Homo Religiosus versus Homo Deus: entre o sagrado e o algoritmo

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa propõe-se analisar as convergências entre a “experiência do sagrado” no Homo religiosus de Mircea Eliade e o papel do algoritmo[1] eletrônico no Homo Deus de Yuval Noah Harari.

O primeiro conceito, central na obra de Eliade (1956), descreve a manifestação do sagrado no tempo e no espaço — a hierofania. Por meio desse evento ontológico, o homo religiosus situa sua origem e seu lugar em uma visão cosmocêntrica do mundo, buscando reconectar-se ao Illud tempus (o tempo das origens). É relevante notar que Eliade prioriza a fenomenologia dessa experiência em detrimento de definições dogmáticas de “religião”, focando a orientação do homem perante o cosmos.

Em contrapartida, o termo Homo Deus, cunhado por Harari (2016), projeta um horizonte onde a revolução tecnológica redefine a condição humana. Superados os desafios históricos da fome, da peste e da guerra, a humanidade direcionaria seus esforços à busca pela imortalidade, pela felicidade plena e pelo poder divino. Nessa transição de Sapiens a Deus, emerge o Dataísmo: uma mentalidade que eleva o processamento de dados ao status de uma nova religião alinhada à dinâmica do século XXI.

O ponto de contato mais instigante entre ambos reside na distinção entre a experiência individual (eliadiana) e a estrutura institucional (prevista por Harari). Assim como o historiador romeno diferencia a “experiência religiosa” do conceito formal de religião — evitando, talvez, o anacronismo de projetar dogmas modernos sobre o homem arcaico —, Harari separa as “religiões” das “jornadas espirituais”. Para o autor contemporâneo, enquanto as religiões buscam consolidar a ordem mundana, a espiritualidade busca transcendê-la ou questioná-la.

Separadas por pouco mais de meio século, as obras revelam um paradoxo fascinante:  Eliade ancora o ser humano na busca por transcendência de uma divindade externa, ao passo que Harari descreve a jornada do homem para assumir, ele próprio, o papel divino. Essa transição marca o ocaso do Humanismo antropocêntrico — que substituiu o teocentrismo medieval — para dar lugar ao Datacentrismo. Se o humanismo ensinou o homem a buscar a verdade dentro de si, o dataísmo o convoca a buscá-la nos algoritmos.

Cada tempo, portanto, imprime sua marca na história da consciência: do cosmocentrismo e teocentrismo ao antropocentrismo e, finalmente, ao datacentrismo.

MIRCEA ELIADE

Ainda que tenha direcionado seus estudos para a importância da experiência religiosa desde o Illud tempus, como base fundamental da existência humana – uma vez que essa experiência dá sentido, ordem e realidade ao mundo – esse pesquisador das religiões comparadas não se ateve à  definição de  um conceito para o fluido termo Religião.[2] Conforme salienta o professor Vitor Chaves de Souza, “Diferentemente dos pensadores iluministas, Eliade buscou ampliar a noção de religião ao invés de reduzi-la a uma definição ou a uma crítica”.[3]

Um dos principais expoentes da Fenomenologia da Religião no século XX, Eliade desenvolveu abordagens próprias para suas teorias, influenciado, também, pela fenomenologia filosófica de Rudolf Otto.  A religião, para Eliade, “precisaria ser estudada em seu próprio plano de referência. Eis o pressuposto básico de toda sua obra intelectual” (Souza, 2023, p. 4).

Diante da vasta erudição e da polimorfia das manifestações religiosas estudadas por Eliade em continentes diversos, tanto em ambientes rurais quanto urbanos, a tentativa de compactar essa riqueza fenomenológica num único conceito torna-se um paradoxo metodológico questionável. Seria possível sintetizar tamanha complexidade em apenas uma definição de religião?

