CRISTIANISMO PRIMITIVO: a revolução do amor em uma era de crises

  1. PREFÁCIO

Este ensaio procurou se deter nas primeiras décadas após a crucificação de Jesus, nas quais o cristianismo que nascia ainda não estava contaminado pelas forças poderosas e invasivas de outras influências que não fossem o amor, o compartilhamento, a família, a fé, o respeito aos outros e aos diferentes como verdadeiros irmãos e irmãs. Mas, para melhor compreender o período do surgimento das primeiras comunidades cristãs, é necessário fazer um exercício de esvaziamento. É preciso esquecer as catedrais, os rituais estáticos e as convenções sociais que hoje associamos ao cristianismo e mergulhar nas formas de pensar que criaram as estruturas fundamentais da ocidentalidade.

No ambiente paulino do século I, a fé não se configurava como uma ‘religião’ nos moldes institucionais de hoje, mas como um movimento doméstico, marginal e pulsante, cuja gênese ocorreu no seio do Judaísmo do Segundo Templo. Enquanto as sinagogas, vizinhas ao Templo, já eram estabelecidas como locais vitais de oração, de estudo e de reunião comunitária, o Templo era o centro sacrificial e de peregrinação. Não obstante serem judeus, os primeiros apóstolos do Messias ressignificaram o caminho milenar dos seguidores das Escrituras judaicas e estabeleceram seus próprios percursos.

Convém notar também a necessidade de distanciar o conceito atual de ‘religião’ daquele praticado na antiguidade. Em Roma, por exemplo, a religião e a política mantinham um vínculo indissociável. No período imperial romano – época do nascimento de Jesus – o imperador acumulava a função de sumo pontífice (Pontifex Maximus), reunindo ambos os poderes em sua figura.

O termo ekklesia (igreja), adotado pelos primeiros apóstolos, designava originalmente uma instituição política e pública no mundo grego. Essa assembleia popular tinha caráter legislativo e deliberava sobre o bem comum (CATENASSI; PERONDI, 2018). Como se pode observar, as palavras sofrem transformações dinâmicas devido ao uso e à passagem do tempo.

Olhar para aquele período, portanto, exige despir-se do anacronismo e transportar-nos para os lugares frequentados por Jesus e seus apóstolos para redescobrir, por exemplo, que uma das palavras de ordem entre os evangelistas e apóstolos era o amor incondicional (ágape): amor ao Messias – de vida pastoral efêmera – morto impiedosamente e ressuscitado pelo poder divino; amor ao próximo: “como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (João 13:34). Era uma força social revolucionária e em descompasso com aquele período histórico, o que causou muitos dissabores aos pioneiros dessa nova mensagem como referências pejorativas, prisões e mortes.

No entanto, a convicção de que trilhavam o caminho certo e aberto pelo mestre Jesus de Nazaré, que profetizava a iminência do reino de Deus, forjou nos primeiros apóstolos a força necessária para seguir em frente em um mundo desarmônico e injusto.

Uma força tão poderosa que, transcorridos dois mil anos e sofrendo as transformações inerentes ao transcorrer do tempo, pode e deve ressurgir como solução para os tempos atuais, áridos, carentes de alteridade e marcados por tanta polarização. Afinal, a mensagem cristã originária expandiu-se pelo mundo antigo como uma onda envolvente, cujo poder de revolucionar corações e reconfigurar sociedades não se esgotou no passado, mas permanece ecoando de forma viva na contemporaneidade, convidando-nos, independentemente da fé com que cada indivíduo se sinta confortável, feliz e identificado, a redescobrir a essência do amor cristão.

  • INTRODUÇÃO

O império romano avança

Não era de paz o tempo em que um jovem galileu caminhava por sua terra e, ensinando seus discípulos e seguidores, dizia: “Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome…” e concluía: “Livrai-nos do mal. Amém.”

Muitos eram os “males” disseminados em torno do Mediterrâneo oriental. A expectativa, por exemplo, de ser atacado pela força do exército romano colocava em alerta as populações: quando os chefes locais aceitavam submissos o domínio romano – e com evidentes vantagens para eles – ocorria a dominação, porém sem mortes ou destruição. Se, por outro lado, não houvesse a conivência do poder local, poderia haver destruição, morte por crucificação, escravização.

A expansão imperial de Roma alcançou o lado oriental do Mediterrâneo a partir do século II a.C. Conforme Reinke (2019), a exploração ocorria de três maneiras:

“pelo ato da conquista, quando arrancava as riquezas pela pilhagem e pelo espólio de guerra: depois de conquistados e colocados dentro do sistema provincial romano, os povos pagavam impostos regulares; pôr fim a espoliação ocorria por meio dos comerciantes, uma vez que as principais fontes produtivas locais (…) se tornavam exclusividade romana[i].”

Essa expansão transformou profundamente a geopolítica, a religião, a economia e a estrutura social das regiões conquistadas. Não há como estudar o cristianismo originário sem entender a força invasiva do império romano.

Com a invasão da Grécia em 146 a.C. – séculos após a dominação macedônica por Filipe II e Alexandre, o Grande – a outrora região-berço da democracia tornou-se vítima da estagnação política e econômica. A Grécia dos templos erguidos pela Hélade, cujas divindades foram assimiladas pelos romanos em um clássico movimento de sincretismo cultural, viu-se reduzida a um novo status. Apesar dos estudos filosóficos de seus notáveis mestres e de sua literatura ainda contemporaneamente estudada, o grande berço da civilização ocidental não passava de mais uma província do Império Romano.

Após a conquista da península grega, os romanos receberam o Reino de Pérgamo (localizado na Ásia Menor, atual Turquia) por doação do rei Atalo III – que morrera sem deixar herdeiros – em 133 a.C.

Éfeso, para onde o apóstolo Paulo escreveu uma epístola nos anos 60, era a principal metrópole da província romana da Ásia menor (Sul da Turquia). Extremamente movimentada e politeísta era o local do famoso Templo de Ártemis, cuja beleza arquitetônica e morada da deusa da caça e da natureza atraíam peregrinos de muitos lugares. Esse templo foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo.

O Egito, com a queda da última faraó ptolomaica, Cleópatra, nos anos 30 a.C., também passou a ser uma província romana. Esse período marcou o fim da República e o nascimento do Império Romano (27 a.C.) com o primeiro imperador, Otávio Augusto. O expansionismo romano no período foi marcado por uma hegemonia incontestável, porém se essa sucessão de vitórias possibilitou a tranquilidade política e a prosperidade de Roma – a pax romana -, essa não era a realidade de muitas regiões dominadas e, sim, um epíteto criado a partir do ponto de vista do dominador.

Sob o império de Augusto, herdeiro de Júlio César (27 a.C – 14 d.C.)  Jesus nasceria e os apóstolos iniciariam sua peregrinação.

“E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse. Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria”. (Lucas 2:1-2)

Vale a observação de que Públio Sulpício Quirino tornou-se governador da Síria por volta de 6 d.C., quando foi realizado o alistamento (censo) da Judeia. No entanto, o nascimento de Jesus é tradicionalmente datado entre 6 e 4 a.C., ao fim do reinado de Herodes, o Grande.

Nessa conjuntura histórica, as práticas da religio romana chegavam aos locais dominados nos quais a população – mesmo rendendo homenagens aos seus próprios deuses – era obrigada a cultuar o imperador e os deuses romanos.   Os judeus, mais especificamente os fariseus de estrita observância da Lei escrita e da tradição oral, não se submeteram a essa obrigação, mas foram forçados a homenagear o imperador em suas orações, como o líder terreno e não como um deus.

