente epidemia com a imagem de se jogarem crianças da ponte de Londres, dia após dia.”

Ao contrário de outros milhares de vírus mutagênicos, como o vírus da Covid-19, por exemplo, que podem se autotransformar, o Orthopoxvirus variolae,  tem a característica da imutabilidade e se manteve inalterado em todos os episódios conhecidos, o que facilitou, a considerar a falta de recursos do século XVIII, sua identificação e comportamento.  

  1. Pesquisas pelo antídoto e a resistência à vacina

Os métodos científicos para controle da enfermidade variólica começaram a esbarrar em muralhas de resistência ao invadirem espaços anteriormente vinculados aos domínios da fé católica, o que transformou o século XIX num palco de intensos debates.

A morte e as questões que a envolviam, como os sepultamentos, começaram a sair – não sem muita resistência – do exclusivo âmbito religioso e começavam a fazer parte dos discursos e literatura científicos. Em nome da saúde pública, mudanças radicais eram propostas, como os sepultamentos em lugares afastados das concentrações urbanas. Essas novas propostas entravam em conflito com os costumes cristãos que orientavam enterrar os mortos próximos às igrejas. Enquanto na Bahia, em 1836, a construção de um campo santo afastado da cidade mobilizou a população em um movimento de revolta conhecido por “cemiterada”; na cidade de Araxá, em Minas Gerais, um cidadão denunciava os malefícios que provocavam os sepultamentos realizados próximos à Igreja Matriz, na praça central.

“queixava-se o cidadão [João Carneiro de Mendonça] de que morando numa casa-sobrado situada ao lado esquerdo da Igreja Matriz, presenciava diariamente o sepultamento dos cadáveres em covas rasas no cemitério dos fundos, a apenas ‘20 palmos’ de sua janela. Os porcos e cães que eram criados soltos nas ruas, ao revirarem a terra do cemitério, desenterravam os cadáveres em decomposição produzindo, além da ‘fedentina insuportável’ de que este vizinho reclamava, cenas de horror que nós mesmos podemos imaginar.

Pesquisas científicas avançavam em busca de espaço no conflito ciências x fé enquanto a instituição religiosa lutava para manter o domínio imperioso que exercia há mais de 1.800 anos. 

Desde 1833, o senador do Império do Brasil, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, já falava da necessidade de se propagar a vacina contra a varíola. No entanto, as instituições provinciais e municipais, responsáveis pelos procedimentos de imunização, não tinham autoridade ou interesse suficiente para fazer cumprir as determinações oficiais que chegavam. A vacinação não era aplicada de modo sistemático, pois gerava medo, resistência e dúvida na população.  

A primeira ocorrência da varíola, no Brasil, foi registrada na Bahia, em 1563. Daí até 1804, quando a vacinação foi introduzida no país, pelo marquês de Barbacena, Caldeira Brand Pontes, novos episódios foram registrados 

Em 1811, dom João VI criou a Junta Vacínica da Corte e em 1837, teve início a imunização compulsória em crianças. Ou, pelo menos, era essa a determinação. Em 1846, foi criado o Instituto Vacínico do Império e em 1900, com o objetivo de fabricar soros e vacinas, foi criado o Instituto Soroterápico Federal. 

Mas nem sempre o que está escrito tem a força da lei e a expressão “letra morta” se fez compreendida, nas questões que envolviam a vacina. A ata da Câmara Municipal de Paracatu registra, em 31 de maio de 1858, uma sessão extraordinária para tratar de uma circular da Presidência da Província. Essa circular (que, como o próprio título indica) deveria ter sido encaminhada a todas as localidades do território mineiro. É lícito conjecturar, portanto, que a vizinha Comarca de Araxá a tenha recebido e cujo teor dizia:  

“constatando que há alguns anos não tem havido vacina nesta cidade, e desejando concorrer com o que estiver ao seu alcance, para tudo que for o bem desta cidade e seu município, mandou vir, e junto oferece a esta câmara duas lâminas com pus vacínico de boa qualidade, para que elas se dignem fazer propagar tão útil e ficar preservativo das bexigas.”

E a sessão extraordinária da Câmara deliberou 

“não fazer a inoculação na atualidade, e que se responda ao Doutor Juiz de Direito agradecendo-lhe e expondo as razões que ela se fundou para assim deliberar, e que se publique por editar a deliberação tomada; guardando-se com cautela as lâminas no arquivo”.

A epidemia de varíola que se alastrou pelo Rio de Janeiro, em 1904, ou seja, logo depois da epidemia em Araxá, que ocorreu em 1891, dizimou quase 3.500 pessoas. As medidas preventivas da vacinação não eram obedecidas e, quando Oswaldo Cruz, diretor da Saúde Pública, enviou um projeto de lei sobre a vacinação compulsória, esse ficou conhecido como “Código de Torturas”. Segundo a Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz, 

“o projeto provocou a ira da oposição. No Congresso e na imprensa, os debates pegaram fogo. Oficiais do Exército, monarquistas, operários, adeptos do positivismo, estudantes, jornalistas e até médicos: havia adversários da vacinação em praticamente todos os setores da sociedade.”

A união multidisciplinar de forças contra a vacinação compulsória facilitou a criação de um movimento a “Liga contra a Vacina Obrigatória.”

A aprovação do projeto de Oswaldo Cruz desencadeou, ainda naquele ano, a Revolta da Vacina. O então presidente Rodrigues Alves declarou estado de sítio e foi forçado a revogar a obrigatoriedade da vacinação.   

A análise documental dos municípios próximos a Araxá, como os da Câmara Municipal da Cidade de Paracatu é de interesse abrangente, pois como bem ressalta o Professor Marcos Spagnolo Souza, Coordenador do Projeto História e Memória, os 

“documentos que estão no arquivo público são importantes, não apenas para o município e sim para a historiografia brasileira, pois a região de Paracatu, tornando-se uma comarca do Rio das Velhas abrangia todo o atual Noroeste Mineiro e também o atual Triângulo e Alto do Paranaíba.”  

E foi no Alto Paranaíba, sertão de Minas Gerais, atual cidade de Araxá, que a epidemia de bexiga preta provocou uma tragédia.

Quando em 1891, o Orthopoxvirus variolae se instala na cidade, o terreno era propício para a explosão de uma enfermidade tão potencialmente contagiante, estabelecendo um período de terror, como podem comprovar os documentos, jornais da época, registros de óbitos, cemitérios lotados e a oralidade. Mas nada deixou tão forte e perene impacto na história do lugar como a morte de uma mulher, registrada como Filomena de Tal.  

 O local do sepultamento, marcado por uma pequena e rústica cruz à beira de uma estrada, no alto de uma colina e as narrativas orais que começaram a ser construídas pelos transeuntes que circulavam entre as áreas rurais e urbanas, tentavam explicar o ocorrido naquele local: aquela teria sido a última vítima e, por conseguinte, assinalava o término de um período terrível; por outro lado era, também, o estigma de um sepultamento longe do campo santo, o que o tornava impuro.

 Esses elementos fizeram e fazem vivo esse processo de santificação popular que se retroalimenta com o passar do tempo, enquanto mantêm viva a epidemia de bexiga preta, como ficou conhecida, do final do século XIX, como um tema recorrente na cidade. Dado o contexto histórico-religioso da época, todo crédulo que passasse pelo local viveria um momento de emoção religiosa, misteriosa e inspiradora. Viveria um momento numinoso.

  1. A epidemia da varíola em Araxá

     O cenário da história

Com matizes sombrias, deveria ser pintado o quadro de uma cidade, no final do século XIX, tomada pela força implacável de uma epidemia, onde a ciência era posta em dúvida e todos os fundamentos da existência humana eram pautados pela religião. Os acessos à cidade foram fechados, interrompendo o afluxo de pessoas; as precárias casas de saúde ficaram repletas; os sinos tocavam incessantemente, anunciando novos mortos, a ponto de incomodar os enfermos; ao caminhar pelas ruas e becos podiam-se ouvir os prantos dos que perdiam seus entes queridos e dos que viam irromper, na própria pele, as máculas que se transformariam em pústulas, no calor do corpo febril.

Para aplacar a fome da população, alimentos eram deixados nas entradas da cidade pelos moradores solidários de municípios limítrofes, comprovando o grau de indigência e de desarticulação em que a cidade vivia. No abrir e fechar de covas rasas que recebiam os fardos mórbidos, os ritos religiosos ficavam suspensos ou simplificados.

O espectro das epidemias sempre rondou o cotidiano do araxaense no século XIX, através dos surtos que se instalavam na Província ou no país, ou das medidas governamentais que buscavam controlar o inimigo invisível. Em abril de 1834, a Vila de Araxá recebera um par de lâmina de pus vaccine acompanhada de 12 mil réis para dar início a uma campanha de vacinação em massa, que não foi realizada. O temor do pus vaccine aconselhava que era melhor não proceder à vacinação, pois “em lugar de lhes proporcionar um bem futuro lhes pode trazer um mal presente”.

Em 5 de agosto de 1891, quando a população se julgava no maior bem-estar (…) irrompeu a epidemia de varíola, cujo primeiro caso foi observado em casa de um padeiro, sr. José Godinho, e que contaminou toda a cidade, relata o memorialista Sebastião de Afonseca e Silva. Em 4 de novembro do mesmo ano, a enfermidade atingiu a Freguesia de São Miguel da Ponte Nova, distrito próximo a Araxá, conforme os registros do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento.

Esse município limítrofe enviava carroças de alimentos para Araxá, deixando-os na entrada da cidade para não ter contato algum com pessoas do lugar. Em ata de 29 de setembro de 1891, a Câmara Municipal de Sacramento registra que

“O cidadão Baptista de Mello, pedindo e obtendo a palavra considerou que estando desenvolvendo a varíola nos Municípios circunvizinhos que era de parecer que se tomasse alguma precaução nesse sentido como preventivo de contaminar esta epidemia nesta cidade, como por exemplo autorizar-se o Agente do correio desta cidade para defumar as malhas recebidas (…) e bem assim será também defumado o estafeta do Araxá a esta cidade por uma praça indicada pelo Delegado de polícia, cuja defumação será feita antes da chegada do estafeta nesta cidade.”

Instalada na região, a varíola assombrou de tal forma a população que até os dias atuais o flagelo da bexiga preta ecoa pela cidade.