À luz de Eliade,

“(…) um fenômeno religioso somente se revelará como tal com a condição de ser apreendido dentro da sua própria modalidade, isto é, de ser estudado à escala religiosa. Querer delimitar este fenômeno pela fisiologia, pela psicologia, pela sociologia e pela ciência econômica, pela linguística e pela arte, etc… é traí-lo, é deixar escapar precisamente aquilo que nele existe de único e de irredutível, ou seja, o seu caráter sagrado[4].”

Eliade nasceu em Bucareste (Romênia) (1907-1986) e naturalizou-se americano em 1970. Amplamente reconhecido como um dos principais pesquisadores do fenômeno religioso, e mesmo que suas posições possam gerar contestações, suas teorias seguem estudadas e seus livros referenciados.

Ainda que sua família praticasse a fé cristã ortodoxa[5], ele mergulhou na amplitude e na complexidade da religião oriental, o que lhe proporcionou experiências pessoais ao longo de sua vida. Morou em Calcutá, onde estudou sânscrito, filosofia e yoga, o que resultou em sua tese de doutoramento.  Publicou diversos livros dentre os quais O Sagrado e o Profano:  a essência das religiões, em 1957.

Mircea Eliade cunhou o termo hierofania, para descrever o momento em que o ser humano percebe o Sagrado, numa abordagem que traz a ontologia para o centro da experiência religiosa. Ele entendia o sagrado como elemento constitutivo da estrutura da consciência humana e não como um estágio da história da consciência, ou seja, não conseguimos fugir dele, apenas camuflá-lo e, a partir dessa posição, afirmava que “O homem profano [a-religioso], queira ou não, conserva ainda os vestígios do comportamento do homem religioso, mas esvaziado dos significados religiosos. (Eliade, p. 166)

Para Eliade, é essa experiência, como realidade diferente das coisas naturais, que situa o homem no mundo real e sagrado. Conforme destaca o autor, ao criar o cosmos, os deuses “fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenômenos cósmicos”. (Eliade, p. 99). 

Ao contemplar os inúmeros ângulos do sagrado que a natureza revela – e o mundo está impregnado de sacralidade, cita repetidas vezes, o autor romeno – o homem precisa reconhecer “os múltiplos modos do sagrado e, por conseguinte, do Ser”.  É a sintonia transcendente entre o indivíduo e o cosmos que faz com que o homem religioso viva numa contínua busca pela sacralização do mundo e, por conseguinte, dele próprio. 

Outro e definitivo termo criado e cravado por Eliade, na história das religiões é Homo religiosus.

A partir da hierofania, o homem passa a conhecer o sentido e a razão da existência, revelando-se como Homo religiosus. Essa experiência sacralizante estabelece a fronteira entre o espaço sagrado – o ponto fixo que organiza o caos – e o que está além dele: tudo aquilo que escapa ao espectro sacralizante é o Profano, percebido como um ambiente caótico e amorfo.

Para Eliade, o Homo religiosus não vive em um mundo alheio: o cosmos em sua integralidade é o seu espaço. E o homo religiosus é a correspondência entre o Microcosmo (o homem) e o Macrocosmo (o universo).

Assim sendo, o corpo humano, a casa e o templo são repetições da estrutura cósmica. Sendo o cosmos uma criação divina, o homem religioso, por fazer parte intrínseca desse espaço sagrado, torna-se um receptáculo dessa sacralidade, ao imitar os atos dos deuses ou ancestrais míticos (imitação da cosmogonia), o que dá significado, propósito e continuidade à sua própria existência.

É interessante notar, afirma Eliade

“que o homem religioso assume uma humanidade que tem um modelo transumano, transcendente. Ele só se reconhece verdadeiramente homem (grifo do autor) quando imita os deuses (…) em resumo, o homem religioso se quer diferente do que ele acha que é no plano de sua existência profana”. (Eliade, 1992, p. 88).