Ao mesmo tempo em que a elite romana assimilava e refinava os saberes intelectuais das regiões conquistadas, ela impunha uma tutela geopolítica agressiva que cobrava um preço humanitário e cultural altíssimo dos povos dominados.

Essa dualidade atinge seu ápice trágico na relação com hierosolimitas e judeus.

O império romano domina a Judeia: a esperança apocalíptica

As últimas décadas anteriores à era cristã foram marcadas por profunda turbulência. Enquanto em Roma os líderes Júlio César, Pompeu e Marco Antônio disputavam o poder supremo em uma violenta guerra civil, o exército imperial avançava agressivamente. Invadiu a Grécia, dominou a Ásia Menor, conquistou o Egito e estendeu seus potentes tentáculos até a Palestina, uma região marcada por pressões e invasões dos partas.

Sobre os escombros morais e a opressão política que sufocavam Jerusalém e o seu Templo, a sociedade judaica dividiu-se: surgiram entre outros tantos grupos, aqueles que compactuaram com o opressor romano; os zelotes que pegaram em armas para se rebelar; os essênios que se retiraram para comunidades isoladas do deserto. Em contrapartida, destacou-se, nesse período, um grupo de homens incumbidos de uma missão radicalmente diferente: os apóstolos. Como enviados e testemunhas de uma nova aliança, eles escolheram o poder da palavra messiânica para acolher os marginalizados e propagar as boas-novas que lhes foram confiadas.

O novo sentido para “Sagrado”: tensões e adaptações no berço do Cristianismo Primitivo

O surgimento e a consolidação do cristianismo no Império Romano não se deram por uma transição pacífica, mas por meio de um complexo e doloroso processo de reconfiguração identitária, cultural e teológica. Para que os primeiros apóstolos pudessem dar coerência às novas propostas trazidas nas palavras do Messias, foi necessário um profundo esforço a fim de ajustar conceitos herdados, separar práticas que já não se alinhavam à nova fé e enfrentar a hostilidade de um mundo fundamentado em tradições milenares e constantes conflitos.

Essa jornada inicial tornou evidente que a propagação da mensagem paulina e evangélica exigiu tanto a ruptura com as práticas pagãs vigentes quanto a ressignificação do próprio conceito de devoção.

A concepção de religio na sociedade romana diferia completamente do novo conceito que os cristãos começavam a estabelecer. Para a mentalidade pagã, o relacionamento com o divino era essencialmente contratual, ritualístico e cívico; estruturado em torno de sacrifícios de animais e derramamento de sangue para aplacar a ira de divindades potencialmente hostis e garantir a estabilidade do Império. Ao rejeitarem esse modelo de barganha metafísica, os cristãos estavam subvertendo a lógica da época. A introdução do conceito paulino de “sacrifício vivo” – a entrega da própria existência diária como ato de adoração – soava para os romanos não apenas como uma contradição, mas como um fanatismo religioso perigoso (GUPTA, 2025).

A recusa em participar dos cultos imperiais e dos sacrifícios tradicionais foi interpretada como desrespeito cívico, o que forçou o isolamento social dos novos convertidos, expondo-os a acusações de subversão. Já os judeus, que praticavam seus ritos religiosos há milênios e neles concentravam toda sua história, muito sofreram com as práticas pagãs impostas pelos romanos em suas invasões e domínios, especialmente para aqueles que eram fiéis às Escrituras, como os fariseus.

Para além das pressões externas, a sobrevivência da nova fé demandou um rigoroso ajuste interno de ideias, o que Wright (2018, p. 452) define como desenvolvimento da disciplina da mente cristã. As palavras do Messias, que nada deixou escrito, precisavam ser traduzidas de forma acessível. Isso significou desarticular a mentalidade de que o sagrado se limitava a templos de pedra e altares de sangue, substituindo-a pela noção de uma comunidade unida pelo amor fraternal, compartilhamento do pão e da fé e por uma missão de transformação social.

Em uma época em que a edificação de templos pagãos era incentivada pelas autoridades greco-romanas e os judeus concentravam suas orações no Templo de Jerusalém, a mensagem apostólica conclamava que “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e não habita em templos feitos por mãos humanas[ii]”.

A destruição de Jerusalém e a expectativa messiânica

A violenta reação romana às revoltas na Judeia culminou no massacre de sua população e, mais tarde, na destruição do Segundo Templo (70 d.C.) pelas forças do general Tito, sob o imperador Vespasiano. Apesar da opressão, a visão de mundo dos judeus permanecia irremovível: eles se viam como o verdadeiro povo de Deus e aguardavam a restauração e a justiça divina contra as nações pagãs.

Havia uma forte expectativa apocalíptica e messiânica por um libertador (“o Messias”). Baseadas nas profecias de Isaías (11) e Miqueias (5), as expectativas apontavam para um descendente de Davi que atuaria como um líder militar e político, derrotando Roma pela força para estabelecer um reino físico em Jerusalém. Contudo, os interesses divergiam entre facções como fariseus, saduceus, zelotes, herodianos e essênios[iii]. Além disso, influências externas, como paralelos com o zoroastrismo persa[iv], também são apontadas por historiadores na formação dessa escatologia salvífica.

A religiosidade do período era pautada na ortopraxia – o cumprimento rigoroso da Lei (Torá) por meio de práticas como guardar o sábado, a circuncisão e restrições alimentares. Em meio à pressão romana, esses rituais serviam como barreiras de identidade e criavam uma separação rígida entre judeus e gentios, ou seja, os não-judeus.

Nesse cenário, Jesus de Nazaré dividiu opiniões. Para seus seguidores, Ele era o Messias esperado. Para outros, sua pregação de um reino espiritual e de não-violência divergia do modelo guerreiro davídico. A mensagem de Jesus desafiou o sistema de pureza ritual da época, propondo uma ética em que o amor e a acolhida superavam as ferramentas de exclusão religiosa.

Nesse contexto instável de medo, invasões e asfixia identitária emerge o Cristianismo Primitivo[v], propondo uma revolução contracultural, uma subversão social baseada não nas armas do exército romano ou na obediência às regras e mandamentos que transformava a fé em um sistema rígido de mérito e obrigações, mas no resgate da dignidade humana como ferramenta de resistência ética. No entendimento dos neófitos cristãos, seria uma revolução que propagaria a leveza e a harmonia; o companheirismo e o amor, ou melhor, o ágape.

  • As boas-novas

Estabelecer as bases de um novo projeto de vida para a humanidade foi um desafio complexo para os apóstolos, especialmente após a execução por crucificação de seu mentor. O prefeito da província romana da Judeia, Pôncio Pilatos, comandou a prisão, o julgamento e a execução na cruz, de Jesus de Nazaré. Esse tipo de pena capital era considerado o mais vergonhoso e humilhante pelas autoridades romanas (supplicium summum), uma vez que tal suplício era restrito, entre outras situações, àqueles que ameaçavam a ordem do império.

Era necessário desvincular o estigma da punição degradante e esclarecer que a morte do Messias foi um evento de transcendência da condição humana para a divina e que assim ocorrera em consonância com os propósitos de Deus Pai, à semelhança do que nos esclarece Veyne (2009): “A cruz, não era símbolo de suplício, mas de vitória: a cruz triunfal, troféu da Paixão (tropaenum Passionis, triumphalem crucem)”.[vi]

Antes de sua detenção e morte, Jesus já tinha antecipado aos seus discípulos ser um “servo sofredor”, daí o desfecho de sua morte. Conforme apontou Marcos (8:31), era necessário que “o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e principais sacerdotes, e pelos escribas, [componentes do Sinédrio] e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria”, afinal, “assim estava escrito”.

