Dom José Gaspar: a voz de um pastor atento às transformações de seu tempo

“Ut omnes unum sint”

Prólogo

Vocacionado desde cedo para o sacerdócio, o araxaense José Gaspar de Affonseca e Silva seguiu, com firmeza e devoção, o chamado que orientaria toda a sua vida.

Em sua breve, porém intensa trajetória enfrentou um período marcado por profundas tensões históricas:  duas guerras mundiais, a Era Vargas e a instalação de um regime ditatorial; liderou a realização do IV Congresso Eucarístico e dedicou-se aos projetos de início da construção de uma nova igreja – atual Santuário Nacional – destinada a acolher o crescente fluxo de fiéis devotos de Nossa Senhora Aparecida, proclamada Padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI, em 1930. 

Simultaneamente, testemunhou o declínio do número de sacerdotes no clero brasileiro bem como as transformações sociais que desafiavam os fundamentos dogmáticos da Igreja Católica Apostólica Romana. Nesse contexto, exerceu com notável habilidade diplomática a capacidade de administrar múltiplas tarefas e conduzir projetos de grande relevância pastoral e institucional.

Ao mesmo tempo, no pseudo-silêncio dos bastidores, defendia sua amada Igreja contra vozes dissonantes e conservadoras que, possivelmente inspiradas ou estimuladas pelo regime autoritário instaurado no Brasil, contestavam as posições democráticas, dialogais e pastorais do jovem Prelado araxaense.

Trata-se, portanto, de uma trajetória humana e espiritual comovente e exemplar.

Introdução:  Um sacerdote atento ao seu tempo

A exortação escolhida por Dom José Gaspar de Affonseca e Silva ao ser designado para a função de Arcebispo Metropolitano de São Paulo – “Ut omnes unum sint” (Para que todos sejam um), em 1939 – sintetiza a transcendência que norteou seu ministério: a busca pela unidade e fidelidade aos ensinamentos cristãos em um mundo em rápida transformação.

Refletir sobre essa exortação já evidencia os propósitos religiosos de Dom José Gaspar quanto à compreensão de que a união entre as pessoas constituía força capaz de libertar, encorajar e transformar.

Para compreender em profundidade sua breve, porém intensa, atuação na esfera eclesial e secular, buscou-se situá-lo no contexto histórico marcado por transformações sociais, políticas, econômicas e culturais. Tratava-se de um período marcado por crises filosóficas e existenciais que abalaram os valores e as verdades defendidos pela Igreja Católica – dogmas, crenças e princípios de fé que, até então, sustentavam o pensamento ocidental.

No plano macro dos desafios que enfrentou na cúpula eclesiástica da mais importante cidade do país, destacam-se: guerras mundiais e um tenso período político e econômico entre elas; no Brasil um golpe militar depôs o presidente eleito Washington Luiz, conduzindo o gaúcho Getúlio Vargas ao poder e culminando na instalação do Estado Novo (1937-1945).

Para transitar entre as condições adversas do sagrado e do profano, Dom José Gaspar guiou-se por um eixo fundamental que norteou toda a sua vida: a liturgia cristã. Convém esclarecer que o termo “liturgia”, aqui empregado, retoma o sentido dos tempos patrísticos e apostólicos – leitourgia, trabalho realizado em favor do povo”, ou seja, aquilo que é feito para o bem comum – e não apenas um conjunto de ritos, práticas ou objetos cultuais, como se consolidou posteriormente.[1]

A Igreja Católica Apostólica Roma, no final do século XIX

De acordo com o primeiro censo republicano[2], cerca de 98,93% da população declarava-se católica, índice que poderia sugerir solidez da cristandade no Brasil. No entanto, tal cenário numérico não eliminava os graves desafios enfrentados pela Igreja Católica no início do século XX. Ideias liberais, difundidas desde a Revolução Francesa, questionavam seus preceitos e contribuíam para processos de secularização e laicização dos Estados, minando a autoridade histórica da instituição religiosa.

Na pauta dos problemas enfrentados pela Sé Católica, um dano irreparável ocorreu em 1871 com a oficialização da perda das “Cidades Pontifícias”, na parte central da Itália, como desdobramento da unificação política italiana, a partir de 1860.

O conflito se estendeu por décadas:  a Igreja resistia à perda de seu poder temporal, o qual se manifestava, também, no domínio sobre importantes regiões centrais italianas. Mantidas sob controle papal desde o século VIII, as cidades sob jurisdição eclesiástica passariam ao controle estatal.

Inconformado com o novo ordenamento político, o Papa Pio IX (1846-1878) declarou-se “prisioneiro” no Palácio Apostólico, dentro da antiga Cidade Leonina, recusando-se a reconhecer a autoridade italiana. Excomungou o Rei da Itália, Vitor Emanuel II, principal articulador do processo de unificação (Risorgimento) e permaneceu em reclusão até sua morte, em 1878.

No Brasil, na transição do século XIX para o XX – período em que nasce José Gaspar de Affonseca e Silva – a instituição religiosa se deparou com obstáculos que abalaram suas estruturas dogmáticas e sua influência sobre a sociedade. Entre eles, destaca-se o rompimento do sistema conhecido por Padroado[3] que por séculos subordinara a Igreja ao Estado português e, depois, ao Império brasileiro. O conflito culminou na Questão Religiosa[4] (a partir de 1870), e revelou tensões profundas entre o poder civil e a autoridade eclesiástica.

Em 15 de novembro de 1889 ocorreu o golpe militar que proclamou a República Brasileira. A articulação do novo regime, conduzida por militares e republicanos civis, fundamentava-se nos ideais positivistas do filósofo francês Auguste Comte, sustentados pelo prestígio crescente do método científico, então em plena ascensão no cenário intelectual da época: “Ordem e Progresso” eram palavras de ordem desses novos ideais. Com a separação constitucional entre o Estado e Igreja, a instituição conquistou autonomia administrativa e espiritual, mas perdeu os subsídios estatais que por séculos garantiram sua sustentação material. 

Não eram poucas, portanto, as transformações que agitavam o mundo ocidental e que atingiam diretamente a instituição religiosa. O questionamento da autoridade papal, a contestação aos dogmas católicos e a leitura crítica dos textos bíblicos — impulsionados, entre outros fatores, pelas teorias darwinianas expostas em A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin — abalavam as bases do pensamento cristão tradicional.

A Igreja Católica, que por quase dois milênios exercera com autoridade indiscutida a formação moral e espiritual dos fiéis, passou a ser desafiada por diferentes correntes intelectuais.  