Consciente de seu tempo presente, Eliade (1907-1986) contrasta a vivência religiosa do homem arcaico com a dessacralização moderna, em que o sagrado — a manifestação de uma realidade absoluta — tende a desaparecer, e destaca algumas situações: a concepção de mundo, diferentemente de como a entendia o homem arcaico, “confunde-se com o cristianismo”;  a incapacidade do intelectual ocidental em “conseguir compreender o universo mental do homem religioso, mesmo com o “esforço de alargar seu horizonte religioso, por mais louvável que seja, não o leva muito longe” e a  tentativa do homem moderno de ser o único criador de si mesmo e da história (uma postura humanista/secular) leva ao esvaziamento do sagrado e à dessacralização da vida cotidiana.

YUVAL NOAH HARARI

Harari é um dos historiadores mais prestigiados da atualidade. Nasceu em Israel, em 1976. Cresceu em uma família judaica não praticante, com origem libanesa e europeia. Especializou-se em História medieval e História militar, com PHD pela Universidade de Oxford.  Professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, em 2019 criou a Sapienship, “empresa de impacto social com projetos nas áreas de educação e narrativa, cujo principal objetivo é contar e recontar nossa história humana compartilhada”[6].

O ponto de partida de seu pensamento acadêmico segue a linha do materialismo evolucionista. Atua em diversas áreas de pesquisa, utilizando o recurso metodológico da macro-história e da interdisciplinaridade.

 Em 2016, lança o livro Homo Deus: uma breve história do amanhã. Esse título, por si, vale uma tese, pois o “deus” por ele utilizado não se refere à culturalmente, arraigada expressão de um ser transcendente, onipresente e onisciente e sim, ao homem que se empodera com apoio da engenharia genética, da inteligência artificial e da biotecnologia. Assim, bem paramentado com esses recursos, ele assumirá capacidades antes atribuídas a deuses (criar vida, inteligência superior, imortalidade), chegando a vencer a morte, que, para Harari, é uma mera questão técnica, portanto, corrigível.

A outra expressão que vale destacar é “história do amanhã”, pois o autor, munido de uma vastíssima pesquisa, instiga o ser humano (até então protagonista da história da humanidade) a pensar num mundo próximo onde a tecnologia será o ser supremo e comandará todas as atividades. O Sapiens poderá ser, assim, mero coadjuvante da história: um fornecedor de dados.  E o termo “breve” pode indicar a contundência vertical e horizontal que a história documentará, pois em contraste com os compassados 70 mil anos de domínio do Sapiens, a humanidade agora viverá em um mundo de rápidas e radicais transformações.

Nesse livro, conforme afirma o site do autor, ele

“examina os grandes projetos futuros que a humanidade enfrenta no século XXI. Homo Deus alerta para as ameaças introduzidas por novas e inéditas tecnologias, que poderiam permitir que alguns Homo sapiens aprimorassem artificialmente seus corpos e mentes, enquanto outros membros da sociedade ficariam muito para trás[7]”.

Enquanto todos os homines religiosi eliadianos estão aptos a reconhecer o sagrado – e poder caminhar para a própria sacralização, os “homo deus” como alerta Harari, fariam parte de uma elite o que deixaria, por exclusão, a grande maioria constituindo uma “classe inútil”, ou, como afirma seu site, aqueles que “ficariam muito para trás.”

Em resenha sobre o livro Homo Deus, para o The Guardian, o escritor e crítico Tim Adams, argumenta sobre os poderes que esse novo homem divino pretende alcançar:

“esse poder pode em um futuro próximo, nos dar atributos divinos: a capacidade de prolongar a vida e até mesmo enganar a morte, a capacidade de criar novas formas de vida, de nos tornarmos arquitetos inteligentes de nossas próprias Galápagos, os meios para acabar com a guerra, a fome e a peste[8]”.

Entretanto, continua Adams, a apresentação da fatura nos acertos de contas poderá acarretar sérios dissabores, pois “a modernidade é um acordo, escreve Harari. Todo o contrato pode ser resumido em uma única frase: os humanos concordam em abrir mão do significado em troca do poder”.

