INTRODUÇÃO
Esta pesquisa propõe-se a analisar as convergências entre a “experiência do sagrado” no Homo religiosus de Mircea Eliade e o papel do algoritmo eletrônico [1] no Homo Deus de Yuval Noah Harari.
O primeiro conceito, central na obra de Eliade (1956), descreve a manifestação do sagrado no tempo e no espaço: a hierofania. Por meio desse evento ontológico, o homo religiosus situa sua origem e seu lugar em uma visão cosmocêntrica do mundo, buscando reconectar-se ao Illud tempus (o tempo das origens). É relevante notar que Eliade prioriza a fenomenologia dessa experiência em detrimento de definições dogmáticas de “religião”, focando na orientação do homem perante o cosmos.
Inversamente, o termo Homo Deus, cunhado por Harari (2016), projeta um horizonte onde a revolução tecnológica redefine a condição humana. Superados os desafios históricos da fome, da peste e da guerra, a humanidade direcionaria seus esforços à busca pela imortalidade, pela felicidade plena e pelo poder divino. Nessa transição de Sapiens a Deus, emerge o Dataísmo: uma mentalidade que eleva o processamento de dados ao status de uma nova religião alinhada à dinâmica do século XXI.
O ponto de contato mais instigante entre ambas as visões reside na distinção entre a experiência individual (eliadiana) e a estrutura institucional (prevista por Harari). Assim como o historiador romeno diferencia a “experiência religiosa” do conceito formal de religião — evitando o anacronismo de projetar dogmas modernos sobre o homem arcaico —, Harari separa as “religiões” das “jornadas espirituais”. Para o autor contemporâneo, enquanto as primeiras buscam consolidar a ordem mundana, a espiritualidade visa a transcendê-la ou questioná-la.
Separadas por pouco mais de meio século, as obras revelam um paradoxo fascinante: Eliade ancora o ser humano na busca pela transcendência de uma divindade externa, ao passo que Harari descreve a jornada do homem para assumir, ele próprio, o papel divino. Essa transição marca o ocaso do Humanismo antropocêntrico — que substituiu o teocentrismo medieval — para dar lugar ao Datacentrismo. Se o humanismo ensinou o homem a buscar a verdade dentro de si, o dataísmo o convoca a buscá-la nos algoritmos.
Cada tempo, portanto, imprime sua marca na história da consciência: do cosmocentrismo e teocentrismo ao antropocentrismo e, finalmente, ao datacentrismo.
MIRCEA ELIADE
Ainda que tenha direcionado seus estudos para a importância da experiência religiosa desde o Illud tempus como base fundamental da existência humana, no sentido ontológico — uma vez que ela confere sentido, ordem e realidade ao mundo —, esse pesquisador das religiões comparadas não se ateve à definição de um conceito fixo para o fluido termo Religião.[2] Conforme salienta o professor Vitor Chaves de Souza, “Diferentemente dos pensadores iluministas, Eliade buscou ampliar a noção de religião ao invés de reduzi-la a uma definição ou a uma crítica”.[3]
Um dos principais expoentes da Fenomenologia da Religião no século XX, Eliade desenvolveu abordagens próprias para suas teorias, influenciado também pela fenomenologia filosófica de Rudolf Otto. A religião, para o autor romeno, “precisaria ser estudada em seu próprio plano de referência. Eis o pressuposto básico de toda sua obra intelectual” (Souza, 2023, p. 4).
Diante da vasta erudição e da polimorfia das manifestações estudadas por ele em continentes diversos, tanto em ambientes rurais quanto urbanos, a tentativa de compactar essa riqueza num único conceito torna-se um paradoxo metodológico. Seria possível sintetizar tamanha complexidade em apenas uma definição? À luz de Eliade:
“(…) um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro da sua própria modalidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc… é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e de irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado [4].”