As diversas repercussões nas cartas paulinas contrariam a posição romana de uma morte humilhante, deixando claro que a postura de Jesus durante o evento foi coerente com a sua pregação ao demonstrar humildade, pois segundo Paulo, em Fp (2:7-9), Jesus se humilhou até a “morte de cruz”, mas justamente por isso Deus o exaltou:

“antes, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens. Sendo encontrado em figura humana, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”

Também nos evangelhos, conforme Mateus (27:54), ao finalizar a crucificação, a terra, em trevas, tremeu sob os pés dos centuriões que vigiavam Jesus e esses, aterrorizados exclamaram: – “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”. O Cristo revelado, antes do suspiro final proferiu suas últimas palavras no Monte Calvário, deixando claro estar ciente do episódio e no comando da situação: “Está consumado!”   (João 19:30).

Acresce a isso o fato de que Ele já tinha assegurado que não apenas voltaria, mas estaria sempre presente ao lado de seus discípulos. Mateus (28:20) reproduz as palavras do Senhor “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Essa narrativa da ressurreição tornou-se a espinha dorsal da nova fé, distinguindo Jesus de todos os demais supliciados por crucificação, pois a ressurreição era a comprovação de que Ele era, realmente, o filho enviado por Deus.

Com a morte de Jesus, os apóstolos precisavam chegar a um entendimento comum antes de propagar as ideias do Mestre. Por mais efêmero que tenha sido o período compreendido entre vida, morte, ressurreição e promessas da presença espiritual, as mensagens orais deixadas por Ele precisavam ser assimiladas antes pelo grupo de discípulos que iria compartilhá-las com o mundo. Ajustes, portanto, eram necessários. O momento era de reflexão.

Essa conjuntura, deve-se presumir, demandou um imenso esforço pedagógico por parte dos apóstolos que deveriam sistematizar e transmitir os ensinamentos ordenados oralmente por Jesus: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

A importância dos gregos no Cristianismo Primitivo

Os gregos antigos – cuja herança cultural influenciou toda a civilização ocidental – também contribuíram na afirmação e difusão do Cristianismo Primitivo (ou Cristianismo Originário, como defendem alguns estudiosos biblistas), tanto no sentido da convergência como da divergência. Foram eles, conforme aponta Reinke (2019),

“os primeiros estrangeiros a se tornarem cristãos, e a presença crescente desse povo na Igreja primitiva determinou para todos os povos a abertura da fé, por obra do Espírito Santo. Tão importante foi sua participação na história da salvação que gregoveio a se tornar sinônimo de gentiona teologia paulina[vii]”.

Em sua epístola aos seguidores do Messias, na província romana na Galácia, Paulo afirma, equiparando o judeu ao gentio: “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea, porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas, 3:27-28). Com poucas palavras, o Apóstolo enfatizou temas tão pertinentes na época quanto atuais: a igualdade entre os povos, a equiparação das classes sociais e o nivelamento entre homens e mulheres. Eram abordagens inovadoras e atraentes, prontamente abraçadas pela massa de desassistidos.

Outro fator de destaque na rápida expansão das mensagens foi a língua grega falada popularmente: o grego koiné que também era utilizado como o idioma universal do Império Romano. Esse acontecimento facilitou sobremaneira a pregação do evangelho entre diferentes povos. A preponderância dessa circunstância fica mais evidente com o fato de que todo o Novo Testamento foi escrito nessa língua. Com isso, o grego ganhou a mesma importância do hebraico: os dois idiomas atuaram igualmente como meios para a inspiração divina nas Escrituras Sagradas (REINKE, p. 260).

Como já citado, ajustes de compreensão eram necessários para levar aos povos a mensagem de Cristo, o Redentor, sem que se corresse o risco de ter as boas-novas associadas aos inúmeros deuses que circulavam pela região: a solução foi encontrada na filosofia grega.

João (1:1) ensina “No princípio era o Verbo [Logos], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. A escolha desse termo pelo Apóstolo João foi muito perspicaz, pois no mundo dos gregos antigos, o termo Logos – também sinônimo para Palavra – já era muito conhecido. Ele representava uma força divina bem superior às ideias das religiões tradicionais da época.[viii]

“O Logos criador do mundo estava na formação de Israel, mas também na fundação da Grécia e de Roma. Ele é a luz que iluminou os profetas, mas também incutiu inclusive nos filósofos toda a verdade que aparece no mundo. Mas o que era o Logos para o grego? Era o princípio universal subjacente a tudo o que existe, a razoabilidade, aquilo que faz o universo e a própria mente funcionarem dentro de uma mesma lógica”[ix].

O termo “Palavra”, (foi traduzido para o latim como “Verbo”) estrategicamente associada ao Logos – o princípio universal da filosofia grega -, precisou ser traduzido culturalmente e introduzido nas pregações, facilitando, assim, o nexo que explicava o Messias como o filho unigênito de Deus, por todo o Império Romano.

E segue João, no versículo 14, ao esclarecer que o Verbo não se referia apenas a Deus, mas, também a seu filho: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”

A consolidação do nome do Messias, adaptando seu nome hebraico (Yeshua) para o grego (Jesus/Iesous) e traduzindo seu título de Ungido para o grego (Cristo), confirma a efetiva participação da cultura helênica na difusão do evento evangélico: Jesus Cristo foi assim apresentado ao mundo greco-romano[x].

No livro de Atos são narradas diversas passagens com a presença representativa de gregos envolvidos no processo de evangelização:

“Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega (grifo nosso) murmuravam contra os judeus de fala hebraica, porque as suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento.  Por isso, os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: — Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus a fim de servir às mesas.

E uma comissão de sete homens “de bom testemunho” foi escolhida para cuidar dessa tarefa – entre os quais o discípulo Estevão, um dos sete primeiros diáconos da Igreja primitiva –.

            O acolhimento e o trabalho

Outro tópico no versículo de Atos acima citado desperta a atenção: o cuidado com o próximo, e nesse caso, com as viúvas, pois se muitas mulheres já faziam parte do grande exército de desamparados, vivendo, na maioria das vezes, nas fímbrias da sociedade de forma miserável, as viúvas (por morte dos maridos ou por não ter quem assisti-las), viviam vulneráveis econômica, social e legalmente. Ou se submetiam ao casamento com irmãos do falecido, de acordo com a necessidade, ou ficavam à mercê da sorte, nem sempre favorável a elas. Conforme salienta a pesquisadora Zhao Yurong, em importante pesquisa com foco no estudo socioeconômico e no papel das viúvas na Igreja Primitiva, numa sociedade patriarcal, a carência financeira e material para a sobrevivência dessas mulheres era completa.

Ao cuidar dos desfavorecidos com profunda empatia, os primeiros cristãos institucionalizaram a caridade. Nesse contexto, o termo caritas carregava significado muito mais profundo do que a visão contemporânea sugere – que muitas vezes a reduz ao simples ato (assistencialista) de doar o que sobra. No sentido teológico original, a caritas revela mais sobre a postura e a transformação de quem a pratica, convidando-nos a uma reflexão.

Como já mencionado, as comunidades cristãs despertavam o interesse de grande massa de desvalidos. É legítimo, portanto, conjecturar sobre o imenso trabalho desenvolvido para fazer funcionar uma extensa rede de apoio: desde a busca por espaços de acolhimento até a oferta de alimentação e proteção.

No caso específico, essa rede de apoio não era apenas um sistema de caridade, mas a própria materialização prática da metáfora de Jesus.