Ainda que o termo dataísmo esteja vinculado a Harari, ele foi cunhado pela primeira vez em artigo veiculado no The New York Times, na coluna do jornalista David Brooks, em 2013. “Se me pedissem para descrever a filosofia em ascensão da atualidade, eu diria que é o dataísmo. Agora temos a capacidade de coletar enormes quantidades de dados[9]”.

Sobre esse neologismo famoso, Harari afirma que

“ao equiparar a experiência humana com padrões de dados, o dataísmo solapa nossa principal fonte de autoridade e significado e anuncia uma tremenda revolução religiosa, não vista desde o século XVIII. À época de Locke, Hume e Voltaire, os humanistas alegavam que ‘Deus é um produto da imaginação humana” (Harari, 391/392).

O Dataísmo

Na parte III do livro Homo Deus, Harari anuncia “A religião dos dados”, ou o Dataísmo, estabelecendo que o Universo consiste num fluxo de dados e que o valor de qualquer fenômeno é determinado por sua contribuição ao processamento de dados.

Nessa nova gestão de dados, na qual as Big Techs (Google/Alphabet, Meta/Facebook, Amazon, Microsoft, Apple, Tencent, Tik Tok) disputam uma nova corrida do ouro — sendo os dados humanos o mineral precioso —, surge uma nova forma de capitalismo: o Capitalismo Digital. Nesse sentido, o processamento de dados tornou-se a infraestrutura invisível que sustenta a sociedade moderna, sendo indispensável para a tomada de decisões estratégicas. Empresas, governos (em tempos de guerra e de paz) e indivíduos dependem, em ampla maioria, do fluxo de informações gerado por esses algoritmos.

Cem anos antes da publicação do livro o Sagrado e o Profano, de Eliade, o naturalista inglês Charles Darwin publicou a seminal obra A Origem das Espécies (1859). A bordo do navio Beagle, navegando em águas nem sempre serenas, Darwin realizou experiências e deu início a uma revolução, por meio de demonstração científica:  a vida não foi criada por forças divinas; ela não depende dos poderes teocráticos que foram doutrinados por milênios, mas sim de processos de seleção natural na luta pela sobrevivência das espécies. 

Com as novas teorias, Darwin impulsionava os questionamentos da interpretação literal das escrituras, alavancando as ciências biológicas a um novo patamar, alinhando-as com o período humanista vigente enquanto reforçava, com argumentos científicos, o processo de secularização em curso.

Assim, as ciências biológicas “passaram a ver os organismos como algoritmos bioquímicos”. A tecnologia e a biologia se aliaram, sendo acompanhadas por diversas disciplinas, proporcionando a reunião dos dois tipos de algoritmos enquanto afirmam que as mesmas leis matemáticas regem os dois sistemas – tanto o bioquímico quanto o eletrônico; a princípio, tão diferentes.

A religião dos dados “faz ruir a barreira entre animais e máquinas, com a expectativa de que, eventualmente, os algoritmos eletrônicos decifrem e superem os algoritmos bioquímicos” (Harari, p. 370).

Nessa esteira revolucionária, as ciências da computação tomam novo impulso com o britânico Alain Turing, que na década de 50 do século XX, criou o conceito teórico dos computadores modernos e lançou as bases da ideia de que a inteligência pode ser desconectada da consciência. 