Segundo Afonseca e Silva, no início da epidemia, quase toda a população de Araxá estava sem vacinar, o que indica não terem sido bem-sucedidas – ou sequer tenham sido providenciadas – as campanhas de vacinação, haja vista o relatado nas atas da Câmara de Paracatu. Alguns, ou melhor, aqueles que podiam, procuravam se distanciar do flagelo, conforme pontua Afonseca e Silva: “impelida por um só impulso, um verdadeiro êxodo abandonou a cidade, refugiando-se nas fazendas dos parentes e amigos.

Muitas formas de contágio já eram conhecidas, afinal, a humanidade sempre conviveu com os microrganismos e, por óbvio, mantinham algumas condutas de afastamento. A fuga dos lugares acometidos pela peste era uma delas.

Sobre a já citada pandemia da Peste Negra, de 1348, na Europa, em seu esclarecedor livro sobre as epidemias, nos conta Ujvari que

“Entre as pessoas que fugiram da peste não se destacaram aquelas que permaneceram exercendo seu papel na comunidade, membros do clero e dos conselhos municipais. Algumas delas continuaram aglomeradas e enclausuradas, e assim foram vítimas do mal. Todos os agostinianos de Avignon morreram, bem como todos os franciscanos de Carcassone e Marselha, que eram em torno de 150. Dos 160 franciscanos de Maguelone, 153 morreram; em Montpellier, sobraram apenas sete franciscanos dos 140 ali existentes.”

Assim como a peste negra na Europa, nem o corpo eclesiástico da cidade, esteio da segurança e da esperança do povo araxaense, ficou imune ao flagelo.

Na atmosfera circunscrita entre a religiosidade e o temor, a epidemia em Araxá ceifou muitas vidas. Entre essas, a do pároco local, padre Belchior Ferreira da Silva que cumpria o seu “sagrado dever religioso”. Essa morte, seguramente, teria afetado os araxaenses que assistiram ao último esteio da esperança ser abatido. Tal fato intensificou os momentos de pânico até então vividos pela população, afinal cabia à Igreja orientar seus fiéis naquele momento de angústia.

A gravidade da situação levou o doutor Eduardo Augusto Montandon, médico da cidade, a enviar correspondência ao Convento dos Dominicanos de Uberaba para que “enviasse um ou mais padres”, pois

“o vigário desta cidade (…) tendo sido chamado para atender em confissão um doente atacado de varíola, pressuroso dirigiu-se à casa do enfermo, onde deu-lhe os sacramentos da Igreja. Foi neste ato, no cumprimento do seu sagrado dever que contraiu a terrível moléstia que dizimara pessoas de sua família e que depois de alguns dias matava o distinto sacerdote, e quase sucessivamente, dois irmãos e um cunhado.”

Alguns dias depois, dois representantes eclesiásticos, padres Vicente Ferreira Estrella e Ananias Tobias de Aguiar restabeleciam a ordem religiosa na cidade, justificando a euforia dos araxaenses. Segundo Affonseca e Silva

“Apesar de nossa cidade ter ficado entregue apenas à meia dúzia de enfermeiros e pessoas caridosas, o júbilo destes foi tal que não contiveram e à meia-noite faziam subir aos ares alguns foguetes, que para uma cidade deserta e os hospitais cheios de moribundos, era um contraste”.

Embora o falecimento do padre Belchior pudesse conter ingredientes para um processo de sacralização, afinal, ele morrera no “sagrado cumprimento de seu dever religioso”, atendendo aos moribundos ou ministrando-lhes a extrema-unção e amparando espiritualmente as famílias que tinham perdido seus próximos, foi uma mulher desconhecida, sem sobrenome ou biografia que foi elevada à condição de Mártir da epidemia. “Ela tem poder. Se você se apega com fé, ela te atende. Eu já alcancei muitas graças. Para mim, para minha família”.

Segundo o sucinto relato de Afonseca e Silva, a morte de Filomena teria ocorrido sem agravamentos que justificassem quaisquer comentários adicionais – além daqueles concernentes à situação ocasionada pela terrível enfermidade. Ela teria sido enterrada fora do espaço sagrado devido ter desaparecido o termo de coveiro e condutores de defunto de varíola”:

“De dezembro a janeiro, o declínio do mal já era franco e animador; raros casos eram notificados, e o povo em geral, ansioso por voltar a seus lares e quase todos já vacinados, começaram a entrar na cidade e a receberem os gastos que haviam feito. Contudo, ainda um ou outro caso era observado, e o último deu-se com uma mulher de nome Philomena de Tal, que teve a infeliz sorte de ser sepultada quase junto à estrada que subindo a ‘casa’ do Juca Pereira, fica logo no alto, indo junto a umas árvores de óleo, se vê uma cruz fincada.”

O surto epidêmico demorou aproximadamente cinco meses e

“debelado enfim, o pavoroso flagelo, de funestíssima memória, volta os foragidos aos seus lares abandonados. E é fácil imaginar o aspecto da cidade quando isto se deu. Tudo ali era triste, lúgubre, desolador. As casas, durante cinco meses desabitadas, transudavam a bolor e de seus interiores escapava um bafio de masmorra infecta… as ruas e praças, literalmente invadidas pelo matagal (…) e na lividez marmórea de cada fisionomia daqueles que voltavam aos seus penates, se estampava o terror, esse terror que é quase demência. Por toda a parte a devastação, a ruína, o luto.

Registros historiográficos relatam que a epidemia de varíola se abateu sobre os 2.400 habitantes do perímetro urbano de Araxá, quando a cidade sofria sérios problemas estruturais. A Câmara Municipal, por exemplo, não podia realizar as reuniões em seu recinto, devido ao estado precário de conservação; ruas sem calçamento e sem iluminação pública, enquanto a maioria das casas não possuía instalações sanitárias nem fossas sépticas. A população que convivia com animais soltos pelas ruas, não tinha acesso à água potável, pois existia “um projeto para a construção de uma caixa d’agua no alto da cidade, mas não tinha sido encontrado, ainda, alguém capaz de executá-lo.”

O estado de desassossego vivido por aqueles araxaenses que, não tendo para onde fugir, sucumbiam ante a peste, como a varíola também ficou conhecida, é claramente percebido. A peste era o castigo do corpo e da alma, da vida presente e do post mortem, afinal essa era uma condenação por pecados cometidos. A fé foi o sustentáculo encontrado pelos moradores de Araxá e região nesse quadro de amarguras que, facilmente, poderia ser remetido às descrições do purgatório, do inferno, das punições divinas pelas transgressões cometidas e tão apregoadas pelos representantes da Igreja e pelos livros religiosos. 

Nesse cenário de horror, apenas a fé era o remédio. Apenas ela poderia vicejar, pois como esclarece a psicóloga Eliude Felix o entrelaçamento entre religião e sofrimento, acredita-se “que são dois caminhos distintos, mas que findam por encontrar-se e permanecem juntos até que o sofrimento receba um novo sentido”.

À beira de um caminho de terra batida, uma cruz estava, invariavelmente presente, coroando a cova rasa daquela cuja morte assinalou o fim de uma epidemia mortal, no entendimento daqueles que começavam a tecer a história da “Mártir Filomena”, como ficaria conhecida. E eram as pessoas do campo que, deixando suas casas (ou voltando para elas) se deparavam com o signo da morte fora do lugar apropriado, ou seja, fora do cemitério local. A pungência do encontro entre a cruz e os crédulos que por ali passavam teria sido um ponto crucial no qual esses devotos, munidos da doutrinação recebida ao longo da vida, buscassem fundamentos para aquela situação anticristã. A cena representada suplicava explicação que pudesse justificar uma cruz, símbolo tão presente na vida cristã, fora do lugar apropriado. Era imperioso dar-lhe sentido. 

Respondendo sobre as lembranças de seu primeiro contato com a cruz de Filomena, relata D. Joana

“Ah! Seria eu bem pequenininha. Meu pai contava essa história. Fala até o nome da pessoa que fez o enterro, que se chamava Agostinho Lalau. Ele levou a Filomena no carrinho – assim meu pai contava – chegou lá e enquanto ele abria a cova para enterrar ela, ela pedia água e ele [o pai de D. Joana] acha que como era inverno e não tinha água, e com a pressa de enterrar, ele a enterrou pedindo água (…) Ele a enterrou viva, pedindo água. Da moda do outro, quando a pessoa queria pedir um milagre ou uma coisa assim, levava uma garrafa de água, e rezava um terço, um pai-nosso, uma ave-maria, lá, junto (…) dizem que ela pediu água e Agostinho Lalau puxava terra que tinha que fazer muitos [enterros].”

Com referência à informação de que Filomena de Tal fora enterrada viva, como afirma D. Joana e muitos outros depoentes deve-se considerar que em casos extremos como epidemias, os sepultamentos de enfermos em estado cataléptico, é de possível ocorrência, especialmente quando o receio de contágio forçava o maior distanciamento possível  das pessoas acometidas com a moléstia.   

Quanto das lembranças contadas por seu pai ainda persistiam integralmente na memória de D. Joana? Quantas incorporações ocorreram, ao ouvir de outros narradores, essa mesma história? Quanto foi acrescido, inconscientemente, ao longo dos seus oitenta e três anos de vida, na ocasião do depoimento, por ela acreditar que aquele fato aterrador, de se sepultar uma pessoa viva, como forma de “simpatia”, como será explicado a seguir, deveria ter ocorrido da forma como ela narrava? As memórias tendem a  modificar, flexibilizar, querem sempre atestar, responder, contestar. Querem ser verbalizadas; querem existir para além dos guardados mnemônicos.  

A cruz solitária na beira da estrada foi o ponto de partida para a busca por explicações, para se tentar entender o ocorrido, pois se o sepultamento, no mundo ocidental, mesmo realizado dentro dos parâmetros estabelecidos pelas igrejas é uma situação angustiante, quando ocorre em lugar devoluto, distante do espaço religioso, “produz medo, terror”, especialmente quando

“o imaginário do mundo cotidiano que o homem do campo habita é povoado de seres vagantes, humanos, sub- e super-humanos. Seres que a luz elétrica e as ideias claras espantam, empurram para o fundo dos matos, mas que até hoje não deixaram de existir nem perderam de todo o seu poder”.

Referindo-se a Max Weber, para quem “o homem é um animal amarrado a teias de significações que ele mesmo teceu, Geertz afirma que “assume cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura de significados”.