“E disse Jesus a Simão: não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lucas 5:10).

Era uma rede viva de relacionamento e que não poderia ser constituída por meros parceiros abnegados que buscavam apenas ser simpáticos aos seus deuses particulares. Pelo contrário: as pessoas que aderiam à causa precisavam ser tocadas pelo Espírito Santo e deveriam permanecer fiéis aos preceitos de Jesus.

Para participar dessa estrutura entrelaçada havia a contrapartida: as viúvas, por exemplo, exerciam diversas atividades dentro das comunidades, como cuidar dos órfãos. Esses cuidados mútuos, reciprocidade de afeto, estímulo ao trabalho geravam responsabilidade e um compromisso multiplicador para o bem-estar da comunidade local.

Em diversos versículos de suas epístolas, como aos Tessalonicenses, Paulo alerta contra a ociosidade: “Quem não quer trabalhar também não coma” (2 Ts 3:10), ou exortava para que “trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão”.

“(…) as viúvas na igreja primitiva não devem ser estereotipadas apenas como receptoras passivas de apoio apenas por causa de sua pobreza e vulnerabilidade. Como Lucas 21:1-4 indica, mesmo em sua pobreza, uma viúva ainda pode contribuir para a comunidade. Além disso, não devemos presumir que todas as viúvas no mundo antigo eram pobres[xi].”

A difusão da Palavra pelas estradas romanas

Conforme Simeon Netchev, no auge do império romano, a rede rodoviária cobria mais de 85.000 quilômetros, conectando territórios da Grã-Bretanha à Mesopotâmia, do Danúbio à Espanha e ao Norte da África. Pautadas pela durabilidade,simplicidade e eficiência, elas integraram o império ao servir à logística militar, ao comércio, à comunicação e à administração por séculos, com muitas permanecendo em uso até a era moderna.

Os caminhos estavam abertos para os pés incansáveis dos discípulos de Jesus que tinham o compromisso de cumprir a missão deixada pelo Mestre; “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15). E assim foi feito.

No entanto, as boas estradas e a facilidade de comunicação da língua grega comum não seriam suficientes para expandir as boas-novas. Jesus não deixou nenhuma linha escrita de próprio punho. Diante da ausência e do desafio de alcançar o mundo gentílico, os apóstolos tiveram a monumental tarefa de resgatar memórias das palavras do Mestre e equalizá-las em narrativas que dialogassem com o rigor legalista dos judeus e que fossem compreensíveis aos ouvidos pagãos (seguidores do politeísmo).

Para os seguidores de Jesus as palavras deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação; tornaram-se o único meio através do qual a presença de Cristo permaneceria viva para as nações, até que os Evangelhos fossem escritos (o primeiro deles foi o de Marcos, por volta dos anos 60/70).

Era imperativo criar estratégias de linguagem para adaptar as mensagens à maneira de pensar dos novos seguidores. Para o público de origem judaica era preciso, por exemplo, demonstrar que a “justificação” (base legal da salvação) resultava da fé em Cristo e na atuação do Espírito Santo, e não em restrições alimentares ou na circuncisão. Da mesma forma, o discurso precisava ressignificar os símbolos sagrados: era preciso tornar claro que o encontro com o Deus Único e seu Filho não ocorria na esfera espacial do Templo de Jerusalém, mas sim na comunhão das novas comunidades pautadas na fé que começavam a surgir.

Por fim, ao transformarem o amor ao próximo, o compartilhamento do alimento e o senso de igualdade entre os indivíduos em elementos estruturais, os apóstolos sintonizaram a mensagem messiânica com os anseios de uma sociedade pagã profundamente hierarquizada e carente da noção de comunidade.

Como observa N.T. Wright (2025, p. 443), Jesus reuniria “seu povo” para colonizar a terra (espaço humano) com a vida do céu, ou seja do espaço de Deus. É importante sempre destacar que para esse teólogo o céu “não é la em cima como sugere a imaginação popular”, mas sim “a realidade presente da dimensão divina” pois era o local onde o Único Deus estaria pessoalmente presente para sempre.

O apóstolo Paulo, como defende Wright, queria preparar o povo para a chegada de Jesus e acreditava que essa nova criação já estava iniciada e que o segundo retorno uniria, definitivamente, o céu e a terra[xii].

A controversa posição desse renomado estudioso e teólogo encontra opositores; no entanto, ele reafirma sua convicção quando sustenta que

“O plano de Deus sempre foi o de unir em um Jesus todas as coisas no céu e na terra, o que significava, do ponto de vista judaico, que Jesus era o Templo definitivo, o lugar onde céu e terra se encontram. Isso, já cumprido em sua pessoa, agora estava sendo concretizado por meio de seu espírito”.

Novos conceitos e novas palavras de ordem

Ressignificar conceitos era vital para os apóstolos que difundiam a nova visão de mundo; família, amor, compartilhamento, esperança, por exemplo, passavam a ter sentidos diferentes. E essa pedagogia do Mestre precisava ser o fio condutor que os apóstolos teriam que levar avante. Conforme Nijay Gupta (2025, p. 233-234):

“Em suas lições, Jesus muitas vezes soava mais como um filósofo moral do que um sacerdote clássico. Ele se importava profundamente em realizar uma visão para um novo mundo, um mundo cheio de bondade e amor. Essa visão inspirou seus seguidores e deixou um profundo impacto naqueles a quem mais tarde chamaríamos cristãos”.

Já na primeira carta escrita pelo Apóstolo Paulo[xiii] aos moradores de Tessalônica, os propósitos de Jesus estão implícitos e os termos utilizados por ele representam a essência das mensagens do Mestre e a aplicação prática dos ensinamentos, especialmente por ser uma comunidade de origem majoritariamente pagã. 

Conforme Hahn e Mitch (2020), a primeira carta aos Tessalonicenses é a mais antiga epístola de conhecimento público e teria sido escrita durante os meses de inverno ao final do ano 50 ou início de 51 d.C., logo após o reencontro de Paulo com os companheiros de pregação Silvano[xiv] e Timóteo, em Corinto (At 18,5). 

Tessalônica era capital da província romana da Macedônia.  O paganismo e a idolatria dominavam o ambiente religioso embora também fosse o lar de uma colônia judia. Em tempo relativamente curto (apenas dezessete anos após a crucificação), o apóstolo Paulo já tinha chegado à região norte da Grécia e apresentado o ministério de Jesus, criando uma comunidade para a qual ele encaminha a sua primeira epístola.

Vencer a longa distância entre a Judeia e a Macedônia, a dificuldade de locomoção e a barreira cultural demonstram o ímpeto do apóstolo e de seus companheiros em divulgar as palavras do mestre.

No início do primeiro capítulo da primeira carta (1:3), depois de apresentar-se e anunciar os seus companheiros (Silvano e Timóteo) à comunidade, ele deseja aos tessalonicenses graça e paz (grifos nossos, como todos os outros deste capítulo), e segue: “Lembramo-nos da ação de vossa fé, do esforço de vosso amor e da constância de vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1:3).

Nesse versículo, Paulo elevou a esperança ao colocá-la ao lado da fé (pistis) e do amor (ágape): A esperança era o combustível para a perseverança ativa em meio às perseguições (HAHN E MITCH, 2020).