Nascido em Bucareste (Romênia) (1907-1986) e naturalizado americano em 1970, Eliade é amplamente reconhecido como um dos principais investigadores do fenômeno religioso. Mesmo que suas posições gerem contestações, suas teorias seguem estudadas e suas obras permanecem como referências obrigatórias. Ainda que sua família praticasse a fé cristã ortodoxa [5], ele mergulhou na amplitude da religião oriental, o que lhe proporcionou profundas experiências pessoais. Morou em Calcutá, onde estudou sânscrito, filosofia e yoga, investigações que resultaram em sua tese de doutoramento. Publicou diversos livros, dentre os quais “O Sagrado e o Profano: a essência das religiões”, em 1957.
Mircea Eliade cunhou o termo hierofania para descrever o momento em que o ser humano percebe o Sagrado, numa abordagem que traz a ontologia para o centro da experiência religiosa. Ele entendia o sagrado como elemento constitutivo da estrutura da consciência, e não como mero estágio de sua história; ou seja, não conseguimos fugir dele, apenas camuflá-lo. A partir dessa posição, afirmava que “O homem profano [a-religioso], queira ou não, conserva ainda os vestígios do comportamento do homem religioso, mas esvaziado dos significados religiosos” (Eliade, p. 166).
Para o autor, é essa experiência, como realidade distinta das coisas naturais, que situa o homem no mundo real. Conforme destaca, ao criar o cosmos, os deuses “fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenômenos cósmicos” (Eliade, p. 99).
Ao contemplar os inúmeros ângulos que a natureza revela — e o mundo está impregnado de sacralidade, cita repetidas vezes —, o homem precisa reconhecer “os múltiplos modos do sagrado e, por conseguinte, do Ser”. É a sintonia transcendente entre o indivíduo e o cosmos que faz com que o homem religioso viva em uma contínua busca pela sacralização do mundo e, por conseguinte, de si mesmo.
Outro conceito definitivo consolidado por Eliade na história das religiões é o de Homo religiosus. A partir da hierofania, o homem passa a conhecer o sentido e a razão da existência. Essa experiência estabelece a fronteira entre o espaço sagrado — o ponto fixo que organiza o caos — e o que está além dele: tudo aquilo que escapa ao espectro sacralizante é o profano, percebido como um ambiente caótico e amorfo. Esse Homo religiosus não vive em um mundo alheio: o cosmos em sua integralidade é o seu espaço, havendo uma correspondência direta entre o Microcosmo (o homem) e o Macrocosmo (o universo). Assim, o corpo humano, a casa e o templo são repetições da estrutura cósmica.
É interessante notar, afirma Eliade, que: “o homem religioso assume uma humanidade que tem um modelo transumano, transcendente. Ele só se reconhece verdadeiramente homem (grifo do autor) quando imita os deuses (…) em resumo, o homem religioso se quer diferente do que ele acha que é no plano de sua existência profana”. (Eliade, 1992, p. 88).
Consciente de seu tempo, Eliade contrasta a vivência arcaica com a dessacralização moderna, em que o sagrado tende a desaparecer. Ele destaca que a concepção de mundo atual muitas vezes se confunde exclusivamente com o cristianismo e aponta a incapacidade do intelectual ocidental em compreender o universo mental do homem religioso — cujo esforço de alargar o horizonte não o leva muito longe — e adverte que a tentativa do homem moderno de ser o único criador de si mesmo e da história (uma postura humanista e secular) culmina no esvaziamento do sagrado na vida cotidiana.
YUVAL NOAH HARARI
Harari é um dos historiadores mais prestigiados da atualidade. Nascido em Israel em 1976, cresceu em uma família judaica não praticante de origem libanesa e europeia. Especializou-se em História Medieval e História Militar, com doutorado pela Universidade de Oxford. Professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, criou em 2019 a Sapienship, “empresa de impacto social com projetos nas áreas de educação e narrativa, cujo principal objetivo é contar e recontar nossa história humana compartilhada” [6].