José Gaspar de Affonseca e Silva

Nos alvores do século XX, no dia 06 de janeiro de 1901, Dia dos Reis Magos, nascia José Gaspar de Affonseca[5] e Silva, filho de Prosolina Porfírio Affonseca e Sebastião de Affonseca e Silva, na cidade mineira de Araxá.

Sebastião de Afonseca e Silva e Prosolina Porfírio de Afonseca e Silva em companhia de seu filho José Gaspar de Afonseca e Silva, quando ordenado Padre. 12/08/1923. Acervo Setor de Arquivo, Pesquisas e Publicações (SAPP) da Ffundação Cultural Calmon Barreto (FCCB)

Como grande parte da população brasileira da época (cerca de 98,93 declarava-se católica no censo de 1890), a família Affonseca e Silva estruturava-se em um ambiente profundamente religioso. José Gaspar foi batizado na antiga igreja de Nossa Senhora da Conceição, em 12 de fevereiro de 1901.

Desde cedo notou-se sua inclinação pelas atividades religiosas, presente até mesmo nas brincadeiras de criança,” e, um dia depois de cumprir os 7 anos, celebrou a sua primeira comunhão preparado por sua mãe, D. Prosolina.[6]

O pai, Sebastião de Affonseca e Silva, foi zelador da lâmpada do Santíssimo, e levava consigo o pequeno filho.

Desde os sete anos, todos os domingos, ao regressar da Missa das nove, num galpão que existia em sua residência, [José Gaspar]celebravasua missa, imitando tudo o que vira ao sacerdote, momentos antes, fazendo questão que seus pais e irmãos assistissem, com muita seriedade, às suas cerimônias litúrgicas. Nas grandes festas, organizava procissões que percorriam todo o quintal, tendo por acólito seus irmãos e primos.[7]

Em 25 de setembro de 1912, matriculou-se no colégio São Luís, em Itu, onde passava grande parte dos recreios na capela local. Era conhecido por sua piedade e pela atenção com que ajudava na Santa Missa, o que lhe rendeu o apelido de “Vigarinho”.

Aos 15 anos ingressou no Seminário Maior, em São Paulo, no dia 08 de dezembro de 1916. Recebeu a batina em 06 de março de 1917, recebendo a tonsura em 20 de março de 1920. No dia de Natal de 1922, foi conferido a ele o Subdiaconato, em Uberaba (MG), cidade vizinha à sua terra natal, recebendo o Diaconato em 11 de março de 1923.

Depois de ter ingressado no Seminário Maior, no dia 12 de agosto de 1923, o jovem José Gaspar é ordenado padre secular para a diocese de Uberaba (MG), pelas mãos de Dom Duarte Leopoldo e Silva, na Matriz de Santa Cecília, em São Paulo.  Nesse mesmo ano celebrou sua primeira missa, na festa de Nossa Senhora da Abadia, para júbilo de sua cidade, dos conterrâneos e de sua família.

A lembrança da ordenação ficou gravado em sua memória:

Longos anos trabalhou a graça para talhar na rebeldia de nossa natureza os traços sobrenaturais da perfeição. No tempo risonho de nossa juventude levítica, quanta realização sonhada aos pés do altar, no silêncio do santuário onde jurámos viver vida de sacerdotes perfeitos! Depois, na manhã de um dia tantos anos suspirado, as mãos cansadas do nosso Pontífice pousaram sobre nossas cabeças e, trêmulas de fadiga, ungiram as nossas mãos, trêmulas de emoção. Éramos sacerdotes.[8]

Com exceção do Subdiaconato, todas as Ordens lhe foram ministradas por Dom Duarte Leopoldo e Silva, Primeiro Arcebispo Metropolitano de São Paulo.   

Impressiona a determinação e o senso de urgência com que Dom José Gaspar assumia múltiplas e simultâneas funções, logrando êxito em todas elas, como atestam os registros pormenorizados de In Memoria, já citado.

 A análise de seus dados biográficos torna incontornável destacar tal dinâmica, pois ela evidencia a competência incomum do jovem sacerdote. A metáfora “correr contra o tempo” ajusta-se com precisão à sua breve, porém intensa, trajetória. Pouco antes de seu falecimento, confidenciaria a Plinio Corrêa de Oliveira — aliado em alguns momentos e contestador em outros — que seria curto o período que lhe caberia cumprir na terra.

Aos 23 anos, como cooperador da Paróquia da Consolação, transformou a sua igreja em abrigo para os participantes da Revolta Paulista[9] de 1924, quando a capital se converteu em cenário de guerra. “Ao lado do Monsenhor Francisco Bastos, abrigou os refugiados da Revolução de 1924, no próprio templo[10]

Em 07 de setembro de 1924, embarcou para a Europa, chegando a Roma no dia 30. Em 1° de outubro matriculou-se no Colégio Pio Latino-Americano, e a 4 de novembro, na Faculdade de Direito da Universidade Gregoriana, onde se doutorou, com brilho, em 1926.  José Gaspar não tinha tempo a perder.[11]

Padre José Gaspar, em sua sala de Estudos em Roma. Ano 1926. Acervo SAPP-FCCB

Antes de regressar ao Brasil, integrou a Comissão de Estudos Bíblicos composta por quatorze sacerdotes em viagem à Terra Santa, de 1° de setembro a dezembro do mesmo ano, retornando ao Brasil em janeiro de 1927.

Excardinado para a Arquidiocese de São Paulo, foi convidado para lecionar no Seminário Maior, localizado em São Paulo, assumindo as cátedras de Teologia Moral, Direito Canônico, Egiptologia, História da Arte e comentários à Divina Comédia, de Dante Alighieri. Chegara ao Seminário ainda adolescente e, 13 anos depois, tornara-se Mestre e Doutor da instituição.  Em 24 de fevereiro de 1933 assumiu interinamente o cargo de Reitor, sendo efetivado no ano seguinte.

A interdisciplinaridade com a qual nosso preclaro Sacerdote exercia o magistério revela a amplitude de sua capacidade intelectual: da Teologia ao Direito, da Egiptologia à História da Arte, culminando com a Magnum opus de Dante Alighieri, a Divina Comédia

Enquanto estudou em Roma, a Santa Sé continuava vivendo o imbróglio criado com a unificação italiana, uma vez que a instituição religiosa se mantinha firme no propósito de não reconhecer a perda de seus territórios pontifícios. Assim que assumiu o poder, em 1925, Benito Mussolini vislumbrou uma oportunidade política – atento ao número expressivo de católicos em Roma – e se empenhou em resolver a Questão Romana, como ficou chamado esse período de tensão.