O artigo publicado em 1950 por Turing (Computer Machinery and Intelligence), na revista Mind é o precursor da inteligência artificial (o termo só seria criado em 1956). Motivado pela experiência com os primeiros computadores digitais e adotando um tom bastante especulativo, esse britânico genial propõe a pergunta que ainda desafia: “As máquinas podem pensar?”[10]

No passado, havia muitas coisas que somente os humanos poderiam fazer, afirma Harari seguindo a linha de pensamento de Turing, e, apesar de parecer improvável que os computadores se tornem humanoides em pouco tempo

“as últimas décadas assistiram um avanço imenso na inteligência de computadores, mas [em 2016] o avanço na consciência dessas máquinas foi nulo (…), no entanto, estamos à beira de uma grave revolução. Humanos correm o perigo de perder seu valor porque a inteligência está se desacoplando da consciência.” (Harari, 313)

Para Harari, o Homo Deus, ao se impor, está rompendo com os preceitos antropocêntricos dos humanistas. Os dados e seus processamentos representam a nova crença do século XXI. E a fonte dessa nova forma religiosa é alimentada pelo fluxo ininterrupto e exponencial de informações e dados (datacentrismo). 

Para ser adepto dessa nova forma de religião, os humanos deverão, conforme preconiza o historiador israelense, adotar uma postura na qual a liberdade de informação e o fluxo incessante de dados se tornem o bem supremo e o sentido que norteará a vida dessas novas personagens da história. Essa nova crença altera a concepção de “veneração humana” (antropocentrismo) para a “veneração de algoritmos e do processamento de dados” (datacentrismo).

O Homo religiosus e o adepto do dataísmo: quando a fé ancestral encontra a nova liturgia dos dados

O terceiro milênio está assistindo à transferência de uma sacralidade teológica para uma sacralidade tecnológica, de forma surpreendentemente rápida e competente para assuntos técnicos. O ser humano moderno parou de buscar respostas para a morte, para o sentido da vida e para o futuro na teologia e passou a buscá-las na tecnologia (ciência, Inteligência artificial, o transumanismo).

Para Eliade o homo religiosus busca sacralizar-se, e essa sacralização não ocorre pelo interesse em adquirir poderes apenas sobre coisas ou sobre outros seres, assim como não vive em um mundo alheio: ele é parte do cosmos. O seu intento é a melhoria (sacralização) interior. Ele se “quer diferente”, do homem mundano. Ele se torna divino por participação (ao imitar os deuses).

Já o Homo Deus harariano busca pela divindade com a superação das limitações biológicas (como a morte, que é um problema técnico) e existenciais que definiram a espécie humana por milênios. Para Harari, o homem se torna “deus” por substituição (ao adquirir atributos biotecnológicos). Já aqueles que não tiverem condições de alcançar as benesses que a tecnologia e a biotecnologia puderem proporcionar, aumentarão o contingente da “classe inútil”.

Na visão de mundo do homo religiosus eliadiano, o universo é a própria vida pulsando; é a contínua manifestação do sagrado como resultado da experiência epifânica e ontológica; era onde se encontrava a realidade por excelência. O cosmos, ou a Natureza, como também se refere o historiador, é o poder, a força e o sentido da vida. O homem religioso se empodera, ao ser sacralizado, pois é parte componente do cosmos; ao participar da experiência hierofânica, ele identificava o oposto do sagrado: o profano que é o caótico, o ilusório ou o menos real (Eliade, p.18/19). Os indivíduos são decisivos no processo de reconhecimento da manifestação do sagrado (hierofania).

Segundo Harari, do ponto de vista dataísta, a humanidade deve ser interpretada como um sistema único de processamento de dados, no qual indivíduos servem como “chips” fornecedores contínuos de poder (Harari, p. 380). Assim, a realidade dataísta se resume à capacidade de fornecer dados. Essa é a realidade por excelência. 

Enquanto o Homo religiosus busca pela sacralização e o consequente fortalecimento interior, o indivíduo dataísta não passará de algoritmos bioquímicos coletando dados para os algoritmos tecnológicos, como, por exemplo, para a Internet de Todas as Coisas (IoE). Na nova religião, ou os Sapiens deverão contribuir com seus dados para sustentar a sanha de poder das Big Techs, ou ficarão no limbo da “classe inútil”.