AS ÁGUAS MINERAIS

Os primeiros moradores da região de Araxá se instalaram no local devido à ocorrência das águas minerais e, em 1791, a região é reconhecida como Freguesia de São Domingos do Araxá. Essas águas minerais, tão importantes para a alimentação dos animais, devido à presença de sal natural, “são límpidas e de cor avermelhada, com um gosto amargo que lembra ao mesmo tempo o de ovos podres”, registrou Auguste de Saint-Hilaire, quando passou pelo local por ocasião de seu périplo pelo Brasil (entre 1816 – 1822). E segue o botânico francês: 

“A menção dessas simples características é suficiente para mostrar que elas são sulfurosas e, em consequência, poderiam ser empregadas na cura de todas as doenças para as quais são aconselhadas águas desse tipo, e em particular das moléstias de pelo, tão comuns no Brasil”.

Desde o feliz prognóstico de Saint-Hilaire muitos estudos começaram a ser desenvolvidos sobre a potencialidade das águas araxaenses sendo, inclusive, comparadas às grandes estações de águas francesas. As águas minerais de Araxá eram recursos indispensáveis ao gado vacum e cavalar. Notícias auspiciosas na terra “onde o sol nasce primeiro”. 

A historiadora Glaura Teixeira Nogueira Lima afirma que o zelo com a saúde física e a busca de clima ameno fizeram do Barreiro – como era chamado o afloramento das águas minerais devido ao pisotear dos animais que iam beber as águas – um reduto para temporadas das elites, principalmente dos grandes cafeicultores paulistas:

“Os anúncios que faziam a propaganda de Araxá aliavam o triunfo das águas ‘milagrosas’ à existência de vistas panorâmicas, ‘bellos parques e jardim de recreio com pomar’. As ‘casas de regimens’, atrativos de alguns hotéis ou de consultórios médicos, investiam em alimentação adequada aos ‘aquistas’ acometidos por doenças”. 

Nesse momento de perspectivas positivas, com a possibilidade de criação de uma estância hidromineral na cidade, ocorre o fatídico flagelo de agosto de 1891.

A propalação de episódios que, quando não matam, deixam marcas no corpo e “envenenam o espírito”, poderia comprometer o projeto de uma cidade “sã”. Para uma cidade que já tinha instalado uma casa de repouso” próxima às fontes minerais e que procurava atrair pessoas, “vendendo saúde”, a instalação de uma epidemia com alto índice de contágio representou sérias perturbações.

Os projetos que visavam a exploração econômica das águas do Barreiro, e que poderia impulsionar a cidade deveriam aguardar alguns meses para ter seu início, por força da epidemia de varíola. 

Para socorro das vítimas flageladas pela epidemia, o Presidente do Estado concedeu um crédito de dois contos de réis para a Freguesia de São Miguel da Ponte Nova e cinco contos de réis para a cidade de Araxá. Assim, o Estado mineiro tentava remediar o golpe aterrador que deixara em seu rastro várias mortes, bem como a economia e a sociedade desorganizadas. 

Nesse contexto paradoxal, Araxá se encontrava, nos fins do século XIX, entre o fim de uma catástrofe e o impulso benéfico das águas minerais que curam.

  1. A vida e a morte sob custódia da fé

“sejam boas, crianças. Porque para aquele que faz o mal a chegada da morte é terrível”

Consta no livro sagrado do cristão, no Velho Testamento, uma referência sobre o “culto aos mortos”, que doutrina sobre o comportamento ante um morto: “Meu filho, derrama lágrimas sobre o morto, e chora como um homem que sofreu um rude golpe. Sepulta o seu corpo segundo o costume, e não desprezes a sua sepultura.

A doutrinação religiosa inculcava no imaginário coletivo ocidental, a força de seus preceitos. A instituição passaria a comandar a vida humana nos próximos séculos, tendo como máxima que o “viver” deveria ser pautado de forma a conduzir o cristão a “uma boa morte”. 

O céu, o purgatório e o inferno dependiam do crédulo ser ou não, obediente a essas doutrinas; apresentar-se ao pároco no confessionário e apontar todos os pecados que tivesse cometido ou pensado em cometer, era obrigatório; a salvação só seria possível se o cristão cumprisse fielmente os ensinamentos, caso contrário, sofreria a punição eterna, nas chamas perenes do inferno. Era um laço forte, difícil de desatar mesmo quando, anos depois, o cristão tivesse consciência de que esses ensinamentos não correspondiam à verdade. Mesmo assim ele continuava, insanamente, a mantê-los. 

Desde que se estabeleceu, fortaleceu e se aproximou dos poderes políticos,  a Igreja Católica era soberana no cotidiano do cidadão. As horas eram assinaladas pelos sinos, as atividades além do trabalho físico, eram determinadas pelos calendários litúrgicos; cada dia tinha um santo correspondente a quem deveriam ser dirigidas as preces; as orações ao nascer do dia eram imperiosas, e ao se deitar, também. Os nascimentos eram registrados na Igreja, notadamente no dia do batismo, afinal, era essa a data em que a pessoa nascia para o reino de Deus, assim como a morte, que deveria ser registrada no livro específico cristão. 

Apesar de o Deus cristão ser onipresente, onisciente e onipotente, cabia à instituição acompanhar, educar, conhecer segredos mais íntimos, punir, absolver (ou não), enfim, todos os poderes sobre a vida humana foram (auto) outorgados a ela. E a certeza de saber que Deus via e ouvia seus atos e seus pensamentos todo o tempo, pode ter sido angustiante, intimidador e traumático para o indivíduo. 

A arquitetura das Igrejas desempenhou papel preponderante no processo de fortalecimento, num período em que imperava o analfabetismo: as representações das mensagens bíblicas nas paredes ou nos vitrais coloridos e com efeitos visuais que até hoje atraem o olhar e instigam a imaginação, especialmente quando atravessados pela luz do sol, ajudavam a fixar as pregações proferidas pelas autoridades eclesiásticas, no púlpito. 

A maneira de expressar a inquietude humana nas questões que envolvem a morte e o post mortem sofreu alterações no tempo e no espaço, ao longo da História. A partir da divulgação apostólica do cristianismo e do surgimento e da consolidação da Igreja Católica, sob o paganismo do Império Romano, ficou patente que a vida e a morte passariam a ser prerrogativas da Igreja Católica Apostólica Romana. 

O padre premonstratense Leonardo Goffiné, em fins do século XVII, escreveu o Manual do Christão. Esse Manual, até o século XX, era tido como substituto para aqueles que não podiam cumprir os ofícios religiosos na Igreja. Reza, esse breviário, na página de abertura que 

“Além de um copioso Devocionário, contém uma Explicação das Epístolas e Evangelhos dos Domingos e mais dias Santos, do Advento, Quaresma, etc., e um curso completo de instruções morais (grifo nosso), litúrgicas e dogmáticas distribuídas em harmonia com os Evangelhos do dia.”

Os princípios morais eram, portanto, pautados pelos decretos e ordenamentos da instituição e aqueles que ousavam desafiar ou discordar dos dogmas cristãos estavam sujeitos a penas de toda espécie. Os processos inquisitoriais narram espetáculos de horror que, atualmente, a própria Igreja Católica se envergonha de tê-los praticado. 

 O padre premonstratense, já citado, afirma que:

“Com o contato das heresias sentiu a necessidade de basear a piedade católica, antes que tudo, no fundamento firme dos doces e sublimes verdades nossas. Quem quer separar a piedade da verdade integral, obra faz tão vã e tão má, como a dos que pretendem separar do dogma a moral. Piedade independente não há, como não há moral independente (grifos nossos).”

Claro fica que, a “verdade integral” estava nos dogmas católicos assim como, sem eles, não havia “moral independente”.

Poucos acontecimentos são tão presentes no imaginário da humanidade quanto o “morrer”. Presente e temido. A morte comprova a fragilidade e a limitação humana, da decomposição dos corpos à emanação de odor repulsivo, enquanto as aventuras do além-túmulo dependiam da boa relação do devoto com os princípios religiosos da Santa Madre Igreja Católica. 

Nesse sentido, para Delumeau, o entendimento da morte

“segue na mesma direção quando aborda o medo e os comportamentos coletivos da sociedade ocidental, apontando a continuidade ou a permanência em relação a reações e atitudes coletivas diante de ameaças epidêmicas da peste.”

Delumeau (1923 – 2020) corrobora com precisão o ocorrido no lugar de memória em que começava a ser transformada a pequena “cruz da Filomena”: o ato milenar de benzer-se em frente a uma cruz ou algum objeto sagrado, o poder da fé e a prática integradora de contar histórias, procurando, neste ato, entender e explicar o acontecido:  a oralidade. 

E foi sob a chancela desta prática que a história da última vítima da peste, em Araxá, avançou e chegou a todos os lugares da cidade: a persistência da memória através da oralidade. 

O regime de terror era o açoite invisível que as doutrinas utilizavam para manter os “cordeiros de Deus” sob rédeas curtas; a obrigatoriedade de manter a fé era cobrada diuturnamente pela Igreja, pela família, por toda a sociedade. Esse sentimento chamado Fé e que impulsiona a prática da religiosidade popular vem sendo estudado há muito tempo, por várias disciplinas. 

  1. A fé 

Mas, qual razão para a submissão humana, que em mais de dois milênios possibilitou à Igreja Católica esse total domínio sobre pessoas, cidades e nações? 

Em sua Epístola aos Hebreus o apóstolo Paulo procurava estimular a fé dos primeiros cristãos. E a preservação da fé, para esse incansável semeador do cristianismo primitivo, era a possibilidade de salvar a alma: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que não se veem”. Essa carta foi escrita com o propósito de estimular a fé em Jesus Cristo, de não permitir que os cristãos-judeus caíssem em apostasias. 

Para o Professor Libânio, teólogo, a fé é uma experiência humana fundamental que se faz entre as pessoas e que se prolonga para coisas, mistérios, religiões. Crer é a condição de existir num convívio humano.” 

O termo fé compreende confiança, envolvimento, fidelidade, enquanto a palavra experiência, citada por Libânio, é compreendida, conforme o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira como a prática da vida (…) conhecimento que nos é transmitido pelo sentido (…)” .  

Conforme Eliude Felix na obra já citada, ao explicitar sobre o merecimento de se ter ou não uma graça especial alcançada, ela pontua que 

“Fé diz respeito à confiança depositada em Deus, em Jesus Cristo e na Bíblia Sagrada. Essa confiança é expressa também na aceitação do ato de salvação realizado por Jesus Cristo e todos os benefícios que ele oferece. É uma realidade que não necessita de comprovação científica ou de qualquer outra ordem, mas que se fundamenta na experiência do religioso com o sagrado.” 