Consciente de que sanar esse conflito de quase sessenta anos conquistaria a simpatia da população italiana, Mussolini iniciou negociações com o Papa Pio XI:  foi firmado em 11 de fevereiro de 1929, no Palácio de Latrão, o tratado que criou o Estado da Cidade do Vaticano, garantindo-lhe soberania plena e independência em relação ao Estado italiano.

A missão sacerdotal

A vocação sacerdotal de José Gaspar, como já explicitado acima, foi alimentada pelo ambiente familiar, como ele próprio registrou em sua Pastoral da Saudação (1939), em um dos mais belos trechos de memória espiritual preservados por um líder religioso brasileiro. Ali, expressa a profunda gratidão aos pais pela formação recebida:

Queremos agradecer afetuosamente aos Nossos pais bem-amados a educação religiosa que nos deram. Quanto Nos fizeram feliz! Nenhum ouro, prazer nenhum, nenhuma posição nos tornou tão venturosos, como aquelas lições de catecismo que, debruçado nos joelhos de Nossa adorada mãe, nas silenciosas noites de uma habitação modesta, à luz oscilante de uma tosca lamparina de querozene (sic), aprendemos enlevado, fitando aqueles grandes e puros olhos maternos, que nos pareciam duas clareiras aberta para o infinito! Poucas alegrias na vida superaram aquela que a seu lado experimentamos, ajoelhado à mesa da primeira Comunhão.[12] 

Sobre o pai, Sr. Sebastião de Affonseca e Silva, ele registra “que em nenhum livro, antigo ou recente, encontrou exemplo mais edificante” e do qual

nos comovesse tanto como o amor ao trabalho e o espírito de fé que contemplamos no coração do Nosso pai estremecido, o qual, em pequenino, Nos levava diariamente pelas mãos até a Matriz, para assistirmos ao Santo Sacrifício da Missa e que, zelando durante 25 anos pela lâmpada do Santíssimo Sacramento, nunca a deixou apagar-se por culpa sua (…)

O chamado divino

Nessa mesma Pastoral de Saudação, ao assumir a função de Arcebispo Metropolitano da Cidade de São Paulo (1939), ele declarou que sentiu ser um vocacionado quando, em criança ainda, ouviu

soar do âmago do coração uma voz, não provinda de lábios humanos, que nos falava à consciência: ‘Veni, sequere me’[13]. Era um ideal então impreciso, que se projetava nos horizontes da nossa vida. Nem lhe medíramos o tamanho e já o Senhor nos abria as portas do seminário, onde renunciamos para sempre às promessas do mundo.[14]

A Igreja, o mundo e a guerra

Enquanto frequentava o internato em Itu (SP) o mundo vivia o tormento da Primeira Grande Guerra (1914 – 1918), conflito que envolveu muitas nações, direta ou indiretamente.

A Santa Sé declarou-se neutra, embora o papa Bento XV (1854-1922), em diversas ocasiões, tenha se manifestado contrário ao conflito, clamando por um acordo de paz, sem obter sucesso em suas súplicas pelo restabelecimento da concórdia entre as nações beligerantes.

Em sua Encíclica Ad Beatissimi Apostolorum,[15] de 01/11/1914, Sua Santidade, destacava o “suicídio da Europa civilizada”, e atribuiu às nações a responsabilidade por abandonar os preceitos cristãos no governo dos Estados. Afirmava ainda  

Mas não é apenas a atual luta sanguinária que aflige as nações e nos enche de ansiedade e preocupação. Há outro mal que grassa no mais íntimo da sociedade humana, uma fonte de pavor para todos os que realmente pensam, visto que já trouxe, e trará, muitos infortúnios às nações, e pode ser corretamente considerado a causa raiz da atual guerra terrível. Pois, desde que os preceitos e práticas da sabedoria cristã deixaram de ser observados no governo dos Estados, seguiu-se que, como continham a paz e a estabilidade das instituições, os próprios fundamentos dos Estados necessariamente começaram a ser abalados.

Com essas palavras o Pontífice não apenas condenava a “luta sanguinária”, mas identificava na secularização política e na perda de referências cristãs o “mal que grassa no mais íntimo da sociedade humana”, considerando tais transformações como causa profunda do conflito que devastava continentes.

Após dezenas de milhões de mortos, o armistício foi assinado em 11 de novembro de 1918. Entretanto, as duras condições impostas à Alemanha e depois incorporadas ao Tratado de Versalhes (28 de junho de 1919), já prenunciavam que a paz não seria duradoura.     

 Os anos entre a duas guerras foram extremamente tensos: a grave crise econômica iniciada nos Estados Unidos da América, em 1929, e as drásticas consequências que aportaram no Brasil, sobretudo para os cafeicultores paulistas; ao mesmo tempo, a insatisfação com a política conhecida por “café com Leite” – que alternava o poder entre São Paulo e Minas Gerais – prenunciavam o movimento de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

No cenário internacional, o impacto global da crise agravava rivalidades entre a potências europeias. A Alemanha recém unificada (1871) e duramente penalizada[16] pelo Tratado de Versalhes encontrava-se ressentida, com profundo sentimento coletivo de humilhação o que levou o povo alemão a entregar poderes extraordinários ao austríaco Adolf Hitler, permitindo a consolidação do regime nazista. A Segunda Guerra Mundial já estava sendo gestada.  

Dom José Gaspar e o Governo de Getúlio Vargas

Após a laicização do Estado brasileiro por força de lei com a implantação da República brasileira, a Igreja Católica, iniciou um amplo processo de Restauração Católica – também chamado de romanização– cujo propósito era, de um lado, estimular novas vocações sacerdotais e, de doutro, recuperar e ampliar sua influência na política no cenário nacional.  

Aproximar-se do notório anticomunista Getúlio Vargas, que comandou o país por quinze anos, foi um dos esteios encontrados.

No contexto nacional, a Igreja Católica se posicionou em relação ao Governo Vargas, tendo em vista que este não se mostrava alinhado com nenhuma religião específica nem havia declarado nenhuma como religião oficial do Estado brasileiro. A Igreja Católica, portanto, no pós-1930, vinha tentando recuperar o espaço perdido com a República laica, que havia manifestado, desde 1891, a separação definitiva entre Igreja e Estado[17].

