
FÉ
Qual seria, afinal, a razão para a submissão humana que, em mais de dois milênios[1], possibilitou à Igreja Católica esse total domínio sobre pessoas, cidades e nações? A resposta teológica inicial remonta ao cristianismo primitivo, quando o apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Hebreus[2], procurava estimular a fé dos primeiros cristãos-judeus para evitar que caíssem em apostasias. Para esse incansável semeador, a preservação da fé representava a própria possibilidade de salvar a alma, definindo-a como “o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que não se veem”.
Expandindo essa visão para além do dogma bíblico, o teólogo Professor João Batista Libânio[3] conceitua a fé como “uma experiência humana fundamental que se faz entre as pessoas e que se prolonga para coisas, mistérios, religiões”, concluindo que crer é a condição essencial para existir no convívio humano. Sob essa ótica, o termo compreende conceitos como confiança, envolvimento e fidelidade, enquanto a palavra “experiência” ganha o sentido dicionarizado por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que a define como a “prática da vida” e o “conhecimento que nos é transmitido pelo sentido”.
Essa relação entre a vivência prática e o divino é também explorada pela psicóloga Eliude Felix[4] ao discutir o merecimento de se alcançar uma graça especial. Para ela, a fé diz respeito à confiança depositada em Deus, em Jesus Cristo e na Bíblia Sagrada, expressa na aceitação do ato de salvação. Trata-se de uma realidade que dispensa comprovação científica, fundamentando-se exclusivamente na experiência do religioso com o sagrado e servindo como “uma ferramenta importante para lidar com a questão do sofrimento”. Embora a obtenção de uma graça não seja alcançada por todos, aqueles que escolhem essa condição por meio da fé conseguem estabelecer uma conexão positiva com o divino.
Essa separação entre o factual e o espiritual é corroborada pelo cientista Marcelo Gleiser[5], que, ao delimitar os campos da ciência e da espiritualidade, conclui de forma direta que a “fé é uma outra maneira de se relacionar com a realidade”.
Por outro lado, a ciência também busca compreender o fenômeno da crença sob a perspectiva biológica e social. O biólogo e ateu americano e David Sloan Wilson[6] sustenta que a “fé evolui com o homem porque confere vantagens àqueles que a desenvolvem”, sugerindo que a crença foi incorporada à nossa espécie como parte de um processo de evolução cultural. Sendo o homem o único ser vivo com plena consciência de sua finitude, ele buscou encontrar algo maior do que si mesmo e do que as forças da natureza para aprender a vencer conflitos, lidar com perdas e se tornar mais apto a sobreviver.
Essa busca por amparo dialoga diretamente com a visão psicológica levantada pelo historiador Reza Aslan[7] em seu livro Deus, uma história humana. Citando Sigmund Freud em O futuro de uma ilusão, Aslan resgata a premissa de que a crença religiosa nasceu da necessidade humana de tornar tolerável o seu desamparo, surgindo de um desejo inato do homem primitivo de criar uma “figura paterna” perfeitamente boa e todo-poderosa. Afinal, os seres humanos adoram deuses porque, assim como uma criança idolatra o pai, necessitam de amor, proteção e conforto para seus medos mais profundos e sombrios.
Segundo Luiz Sureki, SJ, crença e fé não se opõem nem se identificam. E aqui nos aproximamos de definições esclarecedoras para entendermos fenômenos envolvendo a força da religiosidade pois, afirma ainda esse professor e pesquisador que “Há palavras que, de tanto serem usadas, acabam perdendo sua nitidez”. A crença opera na dimensão cognitiva e enunciativa; trata-se de aceitar proposições ou dogmas como verdadeiros e analisáveis, enquanto que a fé transcende o mero juízo de valor para se constituir como um ato de confiança, de engajamento existencial e compromisso com a verdade reconhecida (9).
Foram os sentimentos de fé e crença, portanto, que levaram os caminheiros do final do século XIX a cultuarem o sepulcro que abrigava o corpo de uma escrava, morta em suplício e enterrada viva e com sede – afirma a tradição oral – para cessar a epidemia de varíola em Araxá, dando início a uma narrativa que cruzaria as fronteiras entre o rural e o urbano para marcar a história de toda a cidade.
É nesse cenário que se compreende a força expressa na presença da cruz rústica, assinalando um sepultamento isolado no “meio do pasto”. Passar por aquela sepultura, fosse de dia ou de noite, ativava as memórias e os ensinamentos religiosos dos transeuntes, despertando medo, compaixão e uma profunda curiosidade. As palavras de Jesus de Nazaré, dirigidas à Marta, ecoavam (e ecoam) nas mentes dos fiéis: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá[8]”.
Diante do mistério, a mente popular resgatava o contexto histórico da tragédia da varíola, da cova rasa e do sofrimento, misturando perfeitamente crença e realidade. Acreditar nas coisas que não se veem, conforme pregava o apóstolo Paulo, tornava-se absolutamente plausível para o crédulo. A fé foi (e é) o grande esteio no qual se amparam os crédulos de Filomena.
Afinal, já ensina outro mestre “andar com fé eu vou, que a fé não costuma ‘faiá[10]’.”
Texto extraído da publicação: Epidemia, morte e fé: Sacralização popular da Mártir Filomena na cidade mineira de Araxá. 13/05/2025. Disponível no site www.fedevocaoreligiosidade.com.br.
[2] BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Brasília (DF). 1969. Hebreus 11:1.
[3] LIBÂNIO, João Batista. FÉ. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. P. 24
[4] FELIX, Eliude Fernandes Silva. A importância da religião em contextos de sofrimento. Brasília. UniCEUB. Monografia apresentada como requisito para conclusão do curso de Psicologia. Disponível em repositório.uniceub.br em 22/03/2025.
[5] “A diferença entre ciência e fé é a seguinte: em ciência, a gente tem que ver para crer. Você observa a natureza, você observa o mundo, obtém dados sobre como o mundo funciona, analisa esses dados e entende. Pela fé, você crê para ver. A crença vem antes da visão. Você acredita naquilo, nem precisa ver nada, acredita naquilo e esse, essencialmente, é o cerne da fé, que é uma outra maneira de se relacionar com a realidade, muito diferente da ciência”, https://www.fronteiras.com/leia/exibir/21-ideias-marcelo-gleiser-e-a-complementaridade-entre-religiao-e-ciencia. Disponível em 19/02/2025.
[6] https://veja.abril.com.br/ciencia/qual-e-a-origem-da-fe, disponível em 19/02/2025.
[7] ASLAN, Reza. Deus, uma história humana. Rio de Janeiro; Zahar, 2018, p. 40.
[8] BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Brasília (DF). 1969. João 11:25-26.
[9] Disponível em https://faculdadejesuita.edu.br/entre-crenca-e-fe-do-dizer-ao-existir/. Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE. Acesso em 02/08/2026.
[10] Música de Gilberto Gil, “Andar com fé”, lançada em 1982.
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