O ponto de partida de seu pensamento segue a linha do materialismo evolucionista, utilizando o recurso metodológico da macro-história e da interdisciplinaridade. Em 2016, lançou “Homo Deus: uma breve história do amanhã”. Esse título, por si só, sintetiza uma tese: o “deus” por ele utilizado não se refere à expressão culturalmente arraigada de um ser transcendente, mas sim ao homem que se empodera por meio da engenharia genética, da inteligência artificial e da biotecnologia. Aparelhado com tais recursos, o ser humano assumirá capacidades antes atribuídas à divindade (como criar vida e acessar uma inteligência superior), chegando a vencer a própria morte, vista por Harari como um mero problema técnico corrigível.
A expressão “história do amanhã” instiga o leitor a pensar num mundo próximo onde a tecnologia assumirá o comando de todas as atividades, relegando o Sapiens a um papel coadjuvante: o de mero fornecedor de dados. Já o termo “breve” indica a velocidade avassaladora com que essa transição ocorrerá, visto que, em contraste com os compassados 70 mil anos de domínio da espécie, a humanidade agora enfrenta transformações rápidas e radicais.
Nessa obra, conforme aponta seu site oficial, o autor:
“examina os grandes projetos futuros que a humanidade enfrenta no século XXI. Homo Deus alerta para as ameaças introduzidas por novas e inéditas tecnologias, que poderiam permitir que alguns Homo sapiens aprimorassem artificialmente seus corpos e mentes, enquanto outros membros da sociedade ficariam muito para trás [7]”.
Enquanto todos os homines religiosi eliadianos estão aptos a reconhecer o sagrado e caminhar para a própria sacralização, o Homo Deus de Harari faria parte de uma elite restrita. Por exclusão, a grande maioria da população passaria a constituir uma “classe inútil”.
Em resenha sobre a obra para o The Guardian, o crítico Tim Adams argumenta sobre os poderes que esse novo homem divino pretende alcançar:
“esse poder pode, em um futuro próximo, nos dar atributos divinos: a capacidade de prolongar a vida e até mesmo enganar a morte, a capacidade de criar novas formas de vida, de nos tornarmos arquitetos inteligentes de nossas próprias Galápagos, os meios para acabar com a guerra, a fome e a peste [8]”.
Entretanto, continua Adams, a conta dessa transição poderá acarretar sérios dissabores, pois “a modernidade é um acordo, escreve Harari. Todo o contrato pode ser resumido em uma única frase: os humanos concordam em abrir mão do significado em troca do poder”.
Ainda que o termo dataísmo esteja vinculado a Harari, ele foi cunhado originalmente em um artigo do jornalista David Brooks no The New York Times, em 2013: “Se me pedissem para descrever a filosofia em ascensão da atualidade, eu diria que é o dataísmo. Agora temos a capacidade de coletar enormes quantidades de dados [9]”. Sobre esse neologismo, Harari afirma que:
“ao equiparar a experiência humana com padrões de dados, o dataísmo solapa nossa principal fonte de autoridade e significado e anuncia uma tremenda revolução religiosa, não vista desde o século XVIII. À época de Locke, Hume e Voltaire, os humanistas alegavam que ‘Deus é um produto da imaginação humana” (Harari, p. 391-392).
O Dataísmo
Na parte III de Homo Deus, Harari anuncia “A religião dos dados”, estabelecendo que o Universo consiste em um fluxo de informações e que o valor de qualquer fenômeno é determinado por sua contribuição a esse processamento.
Nessa nova gestão, na qual as Big Techs (Google, Meta, Amazon, Microsoft, Apple, Tencent, TikTok) disputam uma nova corrida do ouro — sendo os dados humanos o mineral precioso —, surge o Capitalismo Digital. O processamento de dados tornou-se a infraestrutura invisível que sustenta a sociedade moderna, tornando-se indispensável para a tomada de decisões estratégicas. Empresas, governos e indivíduos dependem, em ampla maioria, do fluxo gerado por esses algoritmos.