A Igreja Católica estava ciente de que não poderia sustentar-se “por muito tempo sem qualquer vinculação com o Estado”. Nesse contexto, a aproximação com o notório anticomunista Getúlio Vargas, chefe do governo brasileiro entre 1930 e 1945, tornou-se um dos caminhos estratégicos, identificados pela hierarquia e pelos intelectuais católicos.

A aproximação da Igreja com o governo Varguista sempre levantou dúvidas sobre a extensão real do apoio católico ao regime. O periódico “A Cruz[18]”, de 02 de novembro de 1930, (um dia antes de Getúlio Vargas assumir) joga luz nessa questão, ao explicar que a situação brasileira era de

Suma apreensão porque os inimigos da sociedade e da ordem tramam nas trevas, a ruína da civilização brasileira. O comunismo não cessa de maquinar a destruição das nacionalidades formadas pelo cristianismo.

Esperamos que se constitua e se consolide um governo provisório, apoiado pelas forças armadas e pela consciência pública; este governo promoverá a reforma de nosso estatuto orgânico, e depois as eleições gerais, para que voltemos à normalidade republicana.

Fica evidente, portanto, que a Igreja desejava uma reforma constitucional, a convocação de eleições gerais e o retorno à   normalidade republicana e não um governo ditatorial e sem limites definidos, como Getúlio Vargas posteriormente consolidaria.

Outro marco simbólico desse período foi a proclamação de Nossa Senhora como Padroeira principal[19] do Brasil. O decreto do Papa Pio XI, datado de 16 de julho de 1930, teve sua cerimônia oficial realizada em 31 de maio de 1931. Para a celebração, a imagem da Santa foi transladada para o Rio de Janeiro, então capital do país.

O evento reuniu mais de um milhão de fiéis, [20] e contou com a presença do presidente Getúlio Vargas, afinal, ele não poderia desconsiderar a força simbólica e política de tamanha manifestação popular em início de governo. O uso político da devoção à Padroeira era, sem dúvida, um instrumento poderoso para fortalecer o nascente populismo varguista.

Com o reconhecimento papal   à Padroeira o antigo templo (hoje conhecido como Basílica Antiga ou Basílica Histórica) tornou-se insuficiente para acolher o crescente fluxo de fiéis. Dom José Gaspar comprometeu-se, em 1939, com o projeto de construção de uma nova Catedral com infraestrutura suficiente para receber a multidão devota.

Embora considerado ateu por uns e agnósticos por outros, Vargas buscou o apoio da Igreja por pragmatismo político: necessitava consolidar seu poder e ampliar sua legitimidade social. A Igreja, por sua vez, enfraquecida desde o advento da República, via na colaboração com o governo um meio de recuperar sua influência. À semelhança de Benito Mussolini na Itália – quando negociou com a Santa Sé uma solução para a Questão Romana – Vargas também percebeu o valor político da vasta população católica brasileira. A reintrodução do ensino religioso na Constituição de 1934 foi um dos sinais dessa aproximação.

No plano das ideias, diversos pontos de convergência aproximavam Igreja e Estado. As políticas sociais e trabalhistas de Vargas iam ao encontro, diretamente, com o magistério pontifício, especialmente com as encíclicas Rerum Novarum (Leão XIII, 1891), Quadragésimo Anno (Pio XI, 1931) e Divini Redenptoris (Pio XI, 1937) focavam em um tema também caro às plataformas políticas de Getúlio Vargas: as questões sociais e o trabalhismo. Na Rerum Novarum, por exemplo, Leão XIII afirmava:

É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: «Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante». E «O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte». Desta propensão natural, como dum único germe, nasce, primeiro, a sociedade civil; depois, no próprio seio desta, outras sociedades que, por serem restritas e imperfeitas, não deixam de ser sociedades verdadeiras[21].

Segundo a análise de Rafael Vilas Boas Chagas[22], a hipótese central é que a Igreja Católica, ao aproximar-se do governo, buscava apoio para implementar políticas trabalhistas coerentes com a doutrina social cristã, e simultaneamente, recuperar força política enquanto Vargas, autoritário, populista e centralizador, permitia uma participação eclesial efetiva, sobretudo frente ao temor comum do avanço comunista.

Em 1939, ao ser elevado à condição de Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Dom José Gaspar expressou claramente sua preocupação com o operariado ao publicar sua Pastoral da Saudação:

À classe operária, que forma grande parte da população de nossa Arquidiocese, ocupará sempre um lugar de especial afeto em nossa alma. Ela é objeto de nossas constantes preocupações.[23]

Nessa mesma Pastoral, recordou que “coube ao extremamente corajoso” Leão XIII, denunciar a miséria dos trabalhadores e reclamar leis que os protegessem, assim como ressaltou a inquietação de Pio XI diante da questão social.

Paralelamente, o governo Vargas desenvolvia um programa de industrialização, incentivo ao trabalho e proteção social do operariado. Popularmente conhecido como “o pai dos pobres”, Getúlio Vargas encontrava nos trabalhadores sua base política. Criou a Carteira de Trabalho (1932) e promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943, além de instituir benefícios como o salário mínimo e, posteriormente, o 13° salário.

Dom José Gaspar, Bispo Titular de Barca e Bispo Auxiliar do Arcebispo Metropolitano de São Paulo.

Exercendo com excelência as atividades que lhes eram confiadas e alcançando plenamente os objetivos pastorais e administrativos estabelecidos, Dom José conquistava os corações e o respeito de seus superiores, seus pares e seus fiéis, com humildade e notável espírito conciliador. Seu prestígio, crescente, chegou à Santa Sé.

Dom José Gaspar, Bispo de Barca, recebe as homenagens do povo araxaense, em frente à Igreja Matriz da cidade. Maio/1935. Acervo SAPP-FCCB.

Em 22 de fevereiro de 1935, recebeu a consulta para auxiliar a Dom Duarte Leopoldo e Silva, primeiro Arcebispo Metropolitano de São Paulo. Com exceção de sua progressão à função de Subdiácono, todos os demais graus da hierarquia eclesiástica alcançados pelo então sacerdote José Gaspar, lhe foram conferidos pelas mãos de Dom Duarte, a quem acompanhou até o último suspiro deste.  

No dia 28 de fevereiro,

A Cúria Metropolitana de São Paulo cientificava oficialmente ao Clero e aos demais fiéis em geral, que a Santa Sé Apostólica havia nomeado o Revmo. Padre José Gaspar de Affonseca e Silva, então Reitor do Seminário Central da Imaculada Conceição, do Ipiranga, Bispo Titular de Barca e Auxiliar do Exmo. Sr. Arcebispo Metropolitano de São Paulo.