A obtenção de uma graça especial nem sempre é alcançada por todos. Aqueles que são tocados e, portanto, merecedores dessa conexão positiva com o divino, têm que ter escolhido essa condição através da fé que é “uma ferramenta importante para lidar com a questão do sofrimento”.

No entendimento de um cientista, o professor Marcelo Gleiser, ao separar fé e ciência, ele conclui que é uma outra maneira de se relacionar com a realidade”.

O biólogo e pesquisador americano e ateu David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, e um dos grandes defensores do papel da crença em Deus para a sobrevivência humana, sustenta que a “fé evolui com o homem porque confere vantagens àqueles que a desenvolvem”.

Seguindo essa linha de pensamento, a crença, como tantos outros sentidos, foi incorporada à espécie humana em seu processo de evolução cultural. “O homem, o único ser vivo com a capacidade de ter consciência da finitude, buscou encontrar algo maior e mais poderoso do que ele próprio e do que todas as forças da natureza para aprender a vencer os conflitos, as lutas; a lidar com as perdas e ganhos; a ser o mais apto a sobreviver. 

Nesse sentido, o historiador Reza Aslan, em seu livro Deus, uma história humana, afirma:

“A crença religiosa, escreveu Freud em ‘O futuro de uma ilusão’, nasceu da necessidade do homem de tornar tolerável seu desamparo. Ele [Freud] acreditava”, 

segue Aslan, 

“que o impulso religioso surgiu de um desejo inato no homem primitivo de criar uma ‘figura paterna’ perfeitamente boa e todo-poderosa.” 

E finaliza o historiador: 

Os seres humanos adoram deuses pelo mesmo motivo porque a criança idolatra seu pai: precisamos de amor e proteção; queremos conforto para nossos medos mais profundos e mais sombrios”.

A fé religiosa, como prática extensiva da busca de uma força maior foi, portanto, um ligamento, um sentido de pertencimento a determinado grupo que comungasse as mesmas ideias. Ao longo da história essa forma de explicar a realidade foi sendo apropriada pelos mais diversos interesses, e nem sempre benéficos. 

No período de tragédias, somente a fé, verbalizada em forma de oração era o conforto, a esperança, o amparo.  E já no período do cristianismo, o devoto era impelido às Igrejas onde buscava proteção. Procissões eram organizadas, como se vê nos períodos de seca, no nordeste do Brasil, quando os cristãos, em busca do último recurso, saem em marcha com seus pares, implorando aos santos da Igreja por uma intercessão junto aos poderes divinos.

A fé foi, portanto, o motivo condutor que moveu e direcionou “as pessoas simples”, como informa uma devota, no processo de santificação popular de Filomena.

É imperioso atentar para a atmosfera contrita e os anseios das pessoas de fé cristã, do final do século XIX e início do XX, solidamente amparadas nas práticas religiosas, especialmente nas questões que envolviam o “morrer”, pois a morte não implicava a finitude humana. Jesus disse à Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá

Como, então, explicar a presença de uma cruz assinalando um local de sepultamento, no “meio do pasto”?

Passar perto ou no local do sepultamento, durante o dia ou à noite, instigava a emersão dos preceitos religiosos gravados na mente do cristão e isso   foi determinante para que a pequena e rústica cruz despertasse os sentimentos de compaixão e indagação dos caminheiros: Por que aquela cruz estaria naquele local? Qual o significado daquela exclusão? Ela teria morrido de sede, realmente? Quem a sepultou? Como essas pessoas, encharcadas de fé, responderiam a essas indagações?  A peste da bexiga preta, a morte, a cova rasa e os suplícios vinham, imediatamente, à mente. Essas perguntas provocavam o cristão que procurou respostas dentro do conhecimento oral adquirido, em sua vida secular e religiosa.

Acreditar nas coisas que não se veem, como pregava o apóstolo Paulo, portanto, era plausível para o crédulo. E foi esse sentimento chamado fé que levou os caminheiros do final do século XIX a crerem que aquele sepulcro abrigava o corpo de uma escrava, morta em suplício, enterrada viva e com sede, para que a epidemia em Araxá cessasse. Assim teve início a narrativa que ultrapassaria as fronteiras entre o rural e o urbano e alcançaria toda a cidade.

  1. E a cruz

No transcorrer da História, especialmente nos últimos dois mil anos, uma representação gráfica cruciforme, de extrema simplicidade, passou a ser um dos símbolos mais reconhecidos, mundialmente, a partir de uma crucificação numa colina chamada Gólgota. Esse evento bíblico basilar e explicativo do cristianismo se explica com a morte e a ressurreição de Jesus, o Nazareno. O símbolo passou a representar a paixão, o sofrimento e a morte. “Onde está a cruz, aí está o crucificado”. 

O local da cruz de Filomena, deslocado de seu lugar natural estava, portanto, impregnado de simbolismo sobre paixão e morte que precisavam ser explicados.

“Todos que passavam por lá, se benziam”, relata D.  Joana de Castro, a mais idosa entre as pessoas entrevistadas sobre a santificação popular de Filomena, e que acompanhou a evolução da rústica e abandonada cruz, em uma Igreja.  Rezar pelos mortos é um compromisso de fé.

“Caminheiro que passas pela estrada, 

seguindo pelo rumo do sertão, 

quando vires uma cruz abandonada, 

deixa-a dormir em paz, na solidão.

(…)

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,

A sepultura fala a sós com Deus.

Prende-se a voz na boca das cascatas,

E as asas de ouro aos atros, lá nos céus”.

Em que pese a beleza da poesia do maior representante do condoreirismo brasileiro, com seu poema “A cruz na estrada”, Filomena de Tal nunca esteve só. Sempre havia pequenas flores do campo, colhidas pelo local, no encontro dos dois pedaços de madeira que formavam a cruz. Depois começaram a ser ofertadas água e flores, não mais colhidas do campo. Alguém as trazia, propositalmente, aquelas flores, acrescenta D. Joana de Castro. Fica subentendido que não eram mais os caminheiros que passavam pelo local, obrigatoriamente, mas alguém que se deslocara para ir ao túmulo levar as flores, não mais colhidas ao derredor. Garrafas com água não faltavam em conformidade com a expansão da história de Filomena, afinal, constava da narrativa: Ela morreu de sede, diziam os devotos. 

Assim, lentamente, como lento era o passar do tempo no início do século XX, começou a peregrinação à cruz órfica pois essa singularidade deveria ser incômoda ao olhar humano e cristão. 

No caso de Filomena de Tal, os preceitos litúrgicos, tão recomendados pela literatura e pelas pregações nos púlpitos, foram negligenciados: o respeito ao morto, o velamento e o sepultamento em área própria e abençoada pela Igreja Católica, para o descanso final do sepultado, enquanto esperava a parúsia e a ressurreição.  E esse fato ocorreu em uma cidade do interior de Minas Gerais, no momento em que, conforme o tradutor do já citado Manual do Christão, de 1912, já assegurava que todos eram devotos da Igreja: Católicos brasileiros, ou antes brasileiros sem mais, que todos somos católicos.  

Esse símbolo tão representativo para o crédulo estava ali, à beira da estrada, querendo dar-se a entender. Ele suportou as intempéries, resistiu ao tropeço de animais e ao plantio agrícola.  Em algum período específico, já nas primeiras décadas do século XX, quando uma plantação de café circundou a sepultura, a pequena cruz teria ficado menos acessível, mas foi nesse período que as pessoas começaram a cuidar com ainda mais zelo, daquele lugar de memória. E a história desse fato inquietante começava a circular pela cidade.

  1. Oralidade

“Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

(…)

Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…”

Qualquer que tenha sido a razão para o sepultamento de Filomena, no “meio do pasto”, certo é que ela passou por um calvário. Morrer de varíola, no final do século XIX, sem medicação para aliviar o sofrimento das dores, do mal-estar e da febre, era uma condição deplorável para o enfermo.

Não bastassem os inconvenientes da patologia tão contagiosa e mortal, as pústulas cheias de pus recobriam o corpo. Ter contato com um enfermo, pode-se supor, teria sido extremamente doloroso.

Olhar, atualmente, os documentos fotográficos (no final dos anos 70, foi registrado a última ocorrência, na Somália, África) pode despertar uma forte sensação de repulsa. 

O sepultamento de Filomena, portanto, considerando tratar-se de uma pessoa socialmente excluída, deve ter sido desprovido de qualquer preocupação religiosa.

Como desfecho final para aquela situação plena de indignação e piedade, o símbolo da mais reconhecível imagem do mundo cristão, a cruz, teria sido a pá de cal do derradeiro ato da tragédia epidêmica. Ali estava a última vítima e ela precisava de reconhecimento cristão. 

No convergir de circunstâncias incomuns, o devoto começou a criar, à sua maneira de entender o mundo, explicações que respondessem às suas inquietações pessoais ou às indagações de outras pessoas sobre o ocorrido. A narrativa oral começava a ser alinhavada. 

Filomena morreu para a epidemia acabar. Ela pedia água e as pessoas negavam. Ela morreu de sede, para a epidemia acabar. Foi uma ‘simpatia’.” 

As práticas populares, conhecidas por “simpatias”, teoricamente consideradas pecaminosas e passíveis de encaminhamento ao Tribunal de Inquisição em tempos coloniais, eram conhecidas, aplicadas e muitas vezes toleradas pelas autoridades eclesiásticas. Muitos padres foram acusados nesse Tribunal por terem encaminhado seus fregueses calunduzeiros, reconhecendo a melhor eficácia dos negros no alívio de certas doenças físicas ou emocionais. Ainda que menos visíveis nos tempos atuais, essas práticas religiosas ainda ocorrem, notadamente nas cidades interioranas. Conforme a pesquisadora Vanda Cunha Albieri Nery,  

“o ato da bênção é um ato de súplica, de imploração, de pedido insistente aos deuses para que eles se dispam dos seus mistérios e se tornem mais presentes, mais concretos, para que tragam boas novas, produzindo benefícios aos mortais. A bênção é um veículo que possibilita ao seu executor estabelecer relações de solidariedade e de aliança com os santos, de um lado, com os homens de outro e entre ambos, simultaneamente (Oliveira, 1985)”.

Na primeira versão, Filomena seria uma escrava, com o passar do tempo e questionamentos sobre o fim da escravatura no Brasil, em 1888, o termo “escrava” foi sumindo da narrativa sendo substituído por “Mártir”. Mártir Filomena.