Cem anos antes da publicação do livro “O Sagrado e o Profano”, o naturalista inglês Charles Darwin publicou a seminal obra “A Origem das Espécies” (1859). Por meio de demonstração científica, Darwin iniciou uma revolução: a vida não fora criada por forças divinas, nem dependia dos poderes teocráticos que doutrinaram a humanidade por milênios, mas sim de processos de seleção natural na luta pela sobrevivência. Ao impulsionar os questionamentos da interpretação literal das escrituras, as ciências biológicas avançaram a um novo patamar, alinhando-se ao humanismo e reforçando o processo de secularização.
A partir daí, as ciências biológicas “passaram a ver os organismos como algoritmos bioquímicos”. A tecnologia e a biologia se aliaram, respaldadas por diversas disciplinas que afirmam que as mesmas leis matemáticas regem tanto o sistema bioquímico quanto o eletrônico. A religião dos dados, portanto, “faz ruir a barreira entre animais e máquinas, com a expectativa de que, eventualmente, os algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos” (Harari, p. 370).
Nessa esteira revolucionária, as ciências da computação tomaram novo impulso com Alan Turing que, na década de 1950, lançou as bases teóricas dos computadores modernos e a ideia de que a inteligência pode ser desconectada da consciência. Seu artigo de 1950, Computing Machinery and Intelligence, é o precursor da inteligência artificial (termo cunhado em 1956). Adotando um tom especulativo, o matemático propôs a pergunta que ainda nos desafia: “As máquinas podem pensar?” [10]
No passado, havia muitas tarefas que apenas os humanos podiam realizar. Seguindo a linha de Turing, Harari aponta que, embora pareça improvável que os computadores se tornem humanoides no curto prazo:
“as últimas décadas assistiram a um avanço imenso na inteligência de computadores, mas o avanço na consciência dessas máquinas foi nulo (…), no entanto, estamos à beira de uma grave revolução. Humanos correm o perigo de perder seu valor porque a inteligência está se desacoplando da consciência.” (Harari, p. 313).
Para Harari, o Homo Deus, ao se impor, rompe com os preceitos antropocêntricos. Os dados representam a nova crença do século XXI, alimentada pelo fluxo ininterrupto e exponencial de informações (datacentrismo). Para ser adepto dessa vertente, os humanos deverão adotar uma postura na qual a liberdade de informação se torne o bem supremo. Essa mudança altera o eixo da “veneração humana” (antropocentrismo) para a “veneração de algoritmos” (datacentrismo).
O Homo religiosus e o adepto do dataísmo: quando a fé ancestral encontra a nova liturgia dos dados
O terceiro milênio assiste à transferência de uma sacralidade teológica para uma sacralidade tecnológica de forma surpreendentemente rápida. O ser humano moderno silenciou suas buscas por respostas na teologia e passou a procurá-las na tecnologia (ciência, inteligência artificial, transumanismo).
Para Eliade, o homo religiosus busca a melhoria e a sacralização interior; ele se “quer diferente” do homem mundano, tornando-se divino por participação ao imitar os deuses. Já o Homo Deus harariano busca a divindade pela superação das limitações biológicas e existenciais. O homem se torna “deus” por substituição, ao adquirir atributos biotecnológicos. Aqueles que não puderem acessar tais benesses aumentarão o contingente da “classe inútil”.
Na visão de mundo eliadiana, o universo é a própria vida pulsando, a contínua manifestação do sagrado resultante de uma experiência epifânica e ontológica. O cosmos é o poder, a força e o sentido. Ao participar da experiência hierofânica, o homem identificava o oposto do sagrado: o profano, percebido como o caótico, o ilusório ou o menos real (Eliade, p. 18-19). Os indivíduos são decisivos no reconhecimento dessa manifestação.