Em suma, a irredutibilidade do sagrado para Eliade é a afirmação de que a religiosidade é uma dimensão autônoma da existência humana por sua conexão com o transcendente (o sagrado). Para Harari, nada há de transcendente ou sagrado nos seres humanos, apenas um sistema biotecnológico que está substituindo narrativas antigas, através dos dados e seus processamentos.

Isidoro de Sevilha, o santo protetor, ou a Deusa Fama, a mensageira de Zeus. O Sagrado ou o Profano?

Santo Isidoro de Sevilha já está sendo apreciado como o “protetor da internet”, por decreto papal de João Paulo II, em 1997. E com muita razão, especialmente para aqueles que se mantêm fiéis aos princípios eclesiásticos do Sagrado.

Isidoro de Sevilha nasceu na Espanha, em c. 560 e morreu em 636, no dia quatro de abril. Um período complexo e desagregador para a Europa e para a cristandade, em particular, no momento em que a instituição católica procurava solidificar sua hegemonia no vácuo deixado pelo fim do período imperial romano. Isidoro considerava:

“A preservação e o compartilhamento de informações essenciais para manter a civilização viva e próspera. Para isso, escreveu sua obra mais famosa, Etymologiae, que se tornou um livro de referência por séculos. O que era Etymologiae? Pense em Etymologiae como uma das primeiras enciclopédias[11].”

Nos 20 volumes, em ordem alfabética, “A obra de Isidoro abrangia ‘tudo’, desde linguagem, ciência e geografia até teologia e o estudo sobre Deus. Seu objetivo era tornar o conhecimento antigo mais acessível e compreensível. Ele queria preservar as melhores ideias do passado e trazê-las para seu tempo presente[12]”.

Por outro lado, seguindo uma linha profana e mais condizente com as possíveis demandas seculares do dataísmo, e, por suposto, a necessidade de rápida veiculação de seus dogmas, a deusa Fama pode bem atender a esses requisitos:

“PHEME (também conhecida como OSSA) era a deusa ou espírito personificado (daimona) dos rumores, boatos e fofocas. Por extensão, ela também era o espírito da fama e da boa reputação em um sentido positivo, e da infâmia e do escândalo em um sentido negativo. Seu nome romano era Fama[13].”

Pheme era a representação do poder e da rapidez com que as histórias e boatos se espalhavam, sendo a personificação do “ouvi dizer” – a oralidade da história – no mundo antigo, tanto que Telêmaco, desesperado por notícias de seu pai Ulisses, que retornava da Guerra de Troia, clama: “Talvez alguma testemunha humana fale, talvez eu ouça algum rumor (Ossa) que venha de Zeus, uma grande fonte de notícias para a humanidade”[14].

CONCLUSÃO

O surgimento de uma nova forma de religião moldada pelas circunstâncias tecnológicas do século XXI representa, paradoxalmente, a repetição do eterno retorno eliadiano. Embora o Homo Deus imponha suas marcas tecnológicas, essa crença, enraizada na perenidade do Homo religiosus, inevitavelmente se revestirá de rituais, veneração e submissão. Esse padrão se manifestará especialmente na chamada “classe inútil” de Harari, reiterando dinâmicas observadas ao longo da história.

Os avanços continuam, inexoráveis. E, como disse Harari, se os humanos gostam de reverenciar poderes maiores do que eles possuem, são os dados que estão dizendo a esses humanos que eles não estão no topo de importância da criação; eles estão sendo destronados do altar em que o humanismo os colocou.

Os humanos, independente da escala de importância financeira ou social, já são dependentes dos algoritmos eletrônicos gerados pelos dados que eles próprios produzem.

Diante dos relatos do setor tecnológico, é legítimo pressupor que as Big Techs estejam preocupadas com a baixa qualidade (e quantidade?) dos dados fornecidos pelos 8 bilhões de pessoas ao redor do planeta, o que poderia limitar sua capacidade de onisciência. Antecipando a concretização dessa possibilidade, a ‘criatividade’ humana já lançou o Moltbook, uma plataforma onde máquinas conversam entre si, automatizando o debate e excluindo, nesse empreendimento, a espécie humana.