No início do século XX, as conversas eram trocadas ao redor das mesas, nas horas das refeições e, de maneira assombrada, nas horas mortas, ao redor do fogão à lenha. Os cômodos eram iluminados por candeeiros à querosene ou pelas labaredas trêmulas do fogo, as quais   projetavam sombras desfiguradas nas paredes. Os mais velhos falavam, as crianças ouviam. E assim os casos eram interpretados, reinterpretados, contados e recontados, ressignificados:  e a história permanecia, no sertão mineiro do final do século XIX.  

Os fatos presenciados – e narrados nesse momento de conversa em família ou entre amigos – eram passados não apenas pelo que foi presenciado, mas também por aquilo que o narrador acredita que tenha ocorrido. E a fala se torna fato, para quem ouve. 

A procura por respostas ao sobrevir da morte acompanha a história da humanidade. Na busca por esse entendimento ocorre a 

“necessidade religiosa, capaz de harmonizar o irracional e o racional. [Esta] é uma das peças essenciais ao equilíbrio humano. Segundo Dupront, essa necessidade e a capacidade de narrar ou rememorar é que possibilitam o equilíbrio mental do homem ao universo em que vive”.

As teorias do sociólogo francês Maurice Halbwachs, sempre imprescindíveis quando se deve tratar das pesquisas sobre memória coletiva, como mecanismo de manter vivo o passado, joga luz sobre a presença da criança, nas ocorrências do narrar e do ouvir. No caso específico de Filomena, as várias pessoas entrevistadas foram crianças que ouviram as histórias contadas pelos pais e avós e que, já adultos, prestaram em depoimentos os episódios vividos no processo de santificação popular de Filomena.  Foram essas crianças que ouviram as histórias, como D. Joana, da primeira geração após 1891, ou Helena, da segunda geração, que passavam pelo local e ouviam os relatos do que teria acontecido à Filomena.

“Em sociedades rurais, é bastante comum que, durante o dia, quando o pai e a mãe estão ocupados nos campos ou nos mil trabalhos da casa, as crianças pequenas sejam confiadas à guarda dos ‘velhos’ e é destes, tanto e até mais do que dos pais, que estas recebem o legado de costumes e tradição de todo tipo.”

Em documentos do século XVIII, é comum encontrar a expressão “ouvi dizer que…”.  Essa maneira de se expressar linguisticamente era a forma de comunicação possível, em uma cidade interiorana. A rede de comunicação do período era o “boca a boca”, hoje conhecido por oralidade. 

Com o passar do tempo, portanto, a visão da cruz deixa de ser especulativa: aquele lugar de memória já era o testemunho de um fato trágico, ocorrido na cidade e que os caminheiros, com o recurso da oralidade, não deixaram esquecer: para acabar com a epidemia de bexiga preta, uma escrava fora enterrada viva, pedindo água, para acabar com a peste.

Muitos não percebem, contudo, que a história oral tem o grande mérito de permitir que os fenômenos subjetivos se tornem inteligíveis – isto é, que se reconheça, neles, um estatuto tão concreto e capaz de incidir sobre a realidade quanto qualquer outro fato.”

  1. Santificação popular 

Analisar como a morte de Filomena poderia ter sido compreendida por seus pósteros – e para essa reflexão é válido recorrer à Laura de Mello e Souza, para quem “num campo de estudo ainda pouco frequentado, não há como se furtar às hipóteses” – o sepultamento pode ser entendido, como já observado, por circunstâncias inabituais pungentes:

– tendo sido enterrada, possivelmente próximo ao local em que vivia – e essa circunstância foi confirmada no depoimento de Vicente Dias, cujo avô João Manuel teria conhecido Filomena e afirmava que ela era proprietária de uma pousada para tropeiros no mesmo local em que fora enterrada – e portanto, fora do campo santo, no “meio do pasto”, Filomena não recebera os procedimentos ritualísticos da liturgia católica, ficando, assim, excluída dos benefícios tão propalados nas pregações religiosas. 

– a cidade, como informou Afonseca Silva, estava sem o “condutor de defuntos”; os sepultamentos fora do cemitério, sagrado pela instituição católica e pelos costumes, pode indicar, também, uma condição social desfavorável, que a tornava invisível” aos moradores da cidade. Se ela morreu pela peste e nem no cemitério pôde ficar, ela foi marginalizada, firma Padre José Alves.

Sem o amparo religioso e o reconhecimento social, cabia à parcela da população considerada “popular” denunciar o ocorrido e restabelecer as circunstâncias da morte da última vítima da bexiga preta. Ela merecia receber os benefícios negados.

Como não imaginar os cristãos passando nos períodos envolvidos de pungência, como a quaresma, a sexta-feira da paixão, o dia dedicado aos mortos, ou apenas seguindo a rotina de ir à igreja para se confessar – que é o momento de sua reconciliação com Deus – ao passar por aquele pequeno pedaço da via dolorosa da cruz de Filomena e não se sentir tocado, envolvido, intrigado?

A trajetória da construção da narrativa em torno da morte de Filomena começou, portanto, lentamente, sem episódios bombásticos, sem manifestações sobrenaturais, que podem ocorrer nessas circunstâncias.  As aparições ou vozes do além – ainda que o local assim pudesse propiciar, no escuro da noite, nas vozes do vento, ou no estado emocional de cada transeunte – não fazem parte do conteúdo discursivo dos fiéis.

 Os peregrinos iniciaram o culto por força da atmosfera religiosa contida no homo religiosus, no dizer de Eliade, dos hábitos arraigados que os impeliam a procurar apoio espiritual para suas questões cotidianas. A existência do lugar sacralizado pela cruz representou um elemento facilitador dessa construção. As pessoas que passavam (ou iam ao túmulo de Filomena) ancoradas no símbolo tocante, amalgamavam suas vivências com a suposta tragédia da Mártir, consubstanciando sua santificação.

“Eu era bem criança, deveria ter uns oito anos quando tomei conhecimento que existia ela. Só tinha o túmulo lá (daí) alguém teve a ideia (passado os anos), porque demorou alguns anos ainda, alguém teve a ideia de fazer um ranchinho por cima, depois construiu uma capelazinha pequena, daí o pessoal foi apanhando fé, tomando conhecimento da história dela. Aí o pessoal foi ajudando a melhorar a capelinha ainda mais, aumentando devagarinho”.

Joana de Castro, nascida em 1935, também assimilou aquela presença simbólica ao seu cotidiano e testemunhou as alterações no espaço reservado ao túmulo: “Primeiro não tinha nada além da cruzinha, depois fizeram uma gradinha de ferro para proteger a cruz”.

No momento em que foi colocada a gradinha de ferro, delimitando o espaço do túmulo, teriam ocorrido os primeiros movimentos para a sacralização da morada final de Filomena. A comunidade que construía a história do ocorrido agora lançava as bases para a edificação do santuário no lugar em que a memória ficara resguardada.

O devoto Vicente Dias – já citado e cujo avô teria conhecido Filomena – afirma que um dia “pediu uma graça e alcançou”. Como retribuição, cimentou o túmulo já sacralizado no imaginário daqueles que a cultuavam. 

De forma compassada, o lugar que remetia os transeuntes à memória de um suposto suplício começava a sofrer interferências. 

A sacralização do espaço de Filomena conferia importância ao lugar: um reconhecimento “oficial” de sua existência, uma legitimação de sua interação com os caminheiros tanto é que, anos mais tarde, quando uma plantação envolveu a área em volta do túmulo, as pessoas desviavam seus caminhos e adentravam o cafezal para procurarem a cruz já emoldurada por uma grade. A relação estava estabelecida.

“Nós morávamos em uma roça aqui perto e o caminho era a estrada da Filomena. Então sempre víamos a cruz lá. Depois que eu mudei para cá [para o bairro Santa Rita] todo final de semana minha avó vinha da roça e nós íamos ao túmulo da Filomena”.

O depoimento constata que a família não apenas “passava” pelo local, como também “ia” ao túmulo, procurava-o entre os pés de café:

“A gente levava vela, água, flor (…) depois eu tenho a impressão que eles mudaram a cruz um pouquinho mais para cima e fizeram um contrapiso, em formato de um túmulo, depois cercaram a gradinha, depois cobriram. Isso o tempo foi passando. Tamparam com uma coberturazinha só com uma telha, colocaram quatro paus e tamparam com uma telha Brasilit, eu lembro disso. Aí começou aparecer muleta e estas coisas. Até então não tinha nada disso. Tinha era coroa de flor de plástico, prato de comida, garrafa de água, mas dava pra gente ver que eram poucas pessoas que frequentavam lá porque se fossem muitas haveria mais movimento, mais vestígio e isso não tinha.”

Um par de muletas foi, conforme Helena Amaral, o primeiro ex-voto colocado no túmulo e permaneceu dependurado por muito tempo em uma das madeiras que sustentavam a telha. Não é difícil dimensionar a força contundente desses objetos-testemunha que, associados à pequena cruz – passaram a representar no mais completo silêncio do lugar. A força de dois símbolos emblemáticos (o par de muletas e a cruz) diziam mais do que muitas palavras.  A Mártir, que teria morrido para salvar uma comunidade, restaurara a saúde de um crédulo. E o par de muletas estava lá para provar o episódio.

 “E nós”, continua a professora Helena

“Íamos todo mês levar um maço de vela. Antes a gente ia para levar água. Quando queria que chovesse: – Vamos levar água no túmulo da Filomena.  Ela morreu de sede, então vamos levar água (…) depois eles construíram a capela. Foi depois da construção da capela é que aumentou essa quantidade de pessoas que vão lá.”

A edificação da capela da Mártir Filomena – que ainda hoje é tratada carinhosamente por Filomena – substituiu os quatro paus cobertos por uma telha de amianto sobre a qual as pessoas se ajoelhavam, faziam oferendas e pediam a intercessão da Mártir. O sol ou a chuva, aos quais os devotos ficavam expostos, atrapalhavam, mas não impediam a romaria que se tornava rotineira.

Essa cena foi testemunhada por Pedro Batista de Camargo quando passava em frente ao túmulo: 

“Aí eu passando notei que o túmulo estava muito desleixado, esburacado, estava tudo caindo. E era de tijolo simples, e eu pensei em fazer alguma coisa. Resolvi fazer um túmulo pra ela.”