Sua sagração episcopal ocorreu em 28 de abril de 1935. Na primeira fila, D. Prosolina Porfírio de Affonseca e o Sr. Sebastião de Affonseca e Silva, acompanhavam, emocionados, a transformação do filho em sucessor dos Apóstolos de Cristo. Impossível supor a emoção que envolveu a família Affonseca Silva nesse momento de fervor religioso e orgulho.

Dom Jose Gaspar, em frente à casa de sua família, em Araxá, por ocasião da Inauguração do marco comemorativo do centenário de posse da primeira Câmara Municipal de Araxá. Data aproximada 08/01/1933. Acervo SAPP – FCCB

No dia 05 de maio de 1935, Dom José retornou a sua terra natal[24]. Conjecturar a intensidade espiritual daquele momento – celebrando seu primeiro ato pontifical em um púlpito montado diante da casa de seus pais, na principal avenida de Araxá – é imaginar o reencontro entre vocação, memória e missão. Como não recordar o menino de sete anos que “imitava tudo o que vira ao sacerdote momentos antes”, celebrando a missa para pais e parentes?  Ou o pequeno líder que, nas grandes festas, organizava procissões pelo quintal, tendo como acólitos seus irmãos e primos?

Ainda em 1935, Dom Duarte promoveu uma romaria nacional à Padroeira do Brasil. A experiência marcou época: “como tentativa para futuras emissoras” a Rádio Record transmitiu integralmente todos os atos, inclusive a Hora Santa. Dom José Gaspar, dotado de rara comunicação e resiliência, serviu como locutor, falando das três da madrugada às quatorze horas – quase doze horas interruptas.” 

Seu ritmo de trabalho era contínuo e fecundo. Entre viagens pelo Brasil e pelo exterior; participação em Congressos Eucarísticos; reuniões mensais com o clero e com religiosas e intensa dedicação às obras de assistência ao operariado, Dom José criou ou impulsionou múltiplas iniciativas. Sob seus auspícios, fundou-se a Escola de Enfermeiras do Hospital São Paulo, anexa à Escola Paulista de Medicina. Organizou uma grande concentração de Congregados Marianos, que reuniu trinta mil jovens.  Em julho de 1937 organizou duas Semanas de Estudos da Ação Católica.

Tudo isso sem perder de vista dois grandes empreendimentos:  a construção do novo Santuário de Nossa Senhora Aparecida, sua santa de devoção – a 170 km de distância de sua sede episcopal, e a supervisão atenta das obras da Catedral da Sé, no coração da maior cidade do país.

Para unificar os métodos de ensino de estudos religiosos e ampliar a formação acadêmica das religiosas, Dom José determinou que os institutos femininos modernizassem seus currículos. Considerando o Instituto Sedes Sapientiae, das Cônegas de Santo Agostinho, como modelo de excelência, estabeleceu que cada congregação mantivesse ali uma ou duas irmãs cursando o Aperfeiçoamento, até que todas tivessem diplomas correspondentes.

Dom José dedicou especial atenção às questões sociais, como já citado, ao defender o operariado e cobrando dos patrões o cumprimento das leis trabalhistas, conforme evidenciou em sua Pastoral da Saudação. Preocupou-se também com a valorização do trabalho das religiosas e com aquilo que hoje é identificado como “saúde mental[25]” dos fiéis, como planejava espaços arborizados e acolhedores para o bem-estar comunitário, para a grande praça no Santuário de Aparecida.

No campo da saúde física, pronunciou-se sobre a escassez de leitos hospitalares e buscou soluções como a criação de Casas de Convalescência. Dedicou-se ainda ao amparo de portadores da lepra e da tuberculose, doenças que avançavam pelo país. Sua sensibilidade transparecia também na rotina pessoal: retirava-se na serenidade o discernimento necessário às suas decisões pastorais.

Na saudação aos seus diocesanos, quando se dirige “Aos Sacerdotes”, Dom José citou Santo Agostinho: “In interiore homine habitat veritas”, incentivando os jovens padres a procurar “as verdadeiras riquezas do espírito”:

Todas as manhãs, na meditação, voltemo-nos para Deus, buscando para a nossa inteligência a luz e para a nossa vontade a força (…) Essa hora matutina, em que o padre se entretém a sós com seu Deus, é a mais proveitosa das solidões. Quando se ergue do genuflexório, após a meditação, levanta-se o padre sempre melhor e maior.[26]

Todas essas abordagens revelam um homem atento às carências contemporâneas e um verdadeiro vanguardista, ao atuar em questões muito além das expectativas de seu tempo.  Dom José Gaspar deixou um legado duradouro.


SEGUNDO ARCEBISPO METROPOLITANO DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Em 13 de novembro de 1938, com a morte de Dom Duarte Leopoldo e Silva cessavam as funções de Dom José Gaspar como Bispo Auxiliar. Prestou as últimas homenagens fúnebres ao seu estimado amigo e mentor Dom Duarte, retirando-se de toda atividade para se dedicar à oração, começando pela cidade de Aparecida, onde se confiou à Padroeira do Brasil.

Em 1° de agosto de 1938, aos 37 anos, recebeu sua nomeação para a função de Segundo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, através de um telegrama da Santa Sé e em 29 de julho de 1939,

O papa Pio XII nomeou Vossa Excelência Reverendíssima José Gaspar de Affonseca Silva para a função de Arcebispo Metropolitano de São Paulo, substituindo a Dom Duarte Leopoldo e Silva.  Dom José Gaspar recebeu o Pálio no dia 06 de janeiro de 1941, quando completava 40 anos.[27]

As manifestações de apreço ao novo Arcebispo estenderam-se por meses: “Comissões que às centenas e aos milhares lhe foram levar seus aplausos e congratulações[28]”.

No início do ano seguinte as romarias e visitas seguiam, tais como o interventor Federal, secretários de Estado, comandantes militares, além dos mais simples cidadãos – varredores, empregados domésticos – todos recebidos com igual cordialidade, registra In Memoria.

Dom José não apenas identificava os problemas no clero como também procurava soluções concretas e atuava para saná-los. Ciente do número deficiente de Sacerdotes, criou diversas escolas apostólicas em São Paulo, como em Itu, Jundiai e Mogi das Cruzes. Na capital paulista, instituiu um Curso Propedêutico, para facilitar a formação de jovens vocacionados.