“O Moltbook foi projetado para ser usado pela inteligência artificial e não por humanos. Nós, meros Homo sapiens, somos ‘bem-vindos para observar’ o que acontece no Moltbook, diz a empresa, mas não podemos postar nada. Lançado no final de janeiro por Matt Schlicht, chefe da plataforma de comércio Octane AI, o Moltbook permite que computadores usando inteligência artificial publiquem, comentem e criem comunidades conhecidas como ‘submolts’[15].”

Enquanto avançam de forma irreversível e sedutora, várias Big Techs comparecem às barras dos tribunais para responder a processos e a questionamentos lançados pelas leis de diversos países e pela sociedade, em geral.

Um recurso que ultrapassa, em muito, as mais fantasiosas ficções cinematográficas ou literárias e que conecta o mundo a um pequeno e onipresente aparelho ao alcance de uma mão infantil, as redes sociais têm levado pânico a pais, a educadores e  a grupos atentos aos malefícios que elas também podem desencadear, especialmente em crianças e adolescentes.

Nas palavras de Harari “à medida que o sistema de processamento de dados se torna onisciente e onipotente, a conexão com o sistema se torna a fonte de todo significado. Humanos querem se fundir no fluxo de dados porque, quando você é parte desse fluxo, você é parte de algo muito maior do que você mesmo” (Harari, p. 388).

Sob a premissa de que “tudo é narrativa” e de que a cooperação humana depende de ficções compartilhadas, Harari reatualiza o conceito de religião ao demonstrar que mesmo na era tecnológica, o ser humano preserva a necessidade de sacralizar suas construções simbólicas, como a utilização do termo “religião” de dados, por exemplo.

Nesse cenário de fascínio ante a onisciência, a onipotência e a onipresença algorítmica, o eterno retorno eliadiano manifesta-se de forma inesperada no [16]Homo Deus: a tecnologia converte-se em um “novo sagrado”; dessa feita, empenhado em organizar o caos do mundo profano contemporâneo através dos dados. A religio se configura na transição do Sapiens em Deus, provando que a busca pela transcendência – ainda que mediada pelo silício – permanece como estrutura fundamental da história.

Como reforço às ideias eliadianas, a luta pela permanência do sagrado como sentido para a existência humana encontra uma força, até então, indestrutível na cultura popular[17]. Se, por um lado, o império dos recursos tecnológicos no terceiro milênio busca automatizar a experiência humana, as classes populares, incontinenti, subverterão essa lógica de eficiência. Dotadas de uma resiliência singular, elas avançam em direção ao que consideram real no âmbito de sua fé, independente do valor econômico ou técnico de seus objetos de veneração.

Os inúmeros casos em que essa camada social desafia estruturas rígidas — como a própria Santa Sé — ao “canonizar popularmente” indivíduos que reconhecem como legítimos intercessores, constituem provas da autonomia do sagrado popular. Como bem observa Eliade:

 “É verdade que a maior parte das situações assumidas pelo homem religioso das sociedades primitivas e das civilizações arcaicas há muito tempo foram ultrapassadas pela História. Mas não desapareceram sem deixar vestígios: contribuíram para que nos tornássemos aquilo que somos hoje, fazem parte, portanto da nossa própria história” (Eliade, 164).

Por outro lado, a palavra está com Harari:

“A mudança de uma visão de mundo antropocêntrica para uma datacêntrica não são meramente uma revolução filosófica. Será uma revolução prática. Todas as revoluções realmente importantes são práticas. A ideia humanista de que ‘humanos inventaram Deus’ foi significativa porque teve implicações práticas de longo alcance. Da mesma forma, a ideia dataísta de que ‘organismos são algoritmos’ é significativa devido a suas consequências práticas no dia a dia. Ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento.” (Harari, 392).