A atitude dos devotos em dar início ao processo de construção da capela da Mártir Filomena – que começa com a “gradinha” até chegar ao túmulo erguido por Pedro Batista – encontra respaldo nas palavras de Eliade, quando ele afirma que 

“para o homem religioso toda decisão existencial de se ‘situar’ no espaço constitui, de fato, uma decisão religiosa. Assumindo a responsabilidade de ‘criar’ o mundo que decidiu habitar, não somente cosmiza o Caos, mas também santifica seu pequeno Cosmos, tornando-se semelhante ao mundo dos deuses. A profunda nostalgia do homem religioso é habitar um ‘mundo divino’, ter uma casa semelhante à ‘casa dos deuses’ (…)” 

Vindo de outra cidade mineira para trabalhar no comércio araxaense, Camargo afirma que sua loja de confecção e tecidos estava lhe possibilitando obter “muito dinheiro, graças a Deus. E eu pensei que tinha condição de fazer alguma coisa. Então, sem falar nada com ninguém, fiz tudo” e acrescenta:

“Mandei preparar o túmulo, depois do túmulo, eu resolvi construir uma capela. Então fiz uma capela, porque aquela que está lá, hoje, mais da metade foi eu que fiz. Depois eu fiz o altar de mármore e, no túmulo as pessoas continuaram a rezar. Não havia chuva nem sol que impedisse. Então o povo começou a frequentar mais. Eu então terminei a capela e no altar eu coloquei uma pedra de mármore escrito: ESTA CAPELA FOI CONSTRUÍDA POR PEDRO BATISTA DE CAMARGO. Logo depois, muita gente começou a participar de lá, a construção aumentou, aí eles quiseram ampliar. Parece que a Prefeitura fez alguma coisa lá, e o povo também. E as pessoas que foram para lá pintaram em cima do nome que eu tinha escrito, tampando o meu nome.” 

Um fato, no entanto, pode ter contribuído para acionar a engrenagem que começava a ser criada no alto da colina e que pode ter imprimido uma significação considerável no processo narrativo e entendimento da santidade da Mártir Filomena. No ano de 1924,

“o engenheiro agrônomo e professor Hildebrando Araújo Pontes transferiu sua residência para Araxá.Com ele vieram sua esposa Salvina Barra Pontos e suas três filhas normalistas e aqui fundaram o Colégio Santa Filomena. Situado à Praça Coronel Adolfo, mantinha o ensino primário, fundamental e secundário. Oferecia, ainda, cursos especiais de datilografia, pintura, pirogravura, piano, bordados à mão e à máquina.” 

Até que ponto teria ocorrido uma vinculação entre o Colégio Santa Filomena, situado na praça principal da cidade e que oferecia cursos especiais e aquela mulher morta pela epidemia de varíola, cuja memória perenizava-se no símbolo de uma cruz, no alto de uma colina?

O oferecimento desses cursos, no início do século XX, como datilografia, pirogravura e piano, por exemplo, conferia importância ao estabelecimento. Ainda que a maior parte da coletividade araxaense não tivesse acesso ao interior daquela instituição, a publicização do nome Santa Filomena –   essa canonicamente reconhecida pela Santa Sé –   alcançava toda a população. 

Essas circunstâncias poderiam ter induzido as pessoas moradoras na área rural ou nas cercanias excluídas dos bairros próximos ao túmulo da Filomena de Araxá a trazer o nome de sua mártir à memória. Acresce ainda o fato de que a Santa Filomena que nominava a instituição de ensino de Araxá fora uma jovem cristã nascida na Grécia, presa, torturada e supliciada pelo exército pagão romano e cuja veneração começara em meados do século XIX. 

Além de toda as circunstâncias que envolviam a morte e o sepulcro de Filomena, a entronização na cidade de uma instituição de ensino ostentando o nome santificado oficialmente e homônimo poderia ter alimentado as narrativas que envolviam a Mártir araxaense.

Construída lentamente, a Capela da Mártir Filomena ampliava seu espaço na mesma proporção em que santificava Filomena e abrigava os fiéis que buscavam apoio espiritual sem dispensar, nessa devoção, a proteção do santo padroeiro da cidade, São Domingos de Gusmão. A “religião do povo” permite uma convivência ambivalente e pacífica, conforme Eurico Gonçalves, 

“Tem domingo que vem mais gente aqui do que na Igreja Matriz de São Domingos. Tem domingo que isto aqui fica lobadinho (lotado, cheio) (*) caravanas que vêm de fora… toda caravana vem aqui.  Filomena é espirito de luz. Aqui é lugar de tradição (…) O Padre Zé Alves ainda vem aqui, almoça aqui, reza a missa. Ele é muito bom. O que tem que ser é com ele. A Capela pertence à Paróquia dele. O Bispo da Diocese de Uberaba já veio aqui. Já tem muito tempo. Deve ter uns quatro ou cinco anos, mais ou menos. Ele teve aqui, visitou… porque eles não acreditam. Eu dou razão a eles porque cada um acredita naquilo que é a fé deles.”

Na forma resignada demonstrada por Eurico Gonçalves, na citação acima, permite uma leitura: a religiosidade popular praticada – a exemplo da devoção de Filomena e da infinidade de outras tantas sacralizações populares nos países católicos – se organiza sem confrontos com a oficialidade religiosa e sem a pretensão de ocupar espaços de “outros santos” católicos. Quando perguntado a quem se apegaria, em caso de uma súplica, o devoto João Borges afirma que pediria a São Domingos e à Filomena. Já a devota Joana é enfática: “eu pediria à Filomena. Ela está mais perto”. E esclarece a forma simples, descomplicada e direta, com que dirige suas súplicas à Filomena: “a gente entra, faz uma oração, agradece um pedido atendido e pede outro. Ela pode não ser santa, mas um poder ela deve ter”, diz respaldando o pensamento do historiador João José Reis, para quem é “conhecida a relação de barganha, de troca simbólica, embutida na prática da ‘promessa a santo’, que Laura de Mello chamou ‘economia religiosa do toma-lá-dá-cá’.

7. Santificação canônica

Para a Igreja Católica Apostólica Romana canonizar uma pessoa significa elevar o nome indicado aos seus cânones, ou seja, o postulante passa a ser considerado santificado e, assim, pode ser intercessor dos devotos nas esferas celestes, atendendo aos seus pedidos e clamores, com direito a culto universal.

Conforme o site Minha Biblioteca Católica, em seu artigo “Como uma pessoa se torna Santa – 3 etapas”, 

“A partir do pontificado de São João Paulo II foi decretada uma nova constituição apostólica, chamada Divinus Perfectionis Magister (O Divino Mestre da Perfeição). Essa constituição diz respeito às regras que devem ser seguidas nesses processos. E, com ela, uma das primeiras mudanças foi a participação ativa do bispo local de cada candidato à canonização, junto à Santa Sé. Sua tarefa é investigar detalhadamente a vida do fiel em questão e conhecer sua fama de santidade. No momento em que o processo é aberto, o candidato já e considerado Servo de Deus.”

O processo investigativo é demorado e dispendioso, com a participação de muitos profissionais (postuladores de causa, testemunhas, consultores, teólogos, estudiosos, médicos, cardeais e bispos) para que sejam reconhecidas: as virtudes ou os martírios sofridos pelo candidato; o primeiro milagre e a comprovação do segundo milagre. 

A cada fase de vencida, o candidato recebe os títulos correspondentes: Venerável, Beato, e, finalmente, Santo.

Conforme o site Vatican News, ao comentar sobre a Congregação para as Causas dos Santos, ou a “fábrica dos Santos”, como se refere o site, além de citar a investigação sobre o martírio ou virtudes heroicas (e aqui não temos como não lembrar das referências dos crédulos de Filomena), o site se refere, também, “à oferta da vida e milagres de um fiel católico que em vida, na morte e após a morte gozou de reputação de santidade ou de martírio, ou de oferta de vida. É chamado Servo de Deus”.

Muitas são as determinações que a Instituição católica tenta impor para impedir a proliferação de santificações populares, mas a tarefa continua inglória. 

As santificações populares seguem vívidas, trilhando caminho paralelo às canonizações oficiais e, se não reconhecidas pela instituição religiosa, germinam de forma vigorosa, especialmente em países com sólida formação católica, como o Brasil. 

Nesse sentido entende-se que a proliferação de postuladores ao cânon católico fora do âmbito oficial, reconhecidos como mártires, configura-se em delicada situação para a Sé Católica.  Por um lado, essas manifestações espontâneas animam a vida espiritual da Igreja, porém, perder o controle sobre esses processos de santificação popular colocaria em perigo a defesa e manutenção dos dogmas (que são verdades reveladas nas quais não cabem discussões) esteios sobre os quais a Igreja Católica se sustenta.

Ocorre que vivendo em um período no qual a secularização da sociedade brame os sinos da preocupação e que o surgimento ou fortalecimento de derivações das religiões cristãs causam inquietação na vetusta instituição, a vox Populi não deixa de ser um canal de atração para as hostes da fé católica.  

A Santa Madre Igreja, como os anais do Concílio Vaticano II bem registra, tem lançado um olhar bem mais condescendente com essas manifestações populares.   O fenômeno de Juazeiro, no Ceará, é um sinalizador de como esta questão pode estar sendo tratada dentro dos protegidos muros do Vaticano.

A partir de um suposto milagre, ocorrido em 1889, três anos antes da morte de Filomena, teve início uma peregrinação que atualmente envolve dois milhões e meio de romeiros que se dirigem a Juazeiro do Norte, no Ceará. O início do processo de canonização de “Padim Ciço” pelas forças populares de seus devotos ficou envolto em disputas ásperas, quando, afirma o historiador Ralph Della Cava

“Roma o destituiu das funções sacerdotais. As elites brasileiras não lhe deram melhor tratamento, ora o protegendo, ora o usando, quase sempre para seus próprios fins políticos. Pelo resto da vida do padre Cícero – e muito depois de sua morte, em 1934, aos 90 anos de idade -, ele (e sua memória) suportaria a ira da Igreja, os ardis do Estado, a calúnia dos detratores”.

Mas havia um contraponto nessa história. Se em um dos pratos da balança do bem e do mal estava toda a carga contra Padre Cícero (a Igreja, o Estado e os detratores), do outro lado do pêndulo estava a massa popular que pedia o reconhecimento de sua santidade. 

Finaliza Della Cava, que “o inabalável incensamento e a gratidão das pessoas comuns por todo o Nordeste brasileiro” alterariam o equilíbrio dessa balança, tornando possível a vitória para mais essa batalha de Padim Ciço. 