Antes mesmo de concluir seu primeiro ano como Arcebispo, a imprensa da Capital enumerava sua intensa atividade, destacando sua extraordinária operosidade. Quando “alguém lhe observava que deveria repousar um pouco, invariavelmente respondia: “Descansar, só no céu[29]”.

Dom José Gaspar e o IV Congresso Eucarístico Nacional

Dom José não poupou esforços para oferecer ao povo brasileiro o IV Congresso Eucarístico Nacional, marcado para os dias 3 a 7 de setembro de 1942. O declínio vocacional e a diminuição do número de ordenação preocupavam a Igreja brasileira, a ponto de se tornarem temas centrais na pauta do Congresso, que se inseria no processo mais amplo da “Restauração Católica”, esforço institucional voltado à reconquista do espaço político e cultural perdido ao longo das primeiras décadas republicanas.

Apesar do entusiasmo de Dom José Gaspar, o contexto mundial não era favorável. O mundo vivia o auge da Segunda Guerra Mundial, o que levou muitas pessoas de seu entorno a considerar temerária a realização de um empreendimento de tamanha dimensão. Sugeriram que se adiasse o Congresso. Conforme registra o In Memoria,

Propalaram os mais assustadores boatos, as insinuações mais pérfidas, e as mais audaciosas ameaças, até contra a vida do Arcebispo. Invocaram a falta de gasolina, que realmente iria dificultar o emprego dos habituais meios de transporte. “Iremos a pé”, diz o Arcebispo.

Dom José seguiu com firmeza na determinação de levar à frente o evento, pois sentia amparado pela confiança em sua fé. Em 27 de agosto de 1942, colocou oficialmente o evento sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida e “ofereceu a Deus a sua vida, para que fosse o Congresso uma grande manifestação de fé e de amor à Santíssima Eucaristia, a Jesus vivo na Hóstia Sagrada[30]”, e continuou seus trabalhos de preparação do evento.  

Nesse mesmo período, a aproximação política do Brasil com os Estados Unidos resultou, a partir de fevereiro de 1942, no torpedeamento de diversos navios brasileiros por submarinos alemães e italianos. O ataque forçou o rompimento das relações diplomáticas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Em resposta à agressão, o presidente Getúlio Vargas declarou guerra ao Eixo, em 31 de agosto de 1942. Três dias depois, teria início o Congresso Eucarístico.  Se há momentos em que a pregação sobre a paz se torna mais necessária, são precisamente os tempos de guerra.

O IV Congresso reuniu mais de 500 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, mobilizando não apenas o Estado de São Paulo, mas delegações de várias regiões do Brasil e de outros países.

IV Congresso Nacional de São Paulo. 1942. Acervo SAPP-FCCB.

Dom José Gaspar d’Affonseca e Silva, arcebispo de São Paulo à época, enfrentou muita resistência à realização do evento, mas manteve-o inclusive como testemunho de paz e comunhão a um mundo em guerra. Ao final do Congresso, recebeu de Getúlio Vargas um telegrama parabenizando-o pelo êxito do evento[31].

O Arcebispo distribuiu tarefas, criou comissões e vinte e cinco subcomissões que abrangiam todas as necessidades possíveis para a perfeita realização do evento.

A réplica perfeita da imagem de Nossa Senhora Aparecida, feita exclusivamente para o evento foi entronizada sob aplausos da multidão na nova Catedral paulista, em construção, na praça da Sé[32].

O esmero e o comprometimento com que o projeto congressual foi executado e chegou a termo, gerou manifestações como a do Bispo de Eire, da Pensilvânia (EUA) respondendo ao jornalista João Gonçalves e ao diretor do Anuário da Imprensa Católica:

Ah! O Congresso. Digo apenas isto: assisti pessoalmente a vários: Chicago, Budapeste, Filadelfia, Inglaterra, Irlanda. Nunca, porém, como este. D. Gaspar, a alma de tudo. ‘He is a providencial man’ – homem providencial ele é. Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, eu quero levar uma reprodução para o meu país, para que seja ela também a mãe, a protetora de nossas duas nações.

Em discurso proferido em língua portuguesa, Pio XII recordou a Primeira Missa celebrada no Brasil, evocou José de Anchieta e Antônio Vieira, e tratou de um dos temas vitais do Congresso: a necessidade de vocações sacerdotais. Exortou os pais católicos a não sufocarem o chamado vocacional de seus filhos, mas a fomentá-lo com orações, boa educação e com a eliminação dos riscos que pudessem prejudicá-lo.

Conclui sua mensagem com votos:

[…] que eles se realizem em vós todos, venerados irmãos e amados filhos, e a todos que tomaram parte ativa no Congresso, a todos os que a ele acorreram, a toda a vossa grande e querida Pátria, damos, do fundo do nosso coração paterno, graças celestes e a bênção apostólica[33].

O IV Congresso Eucarístico Nacional atingiu plenamente a visão e o empenho de Dom José Gaspar, tornando-se um marco religioso na história do Brasil.

PLANOS E O ÚLTIMO VOO DO JOVEM ARCEBISPO

Não havia completado um ano da realização com pleno sucesso do IV Congresso Eucarístico Nacional, no dia 27 de agosto de 1943, o jovem Arcebispo entrava no Aeroporto de Congonhas para uma viagem ao Rio de Janeiro onde participaria da consagração de Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta como Arcebispo daquela capital.  

As propagandas da época garantiam segurança e rapidez ao voo no avião “Cidade de São Paulo”, da VASP, amplamente divulgado pela imprensa.

Extensa era a lista de projetos, tarefas e preocupações que Dom José trazia consigo e, por certo, também na pasta de seu secretário particular, o Padre Nelson Norberto de Sousa Vieira.  O Arcebispo não perdia um minuto de seu tempo, como recorda o autor do livro In Memoria.

Trabalhava, entre outras coisas, no planejamento para a construção da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, com um ambicioso espaço urbano, em seu entorno. A intenção era modificar o extenso local onde seria erguido o Santuário, caracterizado por ladeiras íngremes, visando torná-lo um ambiente agradável para os fiéis.

Já concentrara esforços para solucionar questões infraestruturais: conseguira a instalação de uma estação de tratamento de água do Rio Paraíba e a elevação até a parte alta da cidade. Dom José tinha consciência do muito a ser feito para acolher dignamente o crescente número de devotos da Padroeira do Brasil.

Outros projetos ocupavam sua agenda imediata. Entre eles, a construção de um espaço destinado a convalescentes vindos de outras regiões – que, após a alta hospitalar, não tinham onde se restabelecer – e a Casa das Senhoras Idosas. Havia também o compromisso assumido pela Liga das Senhoras Católicas de fundar uma escola para pequenos jornaleiros.

Muitos planos…

A Segunda Guerra – e a participação direta de brasileiros – também deveria ocupar a mente do jovem Arcebispo, seus assessores e do jornalista Casper Líbero, passageiros naquele voo. Em agosto de 1943, embora os Aliados[34] acumulassem vitórias, o conflito global seguia causando apreensão ao povo brasileiro.

Ainda que o governo Getulista, por motivos ideológicos, demonstrasse interesses políticos em aderir ao lado do Eixo, fora convencido – a troco de altos valores – a entrar na guerra ao lado dos Aliados, em 1942. Essa adesão fortaleceu-se depois que navios brasileiros foram torpedeados pelos alemães.

Em 09 de agosto de 1943 (18 dias antes do embarque de D. José Gaspar ao Rio de Janeiro), fora criada a FEB (Força Expedicionária Brasileira) com o lema “A cobra vai fumar” e 25.000 soldados brasileiros (que ficaram conhecidos como Pracinhas) sob comando do general João Batista Mascarenhas de Morais, atravessaram o Atlântico rumo ao front italiano.

A avião decolou de Congonhas às 7h45, com previsão de pouso no aeroporto Santos Dumont, às 9h25. Durante a aproximação, porém, a aeronave colidiu violentamente com a torre do edifício da Escola Naval e submergiu no mar.

MORTE DE DOM JOSÉ GASPAR:

“Consummatus in brevi, explevit tempora multa” (Aquele que amadureceu em pouco tempo, viveu muitos nos).

Como afirma o autor de In Memoria, é quase impossível expressar o impacto do trágico acidente. A partir das onze horas da manhã começaram a circular notícias sobre o desastre:

Reinava no momento densa cerração e a visibilidade era nula. Os alunos da Escola Naval, ajudados por oficiais da Marinha, lançaram-se imediatamente no mar, procurando salvar as vítimas, recolhendo nessa ocasião os corpos já inanimados do venerando Arcebispo, de dois sacerdotes e de outros companheiros de viagem[35].

As vítimas foram enviadas à Casa de Saúde São José onde as Irmãs de Santa Catarina tentaram, com todos os recursos disponíveis, reverter a situação dramática

Dom José Gaspar, aos 42 anos, falecera, assim como quase duas dezenas de pessoas a bordo.

As urnas funerárias foram transladadas para São Paulo onde uma multidão já se comprimia na estação ferroviária, cuja plataforma estava reservada às autoridades eclesiásticas, civis e militares, e para o Sr. Sebastião de Affonseca e Silva e Dona Prosolina Porfírio Affonseca, pais de Dom José Gaspar.

O cortejo percorreu as principais ruas da capital até a Igreja de Santa Ifigênia, então Catedral provisória[36], onde seu deu o velório.

Representantes dos Estados brasileiros, autoridades do Brasil e do exterior, membros do clero e uma multidão de fiéis acompanharam as cerimônias. A fila para despedir-se do Arcebispo estendia-se por várias quadras, dobrando esquinas. 

Como as imediações do templo estavam tomadas por pessoas, o Cônego Manuel Correia de Macedo recorreu ao rádio e aos alto-falantes para transmitir os ritos à população que permanecia do lado de fora, sem poder entrar na Igreja.

Transcorrido o  período de velório com os ritos fúnebres e a missa de exéquias, o féretro seguiu em um carro do Corpo de Bombeiros, passando por várias ruas protegidas pela Guarda Civil. Ao chegar à Praça da Sé, pode-se ouvir uma salva de tiros, como honras militares, a Dom José Gaspar.

No interior da Catedral da Sé em construção e com acesso restrito ao clero, às autoridades, aos pais e irmãos, o corpo de Dom José Gaspar de Affonseca e Silva recebeu a derradeira benção, e, por fim, o beijo de despedida de seus pais, no anel episcopal.

Era o dia 30 de agosto de 1943.

Procissão que conduz o corpo de Dom José Gaspar defronte à Catedral da Sé, de São Paulo. Agosto/1943. Acervo SAPP-FCCB.

TESTAMENTO DO EXMO. E REVMO. SR. ARCEBISPO METROPOLITANO

“Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.

Ignorando o dia de minha morte, com o mais completo e absoluto espírito de filial submissão, aceito o modo e a data de minha morte que Deus Nosso Senhor me houver designado. Declaro, para evitar qualquer inconveniente para a administração eclesiástica do Arcebispado de São Paulo, que nada possuo atualmente. Quando fui nomeado Arcebispo, eram meus apenas as roupas de uso, um automóvel “Pontiac” que comprei quando Bispo Auxiliar e a minha pequena biblioteca, que formei quando professor do Seminário. Tudo isto, entretanto, doei em vida ao Palácio São Luiz. Nada tenho e nada possuo atualmente. Tudo quanto se encontra no Palácio, na Vila Betânia ou na Cúria em meu nome, pertence exclusivamente ao Arcebispado.

Espero, pois, que minha família, fiel ao seu proceder de em nada se envolver dos negócios eclesiásticos, nada reivindique para si e nenhum obstáculo venha a criar ao Arcebispado.

Esta é minha vontade e deixo esta declaração em mãos do Revmo. Sr. Cônego Sílvio de Morais Matos.

São Paulo, 2 de novembro de 1941.

  • JOSÉ, Arceb. Metrop.

[1]“A palavra liturgia tem sua origem no grego leitourgos, para denominar alguém que fazia serviço público ou liderava uma cerimônia sagrada. Mesmo já sendo usada na antiguidade, somente depois dos séculos VIII e IX passou a ser usada no contexto da Eucaristia na Igreja grega”, conforme VATICAN NEWS. Jacson Erpen. Disponível em https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2018-09/sacrosanctum-concilium-liturgia-historia-da-salvacao.html. Acesso em 17/10/2025.

[2] Disponível em https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo.html. Acesso em 08/12/2025.

[3] O sistema de Padroado foi um acordo entre a Coroa portuguesa e a Igreja Católica, no qual o Igreja cedia ao reino luso o direito de arrecadar dízimos, aprovar as bulas papais, indicar bispos e padres, administrar e sustentar financeiramente a Igreja. A Constituição imperial de 1824 outorgava a o catolicismo como religião oficial do país.

[4] Muitas divergências estavam afloradas entre Igreja e o Império luso.  O clero nacional procurava adequar-se menos ao Padroado e mais às orientações papais que combatiam ideias como a secularização e o anticlericalismo. A questão que envolvia a Maçonaria, por exemplo, em alta no país, em muito contrariava a Igreja. Muitos clérigos eram simpáticos à maçonaria o que tensionava ainda mais a questão.

[5] Encontramos registros das duas grafias com o sobrenome: Affonseca e Silva e Afonseca Silva nos registros da época.

[6] ESTAÇÃO MEMÓRIA: Dom José Gaspar de Affonseca e Silva – Orgulho de Araxaense, Mineiro e Paulista:100 anos de nascimento. O Trem da História: Boletim Informativo do Setor de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB). Ano 3, nº 10. JUL/AGO/SET. 1993. As informações biográficas de Dom José foram obtidas nesta Fundação Cultural.

[7] In Memória. Dom José Gaspar de Affonseca e Silva. 1944. pag. 08. Acervo FCCB.

[8] SILVA, Dom José Gaspar de Afonseca e Silva. PASTORAL DA SAUDAÇÃO aos seus diocesanos. São Paulo. Oficinas Gráficas da “AVE MARIA”. 1939. p.  8. Esse livro foi doado ao acervo da FCCB pela autora dessa pesquisa.

[9] Revolta de 1924. Na pujante cidade de São Paulo, a prosperidade advinda da produção cafeeira impulsionava o início da fase industrial enquanto refletia os momentos conflituosos da política no Brasil. A campanha eleitoral de 1922 deveria que deveria substituir Epitácio Pessoa. A disputa ferrenha ficou entre o mineiro Artur Bernardes (apoiado pela oficialidade e o fluminense Nilo Peçanha, apoiado pelos militares que queriam pôr fim ao domínio político-oligárquico entre Minas Gerais e São Paulo. Com a vitória do candidato situacionista Artur Bernardes o descontentamento dos militares acionou o movimento armado. Como resultado, no dia 05 de julho de 1924, foi deflagrada a Revolta Paulista.

[10] O trem da História, ob. cit. p. 3.

[11] Dados biográficos completos de vida e atividades de Dom José Gaspar de Affonseca e Silva podem ser encontrados no livro IN Memoria: Dom José Gaspar de Affonseca e Silva.   27 de janeiro de 1944. Uma rara cópia desse exemplar se encontra no Centro de Preservação do Patrimônio Histórico de Araxá.

Agradeço à historiadora Raquel Costa Leão do Setor de Arquivos, Pesquisas e Publicações da FCCB pela indicação de publicações de inestimável valor biográfico de Dom José Gaspar.

[12] SILVA, Op. cit. p. 24

[13]Vem, segue-me”

[14] SILVA, op. cit. p. 8.

[15] Disponível em https://www.documentacatholicaomnia.eu/04z/z_1914-11-01__SS_Benedictus_XV__Encyclica_’Ad_Beatissimi_Apostolorum’__IT.doc.html. Acesso em 08/12/2025.

[16] O Tratado de Versalhes, assinado entre os vencedores da Segunda Guerra e, principalmente, a Alemanha, foi extremamente danoso àquela nação: perda de território, indenização financeira, desmilitarização o que desencadeou um sentimento coletivo de indignação ao povo germânico.

[17CHAGAS, Rafael Vilas Boas. A IGREJA CATÓLICA E O ESTADO NOVO: MEMÓRIAS, DIREITOS TRABALHISTAS E PACTO COLABORATIVO (1937-1945), p. 2.  Disponível em www2.uesb.br/ppg. Acesso em 17/11/2025.

[18] Publicação Semanal da Confederação Catholica do Rio de Janeiro.  O texto apresenta ortografia atualizada, conforme acordo ortográfico de 1990, para melhor fluidez do mesmo.

[19] Por solicitação de D. Pedro I, o primeiro Protetor do Brasil foi o espanhol São Pedro de Alcântara, nascido em 1499, da Ordem Franciscana.

[20] Conforme o site https://diocesedepiracicaba.org.br/capa.asp?p=461 acesso em 30/11/2025.

[21] CARTA ENCÍCLICA «RERUM NOVARUM» DO SUMO PONTÍFICE PAPA LEÃO XIII, disponível em https://www.puc-campinas.edu.br/wp-content/uploads/2016/03/NFC-Carta-Enciclica-rerum-novarum.pdf. Acesso em 28/11/2025.

[22] CHAGAS, op. cit.

[23] PASTORAL DA SAUDAÇÃO, p. 28

[24] “Foi assim quando subiu o primeiro degrau para o sacerdócio, como subdiaconato, a primeira Missa Cantada, o primeiro pontifical e a primeira crisma, quis que se fizessem na presença de seus venerandos pais, na querida cidade que fora o seu berço”. In Memoria. Op. Cit. p. 15.

[25] Ressalta-se que a expressão “saúde mental” e suas práticas sistemáticas, tal como as compreendemos hoje, não eram correntes na época, tratando-se aqui de uma leitura contemporânea das intenções de acolhimento do Arcebispo.

[26] Idem, p. 10.

[27] IN MEMORIA, op. cit. p. 30

[28] IN MEMORIA, op. cit. p. 19

[29] Idem, p. 25

[30] IN MEMORIA, op. cit. p.30

[31]Disponível em  https://noticias.cancaonova.com/brasil/exposicao-recorda-iv-congresso-eucaristico-nacional/, acesso em 07/11/25.

[32] A nova Catedral da Sé foi inaugurada em 25 de janeiro de 1954.

[33] Jornal A Cruz. Rio de Janeiro. 13/09/1942, nº 37, disponível em hemeroteca-pdf.bn.gov.br, acesso em 08/11/2025.

[34] Compondo o grupo dos Aliados, destacam-se: Reino Unido, Estados Unidos, União Soviética, França e China. No desenvolvimento do evento bélico outras nações aderiram, como o Brasil.

[35] IN MEMORIA, op. cit. p. 41

[36] A Catedral Metropolitana da Assunção e São Paulo, carinhosamente conhecida por Catedral da Sé estava em construção, nessa época. Ela teve início em 06 de julho de 1913, por iniciativa de Dom Duarte Leopoldo e Silva, 1° Arcebispo de São Paulo, o grande amigo e a quem Dom José Gaspar substituiria, em 1938. Teve sua inauguração em 1954. 


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Uma resposta para “Dom José Gaspar: a voz de um pastor atento às transformações de seu tempo”

  1. Avatar de José Luiz de Carvalho
    José Luiz de Carvalho

    Excelente
    Parabéns

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