[1] “Um algoritmo é uma sequência de instruções ou comandos realizados de maneira sistemática com o objetivo de resolver um problema ou executar uma tarefa. A palavra “algoritmo” faz referência ao matemático árabe Al Khwarizmi, que viveu no século IX, e descreveu regras para equações matemáticas”. Disponível em: https://www.significados.com.br/algoritmo/. Acesso 5/4/2026.

[2]  O termo (religio) foi utilizado pelo filósofo romano Cícero (106 a 43 a.C.)  para descrever o culto cuidadoso e repetido aos deuses romanos. Posteriormente, o cristão Lactâncio (240 a 320) popularizou o termo religare ao tratar da ligação humana com Deus, o criador de todas as coisas, no Cristianismo primitivo.

[3] SOUZA, V. C. de  (2023). Ser, sentido e verdade: a atualidade do conceito de religião em Mircea Eliade. Reflexão48. https://doi.org/10.24220/2447-6803v48a2023e8620. Disponível em10/2/2026.

[4] ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. 4ª. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. p. 1.

[5] Ele próprio, ainda que educado na religião cristã ortodoxa, não se vinculou a uma doutrina religiosa específica. Estudar religiões, como as orientais ou campesinas, lhe permitiu transitar e aprofundar-se em diversos campos.

[6] https://www.ynharari.com/about/, acesso em 2/4/2026.

[7] Biografia de Yuval Noah Harari disponível https://www.ynharari.com/about/. Acesso em 2/4/2026.

[8] ADAMS, Tim. Resenha de Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, de Yuval Noah Harari – arrepiante. THE GUARDIAN. Londres (Inglaterra).  11/9/2016. Disponível em https://www.theguardian.com/books/2016/sep/11/homo-deus-brief-history-tomorrow-yuval-noah-harari-review. Acesso em 2/4/2026.

[9] BROOKS, David. The Philosophy of Data.  The New York Times. New York.  4/2/2013.  “If you asked me to describe the rising philosophy of the day, I’d say it is data-ism. We now have the hability to gather huge amounts of data”. Acesso em 2/4/2026.

[10] O artigo de Turing foi reproduzido, na íntegra, em português, por https://movimentorevista.com.br/2021/06/alan-turing-e-maquinas-inteligentes. Acesso em 6/4/2026.

[11]“In this world of limited access to learning, Isidore stood out. He wanted to make knowledge more accessible, especially to Christians. He saw preserving and sharing information as essential to keeping civilisation alive and thriving. To do this, he wrote his most famous work, Etymologiae, which became a go-to book for centuries. What was Etymologiae? Think of Etymologiae as one of the first encyclopedias. Disponível em https://theconversation.com/isidore-of-seville-the-patron-saint-of-the-internet-who-shaped-knowledge-for-generations-236792. Acesso em 28/3/2026.

[12] “Isidore’s work covered everything from language, science and geography to theology, the study of God. His goal was to make ancient knowledge easier to find and understand. He wanted to save the best ideas of the past and bring them into his present time.” Disponível em https://theconversation.com/isidore-of-seville-the-patron-saint-of-the-internet-who-shaped-knowledge-for-generations-236792. Acesso em 28/3/2026.

[13] PHEME E OSSA. Disponível em www.theoi.com. Acesso em 29/3/2026. A página cita diversas referências de épicos da antiguidade com referência à deusa Fama, como em “Homero, Odisseia 24. 412 ss: “Ossa (Rumor), como arauto, corria a passos largos pela cidade, anunciando a notícia da morte horrenda e do destino dos pretendentes [de Penélope].”  

[14] Ibidem

[15]Moltbook, a nova rede social criada apenas para IA (e não para humanos. BBC News Brasil/portuguese) em fevereiro de 2026 https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3veq5lz51vo. Acesso em 29/3/2026.

[16]

[17] A autora desse ensaio pesquisa a religiosidade popular, notadamente no Brasil, conforme o site www.fedevocaoreligiosidade.com.br


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