As novas possibilidades surgidas no campo de pesquisa da História Social e da Micro-história, amparadas pela amplitude de visualização proporcionada pela interdisciplinaridade, têm destacado a força das culturas populares no processo de construção da história de um lugar. E esse novo olhar já é perceptível em Roma. 

Quando o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então Cardeal Joseph Ratzinger,  falecido Papa Bento XVI, “pediu um novo estudo sobre o padre Cícero Romão Batista”, um século depois do apelo de seus fiéis, ficou corroborado o pensamento do Monsenhor da Paróquia de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro, Murilo de Sá Barreto, referindo-se à Igreja: “Somos nós que devemos mudar, somos nós que devemos nos converter”. Sem dúvidas é um grande round vencido pelos crédulos.

Ainda conforme Della Cava, a reavaliação do processo canônico está

“Ora em progresso e recaiu sobre dom Fernando Panico. Instalado em junho de 2001 como Bispo de Crato, em cuja jurisdição se encontra Juazeiro, no Ceará, o prelado não perdeu tempo. Rapidamente nomeou uma comissão de especialistas formada por teólogos e cientistas sociais e emitiu duas cartas pastorais convocando uma ‘reconciliação histórica” da própria Igreja com o Padre Cícero e a multidão de seus devotos mais pobres.”

É a força da construção imaginária, da difusão da oralidade, do compromisso com a doutrina impregnada no cotidiano daqueles que praticam a religiosidade popular que se impõe, imperativa. 

Conclusão

Ouvir algum araxaense dizer: Vou na Filomena; preciso ir na Filomena ou fui na Filomena, não necessita maiores explicações. Ela é, também, referência espacial: Moro perto da Filomena; na Estrada da Filomena, ou no Caminho da Filomena, dispensa qualquer GPS. Desde o início do século XX, e com mais força a partir de meados daquele século, essa figura sofrida faz parte da história da cidade e, por suposto, de seus moradores. Filomena é familiar aos araxaenses. Foram eles os responsáveis pela entronização da Mártir na hagiografia local. Essa “gente simples”, como informa a devota Luciana, em seu depoimento: “Sempre foi gente simples que frequentou a Capela da Filomena”. Se você faz um pedido e ela não atende, é porque você não merecia aquela graça”, afirma d. Joana.

A sala de ex-votos da Capela testemunha os pedidos atendidos, o socorro que salva. E a fé na Mártir avança. 

Os crédulos que desenvolveram a trajetória que confluiu na santificação popular de Filomena com a certeza de seus poderes intercessores não se basearam em fatos aleatórios ao seu cotidiano ou à sua fé: eles tiveram como fundamentação, como alicerce seguro, os princípios pregados pela Igreja Católica, a qual, no início do século XX, era absoluta para responder todas as questões que envolviam o nascer, o viver e o morrer.  

A oralidade foi o recurso que elaborou e fez circular a explicação do fenômeno da cruz órfica. Transmitido de geração em geração, de forma agregadora, lenta e compassada a sacralização popular avançou por décadas, apesar da aparente desconfiança da chamada “elite” da cidade e da distância segura da instituição religiosa, como atestam os depoimentos. Não havia, além da cruz, suporte visual para os relatos que criavam a forte narrativa: apenas a capacidade dos crédulos em representar suas próprias imagens do acontecido.  

As palavras, a capacidade de criar imagens do espectro   da epidemia e da cruz na beira do caminho deram início e sustentaram a narrativa que ainda prossegue, afinal, os crédulos, juntos, foram capazes de transformar uma realidade: não era mais uma cruz, perdida no meio do pasto. 

Mas os tempos são outros. Desde meados do século XX, enquanto a narrativa de Filomena avançava, já era dado início da Era da Tecnologia, da Comunicação, da Informação. A Era dos dados, a era digital. 

E nesse avanço voraz da tecnologia, cada passo alcançado impulsiona outros tantos a serem conquistados. O historiador Yuval Harari pede que alguém pise nos freios e alerta para o colapso da sociedade, enquanto afirma que os humanos procuram, através da tecnologia, chegar à condição de imortais e de deuses. E para esse novo mundo uma nova religião já existe: a tecnorreligião:

“Uma tecnorreligião mais ousada está buscando cortar definitivamente o cordão umbilical humanista. Ela vislumbra um mundo que não gira em torno de desejos e experiências de quaisquer seres humanoides. O que poderia substituir desejos e experiências como fonte de toda autoridade e de todo significado? (…) A religião mais interessante que emerge disso tudo é o dataísmo* que nem venera deuses nem o homem – venera os dados”.

O número de adeptos dessa nova religião (dataísmo) tende a aumentar. E é nesse novo mundo tecnológico que os debates envolvendo a noção de sagrado, como foi difundida por dois milênios, surgem com intensidade. Intrigantes questões florescem:  Onde ficarão as práticas religiosas, os sentimentos de piedade, a esperança em viver bem para um post mortem em paz? O que será considerado sagrado? Como serão manifestadas as diversas práticas religiosas se a tendência do mundo é cada vez mais virtual? 

O dataísmo já tem seu mártir. A instituição religiosa e hegemônica no início do século XX, que tinha respostas para todas as questões tem, agora, um adversário de peso: a tão sonhada enciclopédia que a tudo responderia, está ao alcance de um toque de dedo, graças ao vertiginoso avanço tecnológico. Nos séculos VI-VII da era cristã, Santo Isidoro de Sevilha acreditou ter organizado e sistematizado todo o conhecimento da época, em vinte volumes.

Os tempos atuais exigem que os portões do Vaticano sejam abertos para que as novas (e muitas nem tão novas assim) e desafiadoras questões sejam analisadas com o intuito de possibilitar a coexistência pacífica de posições tão antípodas.

Se o Concílio Vaticano II (1962 – 1965) permitiu que os Bispos assumissem o controle e aprofundamento sobre fenômenos religiosos, especialmente para as questões relativas às sacralizações, não caberia, por consequência, a esses sucessores dos Apóstolos, avançar esse controle sobre o poder inconteste da religiosidade popular como suporte à nova configuração que os tempos atuais impõem ao Vaticano?

Assim, a exemplo das petições que circulam entre Juazeiro e Roma e do espaço encontrado na disciplina História Cultural que permite olhar com lupa essas manifestações, a força da religiosidade popular avança, como visto com a Mártir Filomena de Araxá. 

Seus devotos se converteram em uma grande procissão, com força imperiosa de retroalimentação. De início tíbio, adquiriu consistência no transcorrer do tempo, com o agregar de novos adeptos, crédulos na narrativa que criavam, num processo crescente e multiplicador de livre flutuação. Aqueles que não se rendem aos poderes miraculosos da Mártir, que a reconheçam como resultado da profunda fé da população araxaense. 

Essa procissão de fé que avança, iluminada e incensada pela religiosidade popular e que ignorou a marginalidade implicada no não-reconhecimento oficial, pode ser traduzida nas palavras de Monsenhor Murilo de Sá Barreto quando, referindo-se ao fenômeno de Juazeiro, afirmou que as romarias “se farão com a gente, sem a gente, ou contra a gente.”


FARRELL, Jeanette. Op. Cit. P. 30.

UJVARI, Stefan Cunha. A História e suas epidemias – A convivência do homem com os microrganismos. 2ª. Ed. – Rio de Janeiro: Editora Senac Rio: Editora Senac São Paulo, 2003. p. 21.
UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias – A convivência do homem com os microrganismos. 2. Ed. – Rio de Janeiro: Editora Senac Rio: Editora Senac São Paulo, 2003. p. 21
A varíola é “descrita hoje como uma infecção viral que tem como agente causal um Orthopoxvirus variolae, que se manifesta clinicamente por erupções de vesículas generalizadas (…) O período de incubação é de 10 a 14 dias, com as erupções surgindo após febre elevada, acompanhada de indisposição, cefaleia intensa, dor nas costas, vômitos e exantema três a quatro dias depois dos primeiros sintomas, podendo culminar com o falecimento do enfermo ao fim da primeira ou segunda semana.” In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo. CARVALHO, Diana Maul (org.) Op. Cit. p. 211.
A partir da década de 1970, a manifestação variólica foi mundialmente erradicada, o que dispensa a vacinação.
McNeill, William. Plagues and peoples. In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do & CARVALHO, Diana Maul de (org.), p. 16
Em 1527, uma epidemia é documentada no México. Os registros históricos e as crônicas literárias atestam que a varíola foi um poderoso aliado que os espanhóis contaram para dizimar populações nativas na América. In. SILVEIRA, Anny Jackeline Torres da. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. A doença revelando a história. In. NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. CARVALHO, Diana Maul de. (Orgs) op. cit. p. 17.
FARREL, Jeanette. op. cit., p. 55
Vírus: seres acelulares, microscópicos e que não possuem metabolismo próprio. No caso específico do vírus variólico (Orthopoxvirus variolae), a imutabilidade facilitou o processo da descoberta da vacina, no século XVIII.
O TREM DA HISTÓRIA. Ano 4, n.16. jan/fev/mar. 1995. Publicação da Fundação Cultural Calmon Barreto. Araxá no Século XIX. A Saúde. p. 7.
Em que pese o avanço e a competência da produção de conhecimento científico e os resultados comprovadamente benéficos desses procedimentos, no século XXI, é inconteste que parte da população mundial ainda cultive o medo da inoculação. Nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, afirmavam que a vacinação desencadeava outras patologias. E essas narrativas ainda hoje são ouvidas.