Por outro lado, segundo Harari, sob a ótica dataísta a humanidade é interpretada como um sistema único de processamento de dados, no qual os indivíduos servem como “chips” fornecedores contínuos de informação (Harari, p. 380). Assim, a realidade resume-se à capacidade de fornecer dados — esta é a nova realidade por excelência.
Enquanto o Homo religiosus busca o fortalecimento interior, o indivíduo dataísta reduz-se a algoritmos bioquímicos alimentando algoritmos tecnológicos, como a Internet de Todas as Coisas (IoE). Nessa mecânica, ou os Sapiens contribuem para sustentar a sanha de poder das Big Techs, ou caem no limbo da inutilidade.
Em suma, a irredutibilidade do sagrado para Eliade afirma que a religiosidade é uma dimensão autônoma da existência por sua conexão com o transcendente. Para Harari, não há transcendência nos seres humanos, apenas um sistema biotecnológico que substitui as narrativas antigas através do império dos dados.
Isidoro de Sevilha, o santo protetor, ou a Deusa Fama, a mensageira de Zeus. O Sagrado ou o Profano?
Santo Isidoro de Sevilha já vem sendo apreciado como o “protetor da internet”, por indicação pontifícia no Vaticano em 1997. E com muita razão, especialmente para aqueles que se mantêm fiéis aos princípios do Sagrado. Nascido na Espanha em c. 560 e falecido em 636, Isidoro viveu um período complexo para a cristandade, no momento em que a Igreja procurava solidificar sua hegemonia no vácuo do Império Romano. Ele considerava:
“A preservação e o compartilhamento de informações essenciais para manter a civilização viva e próspera. Para isso, escreveu sua obra mais famosa, Etymologiae, que se tornou um livro de referência por séculos. O que era Etymologiae? Pense em Etymologiae como uma das primeiras enciclopédias.” [11]
Os 20 volumes da obra, organizada em ordem alfabética, “abrangia ‘tudo’, desde linguagem, ciência e geografia até teologia e o estudo sobre Deus. Seu objetivo era tornar o conhecimento antigo mais acessível e compreensível. Ele queria preservar as melhores ideias do passado e trazê-las para seu tempo presente.
Por outro lado, seguindo uma linha profana e mais condizente com as demandas seculares do dataísmo — e a necessidade de rápida veiculação de seus fluxos —, a deusa Fama pode bem atender a esses requisitos:
“PHEME (também conhecida como OSSA) era a deusa ou espírito personificado (daimona) dos rumores, boatos e fofocas. Por extensão, ela também era o espírito da fama e da boa reputação em um sentido positivo, e da infâmia e do escândalo em um sentido negativo. Seu nome romano era Fama.” [12]
Pheme era a representação do poder e da rapidez com que as histórias se espalhavam, sendo a personificação do “ouvi dizer” no mundo antigo. Tanto que Telêmaco, desesperado por notícias de seu pai Ulisses após a Guerra de Troia, clama: “Talvez alguma testemunha humana fale, talvez eu ouça algum rumor (Ossa) que venha de Zeus, uma grande fonte de notícias para a humanidade.” [13]
Conclusão
O surgimento de uma nova forma de religião, moldada pelas circunstâncias tecnológicas do século XXI, representa, paradoxalmente, a repetição do eterno retorno eliadiano. Embora o Homo Deus imponha suas marcas técnicas, essa crença, enraizada na perenidade da busca humana, inevitavelmente se revestirá de rituais, veneração e submissão. Esse padrão se manifestará especialmente na chamada “classe inútil”, reiterando dinâmicas observadas ao longo da história.
Os avanços continuam, inexoráveis. Como disse Harari, se os humanos gostam de reverenciar poderes maiores do que os que possuem, são os dados que agora lhes dizem que eles não estão no topo da criação; estão sendo destronados do altar onde o humanismo os colocou. Os indivíduos, independentemente de sua escala financeira ou social, já se encontram dependentes dos algoritmos gerados pelas informações que eles próprios produzem.
Diante dos relatos do setor tecnológico, é legítimo pressupor que as Big Techs estejam preocupadas com o limite dos dados fornecidos pelos 8 bilhões de pessoas no planeta, o que poderia restringir sua capacidade de onisciência. Antecipando essa possibilidade, a criatividade humana lançou o Moltbook, uma plataforma onde máquinas conversam entre si, automatizando o debate e excluindo a espécie humana do circuito.
“O Moltbook foi projetado para ser usado pela inteligência artificial e não por humanos. Nós, meros Homo sapiens, somos ‘bem-vindos para observar’ o que acontece no Moltbook, diz a empresa, mas não podemos postar nada. Lançado no final de janeiro por Matt Schlicht, chefe da plataforma de comércio Octane AI, o Moltbook permite que computadores usando inteligência artificial publiquem, comentem e criem comunidades conhecidas como ‘submolts’.” [14]
Ao mesmo tempo em que avançam de forma irreversível, várias corporações de tecnologia comparecem aos tribunais para responder a processos disparados pelas legislações de diversos países e pela sociedade global. Sendo um recurso que ultrapassa as ficções cinematográficas e que conecta o mundo a um pequeno aparelho ao alcance de uma mão infantil, as redes sociais têm levado pânico a pais e educadores, atentos aos malefícios psicológicos e sociais que elas podem desencadear.
Nas palavras de Harari: “À medida que o sistema de processamento de dados se torna onisciente e onipotente, a conexão com o sistema se torna a fonte de todo significado. Humanos querem se fundir no fluxo de dados porque, quando você é parte desse fluxo, você é parte de algo muito maior do que você mesmo.” (Harari, p. 388)
Sob a premissa de que “tudo é narrativa” e de que a cooperação humana depende de ficções compartilhadas, Harari reatualiza o conceito de religião ao demonstrar que, mesmo na era tecnológica, o ser humano preserva a necessidade de sacralizar suas construções simbólicas — como demonstra a própria utilização do termo “religião de dados”.
Nesse cenário de fascínio ante a onipotência algorítmica, o eterno retorno eliadiano manifesta-se de forma inesperada no Homo Deus: a tecnologia converte-se em um “novo sagrado”, empenhado em organizar o caos do mundo contemporâneo por meio dos dados. A busca pela transcendência — ainda que mediada pelo silício — permanece como estrutura fundamental da história da consciência.
Como reforço às ideias eliadianas, a luta pela permanência do sagrado encontra uma força notável na cultura popular [15]. Se o império tecnológico busca automatizar a experiência humana, as classes populares subvertem essa lógica de eficiência. Dotadas de uma resiliência singular, elas avançam em direção ao que consideram real no âmbito de sua fé, independentemente do valor econômico ou técnico de seus objetos de veneração.
Os inúmeros casos em que essa camada social desafia estruturas rígidas — como a própria Santa Sé — ao “canonizar popularmente” indivíduos que reconhecem como legítimos intercessores, constituem provas da autonomia do sagrado popular. Como bem observa Eliade:
“É verdade que a maior parte das situações assumidas pelo homem religioso das sociedades primitivas e das civilizações arcaicas há muito tempo foram ultrapassadas pela História. Mas não desapareceram sem deixar vestígios: contribuíram para que nos tornássemos aquilo que somos hoje, fazem parte, portanto, da nossa própria história.” (Eliade, p. 164)
Por outro lado, a palavra final cabe a Harari:
“A mudança de uma visão de mundo antropocêntrica para uma datacêntrica não é meramente uma revolução filosófica. Será uma revolução prática. Todas as revoluções realmente importantes são práticas. A ideia humanista de que ‘humanos inventaram Deus’ foi significativa porque teve implicações práticas de longo alcance. Da mesma forma, a ideia dataísta de que ‘organismos são algoritmos’ é significativa devido a suas consequências práticas no dia a dia. Ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento.” (Harari, p. 392)
NOTAS DE FIM
[1] “Um algoritmo é uma sequência de instruções ou comandos realizados de maneira sistemática com o objetivo de resolver um problema ou executar uma tarefa. A palavra “algoritmo” faz referência ao matemático árabe Al Khwarizmi, que viveu no século IX, e descreveu regras para equações matemáticas”. Disponível em: https://www.significados.com.br/algoritmo/. Acesso em: 5/4/2026.
[2] O termo (religio) foi utilizado pelo filósofo romano Cícero (106 a 43 a.C.) para descrever o culto cuidadoso e repetido aos deuses romanos. Posteriormente, o cristão Lactâncio (240 a 320) popularizou o termo religare ao tratar da ligação humana com Deus, o criador de todas as coisas, no Cristianismo primitivo.
[3] SOUZA, V. C. de (2023). Ser, sentido e verdade: a atualidade do conceito de religião em Mircea Eliade. Reflexão, 48. https://doi.org/10.24220/2447-6803v48a2023e8620. Disponível em: 10/2/2026.
[4] ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. 4ª. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. p. 1.
[5] Ele próprio, ainda que educado na religião cristã ortodoxa, não se vinculou a uma doutrina específica. Estudar as tradições orientais ou campesinas permitiu-lhe transitar e aprofundar-se em diversos campos.
[6] Disponível em: https://www.ynharari.com/about/. Acesso em: 2/4/2026.
[7]] Biografia de Yuval Noah Harari disponível em: https://www.ynharari.com/about/. Acesso em: 2/4/2026.
[8] ADAMS, Tim. Resenha de Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, de Yuval Noah Harari – arrepiante. The Guardian. Londres (Inglaterra). 11/9/2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2016/sep/11/homo-deus-brief-history-tomorrow-yuval-noah-harari-review. Acesso em: 2/4/2026.
[9] BROOKS, David. The Philosophy of Data. The New York Times. Nova York. 4/2/2013. “If you asked me to describe the rising philosophy of the day, I’d say it is data-ism. We now have the hability to gather huge amounts of data”. Acesso em: 2/4/2026.
[10] O artigo de Turing foi reproduzido, na íntegra, em português, por: https://movimentorevista.com.br/2021/06/alan-turing-e-maquinas-inteligentes. Acesso em: 6/4/2026.
[11] Tradução livre: “Neste mundo de acesso limitado ao aprendizado, Isidoro se destacou. Ele queria tornar o conhecimento mais acessível, especialmente para os cristãos. Ele via a preservação e o compartilhamento de informações como essenciais para manter a civilização viva e próspera. Para isso, escreveu sua obra mais famosa, Etymologiae, que se tornou um livro de referência por séculos. O que era Etymologiae? Pense na Etymologiae como uma das primeiras enciclopédias”. Disponível em: https://theconversation.com/isidore-of-seville-the-patron-saint-of-the-internet-who-shaped-knowledge-for-generations-236792. Acesso em: 28/3/2026.
[12] PHEME E OSSA. Disponível em: www.theoi.com. Acesso em: 29/3/2026. A página cita diversas referências de épicos da antiguidade com referência à deusa Fama, como em “Homero, Odisseia 24. 412 ss: ‘Ossa (Rumor), como arauto, corria a passos largos pela cidade, anunciando a notícia da morte horrenda e do destino dos pretendentes [de Penélope].’”
[13] Ibidem
[14] Moltbook, a nova rede social criada apenas para IA (e não para humanos). BBC News Brasil. Fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3veq5lz51vo. Acesso em: 29/3/2026.
[15] A autora deste ensaio pesquisa a religiosidade popular, notadamente no Brasil, conforme o site: www.fedevocaoreligiosidade.com.br
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