E as palavras de ordem dessa nova forma de relacionamento humano e transformação interior seguem como um manancial prolífico e norteador do ministério dos evangelistas e de Paulo: amor fraterno; aprender de Deus (Imatatio Dei); progredir nas atitudes evangélicas; serenidade e trabalho; vida digna e exemplar e autossuficiência: 

“A respeito do amor fraterno, não é preciso que vos escrevamos, porque vós mesmos aprendeste de Deus a vos amar uns aos outros. Aliás, já tendes praticado este amor para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Por isso, contentamo-nos em vos exortar, irmãos, a fazer novos progressos. Que vos empenheis em viver tranquilos, ocupando-vos dos vossos próprios negócios e trabalhando com as próprias mãos, como vos ordenamos. Assim, estarei levando uma vida digna aos olhos dos que não são da comunidade, e não tereis necessidade de ninguém” (1Ts. 4:9-12).

Esses novos caminhos orientados no magistério paulino contemplavam alterações nas condutas terrenas da humanidade além de uma forma de ver as questões transcendentes sob outro prisma, o que possibilitava aos excluídos socialmente, uma valorização nunca experimentada pelo modelo romano ou judaico de governo e de religião. Já em sua primeira carta aos Coríntios Paulo corrobora o dito para a comunidade Tessalônica: “(…) a fé, a esperança e o amor. O maior destes, porém, é o amor” (1 Cor 13:13)

Dessa forma, quando Paulo repercute que os tessalonicenses já tinham “praticado o amor para com todos os irmãos em toda a Macedônia” fica claro que as mensagens herdadas de Jesus transcendiam as fronteiras locais. Elas respondiam a um clamor que não era exclusivo dos habitantes da Judeia, mas de vasta extensão do mundo romano. Para uma população subjugada por uma estrutura imperial rígida e desigual, ouvir falar de uma comunidade baseada no cuidado mútuo era encontrar uma resposta direta às suas privações existenciais e materiais.

A tríade teológica – fé, esperança e amor – não era apenas um conceito teórico, mas o alicerce prático sobre o qual o projeto de um mundo novo era apresentado por Paulo à comunidade macedônica. Nesse cenário, onde tudo era inédito, as rígidas hierarquias e o paganismo de Tessalônica davam lugar a uma realidade inteiramente ressignificada, na qual as palavras do apóstolo funcionavam como sementes do bem que, uma vez germinadas, faziam brotar uma subversão pacífica e comunitária. Sob essa nova ótica, o cristianismo semeava a ética do Deus cristão, transformando excluídos em irmãos e irmãs e oferecendo um norte de dignidade, de trabalho e de acolhimento nunca antes experimentado sob o modelo romano ou judaico.

Outra renovação necessária para o Apóstolo Paulo não era apenas terminológica. Transformar o “homem interior” mediante a atuação do Espírito Santo e da habitação de Cristo no coração humano era indispensável para a compreensão das mensagens do cristianismo. Em sua segunda carta aos Coríntios, ele afirma que:

“Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Corintios 4:16).

Conforme aponta Wright (2018 p. 448), embora a mensagem do evangelho parecesse absurda para os gregos e ofensiva para os judeus, ela possuía uma força capaz de impactar profundamente o íntimo das pessoas. Ao encontrarem coerência nessa mensagem, os ouvintes experimentavam uma renovação interior completa, sendo essa a essência do movimento evangélico que celebrizou Paulo e seus escritos.

Sem a transformação interior pelo Espírito Santo, as novas concepções do cristianismo poderiam ser inalcançáveis ou incompreensíveis. Também aos Efésios ele orienta:  “Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé…”  (3:16-17).

Conhecedor da fragilidade humana, Paulo – fariseu e um antigo perseguidor dos primeiros cristãos – alertou os romanos (7:22-23) que apesar do desejo de seguir fielmente com o pensamento e a vontade de Deus há o perigo da fraqueza:

“Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado…”

Nesse versículo, Paulo se expõe e demonstra suas fragilidades; ao assim proceder, ele se iguala à   comunidade dos romanos que lerá sua epístola.

Fácil não era. O Apóstolo teve que sair da Tessalônica, por exemplo, às pressas, à noite e escondido. Em outras situações foi espancado e humilhado; em Filipos (Atos 16) foi preso (WRIGHT, 303).  Mas persistiu.

O termo ekklesia, de origem grega, passou a designar a reunião dos primeiros cristãos.  Essa comunidade (Igreja) era a família por escolha (e não por parentesco ou status jurídico romano), daí as expressões “irmãos” e “irmãs”. A sua constituição, no entanto, minava a autoridade absoluta do pater familias romano, pois acolhia toda a massa de desassistidos e destituídos de direitos familiares (escravos e viúvas), sem descriminação.

A família, no entendimento das boas-novas anunciadas, deixava de ser constituída apenas pela sanguinidade, mas e especialmente, por aqueles que professavam a mesma fé: “…qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe”, como registra Marcos (3:35).

Com esse novo conceito para a constituição familiar, a nova visão de mundo contrariava frontalmente a ideia romana, na qual a família era o alicerce mais importante para a sociedade e, por conseguinte, para o império. Conforme Gupta

 “Os primeiros cristãos estavam intencionalmente desconstruindo uma abordagem romanizada da família e construindo uma nova família e um novo lar. Mexer nas unidades básicas de civilização era um negócio perigoso, mas essa se tornou a principal maneira pela qual os cristãos viam seu relacionamento uns com os outros[xv].”

Apesar da prioridade na formação dessa nova identidade, segue o historiador, isso não significava romper com os laços de sangue ou abandonar seus cônjuges (GUPTA, 2025, 153). Pelo contrário, com essa nova configuração de unidade, os vínculos fraternos se estreitavam e eram ampliados.

Em entrevista ao canal Entre Amigos[xvi], em 13 de junho de 2023, o historiador Nijay Gupta explica a formação da rígida pirâmide social romana, cujo ápice era frequentado pelos deuses e pelo imperador, pela elite romana e a grande massa – já que não havia uma classe média representativa.

Essa “grande massa” era constituída majoritariamente pela população mais empobrecida de cidadãos livres (a plebe), trabalhadores urbanos e rurais, estrangeiros, os órfãos, doentes e idosos e a gigantesca população de escravos.

Segue Gupta que essa nova visão de mundo era “atraente para as pessoas da base da pirâmide”, pois assim podiam ser percebidas como participantes de um todo. Desse modo, o cristianismo alterou o conceito de “família” e estabeleceu um paradigma para “pertencimento”.

A Revolução do Pós-Morte no Novo Testamento

Qual a visão de mundo ou o propósito de vida que poderiam ter os indivíduos que compunham a grande massa da base da pirâmide social do império romano?  Para esses apenas o Hades/submundo era o destino certo, no qual suas almas vagariam (umbrae) para todo o sempre. O local era de esquecimento e irrelevância, refletindo a mesma forma com que foram tratados, em vida. Era a perpetuação da invisibilidade, mas para a elite romana, conforme Reinke (2019, p. 305) “especulava-se a respeito da liberação da alma após a morte, a qual, purificada pela virtude, voava até as estrelas para contemplar a verdade eterna.”

No Judaísmo do Segundo Templo as visões sobre o pós-morte variavam. Enquanto os saduceus negavam a ressurreição, os fariseus e as correntes apocalípticas acendiam a esperança na ressurreição dos mortos no fim dos tempos, ou seja, por não ser uma religião plural, era caracterizada por uma enorme diversidade teológica, política e escatológica.

Com os novos tempos trazidos nas mensagens de Jesus da Galileia ocorre a ruptura: o post mortem (destino eterno da alma) estava diretamente ligado às escolhas, crenças e ações que o indivíduo teve em vida, ou seja, ele tinha a existência para determinar qual seria a sua condição após a sua morte. Eram palavras e propostas alentadoras. A convicção do apóstolo Paulo lhe permitia desafiar a morte: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1 Cor 15:55). Era um grito envolvente e poderoso aos ouvidos dos que nada mais tinham a perder.

Agora, havia um intercessor: Jesus, o filho Unigênito de Deus Único que os conduzira a um lugar de acolhimento eterno. “Na casa de meu Pai há muitas moradas… vou preparar-vos o lugar” (João 14:2-3).

Era por demais tentador.

A partilha da mesa com os excluídos

Esse foi mais um ponto complexo na formação estrutural das narrativas dos apóstolos. No Império Romano, sentar-se à mesa com alguém definia sua posição na sociedade. Subverter essa determinação era desorganizar a pirâmide social.

A nova proposta de refeições, para os cristãos, determinou uma mesa social transformadora, assegura Gupta (2025), para quem

“uma tradição comum na sociedade romana era a realização de jantares, como base no simpósio[xvii] grego, que reunia não apenas a família, mas também vizinhos e vários amigos e associados (…) refletia os valores sociais do anfitrião e lembrava aos presentes (e ausentes) onde eles se assentavam no espectro de importância”.

De acordo com esse pesquisador, as atitudes de Jesus romperam com os padrões da época ao estabelecer uma nova ética de convivência baseada na hospitalidade da mesa. Essa atitude inclusiva gerava forte oposição entre seus contemporâneos, que frequentemente o criticavam por partilhar refeições com grupos marginalizados, como cobradores de impostos e pecadores.

Entendia Saulo de Tarso que “os primeiros seguidores de Jesus de Nazaré eram um exemplo primário do comportamento transgressor que devia ser erradicado caso o objetivo de Israel fosse honrar a Deus[xviii]”, até que ele passasse pela Estrada de Damasco, onde tudo mudou.

Os seguidores do Messias plantavam as sementes da mensagem do Mestre ao direcionarem seu olhar para os marginalizados. Mulheres – que ali encontravam voz, liderança e participação ativa – escravos e excluídos eram chamados de “irmãos” e “irmãs”, convidados a partilhar da mesma mesa em absoluta igualdade. Com essa insurgência, eles viviam o ensinamento de Mateus (20:16): “assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”. A pirâmide social do maior império da época começava a se inverter.

O Ágape: Quando o Céu Inunda a Terra

O historiador francês Paul Veyne (2009) define o cristianismo como “a religião do amor” e essa característica deve-se, também, à autoridade sobre-humana que emanava de seu mestre Jesus. Ainda com o pesquisador francês

“a misericórdia infinita de um Deus que se apaixona pela sorte da humanidade – que digo eu, pela sorte de todas as almas individuais, a minha, a tua e não apenas pela sorte dos reinos, dos impérios ou da humanidade em geral; um Pai cuja Lei é severa, que nos faz andar direitos, mas que, com o deus de Israel, está sempre pronto a perdoar.[xix]”

Ao contrário dos deuses romanos que baseavam suas relações com os humanos no utilitarismo e no dever mútuo (do ut des ou dou para que me dês), o cristianismo originário introduziu a ideia inovadora de um Deus que é amor essencial (ágape) que busca uma relação de afeição recíproca e filial com a humanidade.

Para esse cristianismo nascente, o amor não era um mero sentimento ou uma emoção passageira; era uma força revolucionária que redesenhou a própria estrutura da realidade (o Papa Francisco, em sua visita ao Brasil, em julho de 2013, em um momento de emoção, citou essa expressão aos jovens brasileiros). Ao introduzir o conceito de ágape – um amor incondicional, sacrificial e ativo -, os primeiros cristãos surpreendiam o mundo antigo. E um dos grandes arquitetos teológicos dessa revolução foi o apóstolo Paulo.

Para esse apóstolo, o amor era a essência da fé; não apenas “sentir”, mas também, “agir”. Ele compreendia a si mesmo a partir do amor:  o amor de Deus, revelado em Cristo, a resposta a esse amor por meio de uma devoção profunda e pessoal a Jesus (desejando conhecer seu poder e suas dores), e uma dedicação pastoral que, no fundo, era apenas amor colocado em prática (WRIGHT, 2019, p. 453).

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor…” (1 Cor 13:1).

Com a difusão desses novos preceitos em relação ao ágape- quando os primeiros cristãos dividiam seus bens, acolhiam os marginalizados e ressignificavam o conceito de família -, a dimensão do céu estava, literalmente, invadindo e transformando a terra. O amor de Jesus Cristo era o ponto de ancoragem que fazia a igreja primitiva prosseguir em meio às perseguições. Não era a promessa de uma evacuação do mundo que os movia e fazia o número de seguidores aumentar exponencialmente, mas a certeza de que o amor de Deus já estava inaugurando uma nova criação. Praticar o ágape era trazer um pedaço do céu para a terra. O amor era o tema central do Apóstolo, como o presente e o futuro. Conforme Wright (2018, 288), o amor é o sentimento mais importante do que a fé, vista, por muitos, como tema central do Apóstolo Paulo.

O batismo: as águas que purificam e acolhem

João Batista, contemporâneo de Jesus, adotava uma vida ascética no deserto, vestindo-se com peles de camelo e cinto de couro – uma clara referência profética à figura de Elias. Pregando uma mensagem urgente e severa nas margens do Jordão, ele anunciava o juízo iminente e a chegada do Reino de Deus.

Ao exigir o batismo dos próprios judeus – um rito que até então era reservado apenas à conversão de pagãos – João provocou uma ruptura. Aqueles que desciam às águas passavam a constituir o remanescente de uma “nova” nação de Israel: um povo arrependido, redimido e preparado para a nova ordem divina. Essa promessa de renovação espiritual e de justiça ecoou profundamente na Palestina no início do século I, uma época marcada pela turbulência social e pela opressão romana.

Existe uma linha direta que conecta esse movimento ao pensamento do apóstolo Paulo. Enquanto João Batista proclamava a urgência dessa “nova nação” purificada pelo arrependimento, Paulo de Tarso, mais tarde, consolidou essa teologia ao pregar que o tempo da “nova criatura” já havia sido inaugurado em Cristo.  “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. 2 Co (5:17).

Ambas as posições indicam uma necessidade premente que ia muito além de uma reforma moral superficial: tratava-se da urgência de se alterar não apenas a conduta prática, mas a própria constituição espiritual e a identidade do ser humano. João Batista e Paulo de Tarso comungavam a mesma ideia.

Essa pregação gerou esperança em alguns, mas também alarmou Herodes Antipas, já que até os soldados do próprio governante se aproximavam do profeta. Temeroso dessa forte influência popular, Antipas mandou executar João discretamente entre 28 e 30 d.C. (ASLAN, 2013, p. 105).

Quando perguntavam a João Batista se ele era o Redentor esperado, ele respondia: “Eu os batizo com água, mas virá aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desamarrar as correias das sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo[xx]”. Proféticas foram as palavras de João Batista.

No cristianismo primitivo, o batismo configurava-se como um profundo ritual de pertencimento, operando uma redefinição de identidade que alcançava especialmente os marginalizados do mundo greco-romano.

A conversão cristã não era apenas uma mera adesão a novos dogmas, mas à semelhança do que ocorrera com João Batista, morto poucos anos antes da crucificação do Messias, por ele batizado, transformava o sentido de vida do iniciado. Ao emergirem das águas batismais, indivíduos antes invisíveis como escravos, mulheres e despossuídos passavam a se conhecer como membros ativos de uma nova família cósmica e terrena.

Esse forte senso de identidade coletiva subvertia as rígidas hierarquias romanas, oferecendo aos novos fiéis não apenas o amparo material mútuo, mas a dignidade existencial de pertencer, pela primeira vez, a um corpo comunitário que os valorizava individualmente.

Com a interiorização da fé no Messias, Filho de Deus, após o batismo, a vida do indivíduo tornava-se mais intensa e organizada. A segurança interior era acessível a todos, cultos e incultos (VEYNE, 2007).

  • Os conflitos entre os primeiros apóstolos

Os embates desencadeados com as boas-novas não se restringiam apenas às imposições do império romano: os apóstolos tinham de enfrentar não apenas os judaizantes (cristãos de origem judaica que exigiam que os convertidos gentios cumprissem a Lei de Moisés), mas também os próprios parceiros de fé: era, portanto, necessário aparar arestas para um discurso uníssono. Essa posição dos cristãos de origem judaica esclarece a ocorrência da intersecção no cristianismo originário.

A interação entre os primeiros apóstolos e os seguidores de Jesus estava longe de ser perfeita e as comunidades ficavam aquém do ideal (GUPTA, 2025, p.222). Essa reflexão sobre as desavenças internas é fundamental para desmistificar a ideia de que as primeiras comunidades viviam em plena harmonia, amor e cordialidade. Longe desse cenário idealizado, o que se via no cotidiano da igreja primitiva eram embates intensos em torno de interpretações pessoais sobre ritos e doutrinas. 

Paulo escreveu a epístola aos Gálatas, por exemplo, para dissuadir a comunidade local de circuncidarem-se, pois aparentemente, missionários rivais, os judaizantes, haviam se infiltrado nas igrejas[xxi] da Galácia durante sua ausência, causando problemas entre os convertidos gentios. Evidências internas na carta dão a entender que esses rivais pregavam um falso evangelho (1, 6-7) o qual impunha aos cristãos gentios a necessidade da circuncisão e a prática das leis cerimoniais de Antiga Aliança[xxii]”. A imposição da circuncisão transformou-se em um tópico de forte debate entre os grupos.

Na mesma epístola aos gálatas (2:11-14), o conflito entre Paulo e Pedro, que ficou marcado como o Incidente de Antioquia, foi registrado pelo próprio Apóstolo dos gentios:

“Paulo repreende Pedro em Antioquia – Mas, quando Cefas [Pedro] chegou a Antioquia, opus-me a ele abertamente, pois merecia censura. Com efeito, antes que chegassem alguns de junto de Tiago, ele tomava refeição com os não-judeus. Mas, depois que eles chegaram, Cefas começou a esquivar-se e a afastar-se, por medo dos da circuncisão. E os demais judeus acompanharam-no nessa dissimulação, a ponto de até Barnabé se deixar arrastar pela hipocrisia deles. Quando vi que não estavam procedendo direito, de acordo com a verdade do evangelho, disse a Cefas, diante de todos: “Se tu, que és judeu, vives como gentio e não como judeu, como podes obrigar os gentios a viverem como judeus? Nós somos judeus de nascimento, e não pecadores vindo do paganismo. Sabendo, porém, que não se é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado”. (GÁLATAS, 2: 11-16)[xxiii]

A leitura dessa passagem revela aspectos cruciais da teologia de Paulo. O termo “dos da circuncisão” identifica claramente os judaizantes da época, assim como “justificado” quer dizer “purificado dos pecados e tornados justos aos olhos de Deus”. O não partilhamento de Pedro nas refeições com os não judeus, também foi destacado por Paulo. O texto expõe o caráter firme com que o apóstolo colocava a integridade da fé acima de qualquer hierarquia, a ponto de confrontar publicamente um irmão em Cristo.

Essa passagem paulina marca uma ruptura definitiva entre as práticas judaicas e a identidade cristã ao estabelecer que o ser humano é justificado pela fé em Jesus Cristo, e não pelas obras da Lei de Moisés.  Por consolidar essa independência espiritual, a Carta aos Gálatas é amplamente considerada a certidão de nascimento do cristianismo.

  • CONCLUSÃO

A atualidade do Ágape: o legado do Cristianismo Primitivo para os tempos de aridez contemporânea

A jornada pelas estradas poeirentas do Império Romano no século I nos revela uma verdade incômoda e, ao mesmo tempo, profundamente esperançosa: a revolução cristã primitiva não venceu o grande império do mundo antigo pela força das armas, pela sofisticação teológica ou por estruturas institucionais imponentes. Ela triunfou pelo exercício diário e subversivo de um amor incondicional — o ágape; venceu pela Palavra e pela determinação. Em um ambiente sufocado pela vigilância imperial, pelo medo da exclusão social e por rituais religiosos rígidos, as comunidades cristãs primitivas reunidas em casas particulares – que se constituíram em primeiros templos – redefiniram o verdadeiro sentido da existência humana.  Ao sentarem-se à mesa com os marginalizados, ao romperem as barreiras do preconceito ético e ao construírem uma nova família fundamentada no senso de   pertencimento, os primeiros seguidores de Jesus materializaram o “céu na terra”. Eles provaram que o amor não era um conceito abstrato ou passivo, mas uma força política e social transformadora.

Mergulhados na complexidade do século XXI – um tempo paradoxalmente hiperconectado e profundamente solitário, marcado por polarizações inflamadas, rivalidades ideológicas e pela perda de alteridade -, somos levados a refletir sobre as ações implementadas a partir da bacia do Mediterrâneo do século I.

A ansiedade da modernidade, o deserto da apatia e a busca incessante por sentido gritam pelas mesmas respostas que ressoavam nas cartas paulinas.

Resgatar o Cristianismo Originário não significa promover um anacronismo ingênuo ou tentar replicar a sociologia do mundo antigo. Significa despir a fé das suas roupagens burocráticas e dogmáticas para redescobrir o seu núcleo pulsante. Trata-se de resgatar o amor ético que enxerga o outro não como um adversário a ser vencido, mas como um irmão a ser acolhido. Independentemente das crenças pessoais ou da forma de fé de cada indivíduo, a herança desses pioneiros nos oferece um mapa para tempos difíceis. Diante da aridez contemporânea, o convite do cristianismo nascente permanece extraordinariamente atual: colocar a fé em ação, sustentar a esperança e, acima de tudo, ousar viver o amor, pois como bem vislumbrou o apóstolo dos gentios, há dois milênios, quando tudo o mais passar, o amor continuará a ser a única força revolucionária capaz de reconstruir o mundo.

Em 2013, ao agradecer aos jovens brasileiros, ao término do encontro com os voluntários da Jornada Mundial da Juventude (JMJ Rio 2013), o Papa Francisco disse aos participantes:

“Eu peço a vocês que sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem; que se rebelem contra essa cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, que não são capazes de amar a verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de ‘ir contra a corrente’. Tenham a coragem de ser felizes!”

Nesse instante, o Papa Francisco estava sendo um apóstolo – não como um mero seguidor e pregador do evangelho – mas como aqueles primeiros herdeiros das palavras de Jesus[xxiv].

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

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BÍBLIA. Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. Bíblia Online. Disponível em: <https://bibliaonline.com.br. Acesso em: 8 out. 2026.

CORBIN, Alan (dir.) com Nicole Lemaitre, Françoise Thelaman, Catherine Vincent. HISTÓRIA DO CRISTIANISMO – para compreender melhor nosso tempo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

GUPTA, Nijay. RELIGIÃO ESTRANHA: como os primeiros cristãos eram esquisitos, perigosos e cativantes. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2025.

HAHN, Scott; Mitch, Curtis; Denis Walters. As cartas de São Paulo aos TESSALONICENSES, a TIMÓTEO e a TITO.  Cadernos de estudo bíblico. Campinas (SP): Ecclesiae, 2020.

HAHN_____________.  As cartas de São Paulo aos GÁLATAS e aos EFÉSIOS. Cadernos de estudos bíblicos. Campinas (SP): Ecclesiae, 2017.

REINKE, André Daniel. OS OUTROS DA BÍBLIA. História, Fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.

VEYNE, Paul. QUANDO O NOSSO MUNDO SE TORNOU CRISTÃO. Edições Texto & Grafia, Ltd. Lisboa: 1ª. ed. 2009.

WRIGHT, N.T. PAULO: uma biografia.  1ª. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

ZHAO, Yurong. Early Christian Widows: A Study in Their Social-economic Situation, Support, and Contribution to the Church. 2024. Tese (Doutorado) – Durham University, Durham, 2024.

Referências Bibliográficas


[i] REINKE, André Daniel. Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019. p.285.

[ii] Atos 17:24. Todas as referências aos Evangelhos foram extraídas de: Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. Bíblia Online. Disponível em: <https://bibliaonline.com.br.Acesso em 07/09/2026. Quando de uma excepcionalidade, foi registrada nas referências. 

[iii] os saduceus, da elite aristocrática e sacerdotal controlavam o Templo de Jerusalém, o Sinédrio e os impostos recebidos no recinto sagrado e se aliaram, politicamente, aos romanos; os fariseus, grupo mais popular que observava a Escritura estritamente. Opunha-se à invasão romana a qualquer preço e os essênios, grupo ascético e monástico que se isolou no deserto, enquanto aguardava, com frequentes batismos de purificação, pelos fins dos tempos. Eram contra os romanos, os quais consideravam “invasores do mal”. Refugiaram-se nas montanhas e são conhecidos atualmente como “essênios de Qumran”. Suas visões apocalípticas são hoje comprovadas nos manuscritos encontrados no local.

[iv] Para Reinke, as convergências envolvem: a figura de um salvador escatológico que derrota o mal e julga a humanidade; o nascimento desse salvador por uma virgem,  sua trajetória de morte e posterior ressurreição e o retorno celestial acompanhado de anjos para o julgamento. O autor aponta que essa matriz persa vai além da concepção judaica tradicional — que aguardava primariamente um rei terreno e triunfante —, aproximando-se da figura do Servo Sofredor descrito nas Escrituras (cf. Mt 16:21-25) REINKE, André Daniel. Os outros da Bíblia: história, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019. p.  212.

[v]O período que compreende o Cristianismo Primitivo é visto, na maioria das vezes, até o Concílio de Niceia, sob chancela do Imperador Constantino, no ano 325, quando procurou-se ordenar as práticas cristãs que já tinham se esparramado pelo Império Romano. No caso específico deste trabalho, nos detivemos nas primeiras décadas do século I, período anterior à popularização do termo “Cristão” – cujo surgimento histórico em Antioquia é estimado por volta dos anos 40 a 50 d.C., embora a literatura da época (como o livro de Atos) tenha sido redigida décadas mais tarde. Ainda assim, utilizaremos esse termo, ou expressões como “seguidores de Jesus”, “seguidores de Cristo”, “primeiros cristãos” e “discípulos”. O termo “cristão” aparece apenas três vezes no Novo Testamento: Atos 11:26 (em Antioquia), Atos 26:28 (Agripa a Paulo) e 1 Pedro 4:16. Nas primeiras décadas, eles se autoidentificavam mais como “seguidores do Caminho”, “irmãos” ou “santos”. Sobre o levantamento das ocorrências do termo em Atos e Pedro, a informação foi obtida por meio da IA Gemini.

[vi] PRUDÊNCIO, Cathemerinon, XI, 83. Apud VEYNE, op. cit. p. 28.

[vii] REINKE, op. cit. p.  272

[viii] REINKE, op. cit. p. 262

[ix] Idem, idem.

[x] As explicações sobre as traduções dos nomes Messias, Jesus e Cristo do hebraico para o grego e deste para o latim  foram obtidas através da IA GEMINI, em 19/10/2026.

[xi] Zhao, Yurong (2024) Early Christian Widows: A Study in Their Social-economic Situation, Support, and Contribution to the Church. Doctoral thesis, Durham University. P. 1. Acesso em 10/10/2026.

[xii] Sobre a ocorrência de que o Céu e a Terra não estão distantes – como defende Wright e outros pesquisadores, esses dois espaços são feitos para se sobrepor e se interligar e Jesus é essa intersecção. O Céu em cima e a Terra, embaixo, é uma ideia epicurista. Paulo não se converteu no momento da aparição, pois ele era um homem espiritual que adorava seu Deus criador. Ele não abandona o judaísmo para seguir o cristianismo: ele vê no cristianismo as respostas que ele precisava ouvir. Entrevista O QUE ACONTECEU COM PAULO, por N. T. Wright ao Canal SPCK Publishing (2023). Acessível em https://www.youtube.com/watch?v=AhMYF1-5vQ8. Acesso em 08/10/2026.

[xiii] Paulo nunca encontrou Jesus, pessoalmente, mas se autodenominava Apóstolo, como os 12 do Messias, pelo encontro que teve com Ele, no caminho de Damasco. Conforme N.T. Wright, autor do livro: Paulo, uma biografia, se perguntado a Paulo como foi seu encontro com Jesus, ele diria “Jesus se revelou a mim e eu o conheci. Eu o vi”. Segue o historiador que Paulo desvia esse contato com quaisquer outras formas de encontro que pudesse ter tido. Para Paulo, foi o Senhor ressuscitado, realmente, que apareceu para ele.

[xiv] CATENASSI, Francisco Z.; PERONDI, Ildo. A fraternidade da Igreja de Tessalônica como resistência à vida social no Império. Jul/set. 2018 p. 3. Disponível em file:///C:/Users/jlcec/Downloads/submissao-61-arquivo-83%20(2).pdf. Acesso em 20/09/2026.

[xv] GUPTA, op. cit. p. 152

[xvi] Entrevista de Nijay Gupta ao canal Entre Amigos (Zé Bruno, 2025), disponível em https://www.youtube.com/watch?v=JMsbsLwz8oE, acesso em 07/09/2025.

[xvii] Simpósio, na tradução literal grega significa beber juntos ou reunião para beber. Acesso ao termo em grego, através da IA Gemini.

[xviii] WRIGHT, op. cit p. 18

[xix] VEYNE, Paul. Quando o nosso mundo se tornou cristão. Edições Texto & Grafia, Ltd.  Lisboa. 2009. p. 27.

[xx] LUCAS, 3:15-16 – Bíblia online. Site citado.

[xxi] Por “Igrejas” entenda-se o conjunto dos fiéis de determinado lugar. Ver 1 Coríntios 19.   As igrejas da província da Ásia enviam saudações. Áquila e Priscila os saúdam afetuosamente no Senhor, como também a igreja que se reúne na casa deles”.

[xxii] HAHN, Scott; Mitch, Curtis; Walters, Dennis. As cartas de São Paulo aos Gálatas e aos efésios – Cadernos de estudo bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2017. p. 20-21.

[xxiii] Esses versículos foram extraídos de Carta aos Gálatas, de HAHN, Scott; MITCH, Curtis. Op. cit. p.29.

[xxiv] https://g1.globo.com/jornada-mundial-da-juventude/2013/noticia/2013/07/papa-agradece-jornada-inesquecivel-e-pede-sejam-revolucionarios.html. Acesso em 18/09/2016.


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