Quando, em 2002, o Professor Marcos Spagnuolo Souza coordenou um projeto para digitar as Atas da Câmara de Paracatu – Sessões Ordinárias e Extraordinárias – 1857 – 1892, ele estava iluminando a pesquisa não apenas para a sua cidade, mas para todo o país, e em especial, para o Município de Araxá, cuja Comarca era limítrofe à Comarca de Paracatu do Príncipe.
Os atuais Estados brasileiros eram chamados de Províncias, até 1889, quando foi proclamada a República no Brasil.
https://oswaldocruz.fiocruz.br/index.php/biografia/trajetoria-cientifica/na-diretoria-geral-de-saude-publica/luta-contra-a-variola. Acesso em 25/02/2025
SOUZA, Marcos Spagnuolo. Op. cit. p. 9
O TREM DA HISTÓRIA, ano 5, n. 17. abr/mai/jun/1995. A Saúde, p. 4.
SILVA, Sebastião de Afonseca. História de Araxá. 1914. Manuscrito. Acervo Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB). Afonseca e Silva, pai do Arcebispo D. José Gaspar de Afonseca e Silva, teve o zelo de registrar fatos considerados importantes que ocorreram no Município. Esses registros são imprescindíveis como um retrato de acontecimentos que, caso não tivessem sido anotados por ele, muito dificultaria diversos ramos da pesquisa nessa cidade.
Município limítrofe a Araxá, distante 94 km. Transcrição do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento, de 03 de maio de 1886 a 1º de maio de 1892 (Acervo do Arquivo Público de Sacramento). Agradeço a Adriana Gobbo Borges a pesquisa e a transcrição do documento.
Transcrição do Livro de Atas da Câmara Municipal de Sacramento de 03 de maio de 1886 a 1 de maio de 1892. Acervo do Arquivo Público Municipal de Sacramento (MG).
UJVARI, op. cit. p. 62
SILVA, Sebastião Afonseca e. op. cit.
CÔRTES, Joaquim Antônio (Nhô Quim). Depoimento. Araxá, 21/08/2005. Gravado e digitado.
A intenção primeira era historicizar a denominação da “Mártir” utilizando a grafia descrita por Sebastião de Afonseca e Silva, em seus manuscritos de 1914, ou seja, Philomena de Tal. Mas em respeito à forma como seus devotos a reconhecem, optou-se por registrar a escrita com “F”. A citada Monografia de Afonseca e Silva encontra-se arquivada na FCCB.
SILVA, Sebastião de Afonseca e. op. cit.
CORREIO DE ARAXÁ, Araxá, n. 111. 30/05/1915. A peste, pp. 3-4.
CORREIO DE ARAXÁ. n. 111. 30 de maio de 1915. A peste. pp. 3-4.
FELIX, Eliude Fernandes Silva. A importância da religião em contextos de sofrimento. Brasília. UniCEUB. Monografia apresentada como requisito para conclusão do curso de Psicologia. Disponível em repositório.uniceub.br em 22/03/2025.
CASTRO, Joana d’Arc de. Depoimento. Araxá, 19/10/2004. Gravado e digitado. Apesar das lembranças de D. Joana em dizer que o período poderia ser invernal, os apontamentos de Afonseca e Silva nos informa dezembro ou janeiro, o que nos indica verão.

Agradecemos as informações do Dr. George Sanguinetti, médico legista alagoano, para entendimento das questões ligadas à catalepsia, notadamente nas questões epidêmicas.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Cultura das ruas. Campinas: Papirus, 1989, p. 23.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editora, 1993. p. 4.
Vale lembrar que o gado vacum e cavalar eram fontes de alimento e de transporte, naquele período.
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1975. p.131.
Sobre esse assunto ver: LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. O diamante líquido: história, memória e turismo na cidade balneária de Araxá. Uberlândia: Edufu, 2015.
LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. Das águas passadas à terra do sol. Araxá: Bunge Fertilizantes, 2003, p. 26,
Texto escrito em uma gravura escolar de um povoado francês. In. BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento. De Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro. Zahar. 2003. P.141
ECLESIÁSTICO, cap, 38, vers. 16 e seguintes. In: BIBLIA SAGRADA. São Paulo: Stampley Publicações Ltda. 1974 Agradeço a indicação da leitura ao padre José Alves Caetano, da Paróquia Santo Antônio, Araxá (MG).
Notadamente, a partir do século IV, do Imperador Romano Constantino. Enquanto o Império Romano perdia seu brilho e poder, a instituição religiosa expandia seus domínios nos rastros do antigo império e além. No século V ela o suplanta, definitivamente.
GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. 8ª. Ed. Collegio da Immaculada Conceição) Botafogo. Rio de Janeiro 1912.
GOFFINÉ, op. cit. p. vii
DELUMEAU, Jean. O homem diante da Morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1999. Apud NASCIMENTO, Dilene. Op. cit. p. 27. Jean Léon Marie Delumeau foi um historiador francês especializado em estudos sobre a história do Cristianismo e autor de vários trabalhos relacionados com esse assunto.

Cartas aos Hebreus, 11,1, atribuída ao Apóstolo Paulo.
LIBÂNIO, J.B. Fé. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. p. 12.
NOVO DICIONÁRIO AURÉLIO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Editora Nova Fronteira, 1986. p. 743. Verbete: experiência.
FELIX, p. 27
“A diferença entre ciência e fé é a seguinte: em ciência, a gente tem que ver para crer. Você observa a natureza, você observa o mundo, obtém dados sobre como o mundo funciona, analisa esses dados e entende. Pela fé, você crê para ver. A crença vem antes da visão. Você acredita naquilo, nem precisa ver nada, acredita naquilo e esse, essencialmente, é o cerne da fé, que é uma outra maneira de se relacionar com a realidade, muito diferente da ciência”, https://www.fronteiras.com/leia/exibir/21-ideias-marcelo-gleiser-e-a-complementaridade-entre-religiao-e-ciencia. Disponível em 19/02/2025.
https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe

https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe, disponível em 19/02/2025.
ASLAN, Reza. Deus, uma história humana. Rio de Janeiro; Zahar, 2018, p. 40.
“A tese de que a religiosidade acompanha o ser humano em sua evolução ganhou força ruidosa um pouco mais para a frente, quando o biólogo americano Dean Hamer, coordenador do setor de genética do Nation”, conforme site: https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe, disponível em 10/02/2025
João 11, 25-26.
D. Joana de Castro
ALVES, Castro. A cruz na estrada. Domínio Público. Castro Alves nasceu em 1847 e morreu em 1871).
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da inconfidência. 5. Ed. São Paulo: Civilização Brasileira, 1981. p. 136
SOUZA, Laura de Mello e. História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América português. São Paulo: Cia das Letras. Vol I, 1997. p. 193
OLIVEIRA, Elda Rizzo. O que é benzeção. 2a ed. São Paulo, Brasiliense, 1985 in NERI, Vanda Cunha Albieri. Rezas, Crenças, Simpatias e Benzeções: costumes e tradições do ritual de cura pela fé. Trabalho apresentado ao NP Folkcomunicação do VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom.
CORREIA, Iara Toscano. Caso João Relojoeiro: um santo no imaginário popular. Uberlândia: EDUFU, 2004. P. 240.

O texto é de Marc Bloc. Mémoire collective, traditions et coutumes, citado na Revue de synthèse historique, 1925, n.118-120, p. 79, in HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Centauro,2006. p.84.
Vale a ressalva de que a escravidão foi extinta por decreto em 1888, sendo que a permanência dessa prática permanecerá por décadas.
Alberti, Verena. Ouvir Contar – Textos em História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 9.
SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização séculos XVI – XVII. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 40.
ELIADE, Mircea. Op. cit. p. 17
OLIVEIRA, João Bosco de. Depoimentos. Araxá, 17/02/2005. Gravado e digitado. João Borges é um dos fundadores da Associação dos Administradores da Capela Mártir Filomena.

SOUZA, Helena Amaral. Depoimentos. Datado de 19/10/2005. Gravado e digitado.
CAMARGO, Pedro Batista. Depoimento. Araxá, 20/10/2005. Gravado e digitado.
ELIADE, op. cit. p. 61
Conforme Camargo, o Sr. Anastácio “um espírita que morava perto do Cristo [escultura próxima à Capela da Mártir Filomena foi quem o ajudou a construir o túmulo e a capela.
Possivelmente o nome do colégio referia-se à Santa Filomena de Mugnano del Cardinale (Itália). O Papa Gregório XVI (1831-1846) “tendo recebido o parecer favorável da Sagrada Congregação dos Ritos à canonização de Santa Filomena, elevou-a à honra dos altares, instituindo ofício próprio para o culto e a festa, proclamando-a Grande Taumaturga do Século XIX, Padroeira do Rosário Vivo e Padroeira dos Filhos de Maria”. Disponível em www.rosariopermnente.leiame.ne.Acesso em 14/10/2005.
Agradeço a informação sobre o Colégio Santa Filomena ao professor Luciano Marcos Cury.
Filomena significa ‘filha da luz divina’, conforme o site https://cruzterrasanta.com.br/santa-filomena/81/102/#google_vignette, acesso em 04/04/2025

BORGES, Eurico Gonçalves. Depoimento. Araxá, 16/01/2005. Gravado e digitado.
REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Cia das Letras, 1991. p. 59
https://bibliotecacatolica.com.br/blog/santidade/como-uma-pessoa-se-torna-santa/
https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-05/congregacao-causas-dos-santos-cardeal-semeraro-entrevista.html, disponível em 30/03/2025.

CAVA, Ralph Della. “Enfim, o lava-pés de Padim Ciço?” JORNAL ‘O ESTADO DE SÃO PAULO’, 1° de maio de 2005, p. J4. Della Cava é pesquisador sênior adjunto do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia de Nova York e professor emérito de História no Queens College, Cidade Universitária de Nova York. É, também, autor do livro “Milagre em Joaseiro (1970).
O Cardeal Joseph Ratzinger foi entronizado como Papa Bento XVI em 24/04/2005. Em 28/02/2013 renunciou ao cargo.
Programa veiculado pela Rede Minas, no dia 16/10/2005, sobre o Padre Cícero Romão Batista.
Ibidem
FERNANDES, Luciana Maria. Depoimento. Araxá, 06/08/2005. No período do depoimento Luciana Maria era Coordenadora de Centro de Referência da Cultura Negra de Araxá (CRCNA).
HARARI, Yuval. Homo Deus: uma breve história do amanhã. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 57.
Idem, p. 59.
Idem, p. 369.
(*) Grifo nosso
“Em 11 de janeiro de 2013, o dataísmo conheceu seu primeiro mártir, quando Aaron Swartz, um hacker americano de 26 anos, cometeu suicídio em seu apartamento (…) ele também acreditava firmemente na liberdade de informação (…) Ele acreditava firmemente na liberdade de informação”. Harari, op. cit. p. 385/386.
Santo Isidoro de Sevilha foi considerado patrono da Internet pelo para João Paulo II pelo seu vasto conhecimento. Está suspenso, no Vaticano, devido a morte do Papa Francisco, a canonização do jovem ítalo-inglês (15 anos) Carlo Acutis, beatificado em 2020. Apelidado de “influencer da santidade” ela utilizava as redes sociais para divulgar a causa cristã. E também está sendo considerado como patrono da Internet.
CAVA, Ralph Della. Op. cit. p. J3


Descubra mais sobre Fé, Devoção e Religiosidade

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *