Padre Ibiapina. Foto obtida no site Vatican News

PADRE IBIAPINA: A essência do cristianismo primitivo no sertão nordestino brasileiro

Imagem atual: Padre Ibiapina. Foto obtida no site Vatican News

Missão. Essa é a palavra que norteou a vida de José Antônio Maria Ibiapina a tal ponto que quase um século e meio depois tem levado multidões à Casa de Caridade de Santa Fé (Solânea, PB), local de sua morte e sepultamento, como forma de reconhecimento por todos os benefícios materiais e espirituais que ele levou a uma parte tão sofrida e abandonada do nordeste brasileiro. 

Além das Casas de Caridade, açudes, hospitais, cemitérios e outras tantas obras essenciais a uma vida digna, ele foi o mestre que criou um método para atingir seus objetivos: Foi um mestre missionário(1),


afinal “Padre Ibiapina inventou um método missionário muito significativo para os nossos tempos. A evangelização não se faz somente pela administração dos sacramentos, mas também pelo exercício concreto e prático do amor ao próximo”.

A excelência do trabalho vocacional de Padre Ibiapina, se foi indispensável no século XIX, apresenta, nos dias atuais, a característica fundamental de poder ser ad aeternum, afinal, fazer o bem, ensinar através do exemplo, trabalhar por sua comunidade e acolher e respeitar o próximo foram práticas basilares do cristianismo primitivo e plenamente exercitadas pelo Padre Ibiapina. E tendo por período histórico, a complexa segunda metade do século XIX, no nordeste brasileiro.

Contextualização 

A situação geopolítica, econômica e social do Nordeste brasileiro no século XIX – como não poderia ser diferente – convergiu para o surgimento de movimentos de diversas naturezas, como os religiosos, que ocorreram – e que se sustentam até hoje – naquela região. 

Enquanto isso na Europa, a Igreja Católica Apostólica Romana enfrentava severos conflitos com as propagações das ideias filosóficas que rompiam com os medievais e dogmáticos pensamentos religiosos. As novas ideias iluministas(2) refutavam o pressuposto de se ter que aceitar as teorias eclesiásticas como verdadeiras, por si mesmas, e propunham a liberdade de pensamento para todos.

Nesse ambiente de insurgências as   repercussões da Revolução Francesa, do final do século XVIII, apresentavam novos conceitos de liberdade ao reformular pensamentos e abalar representações mentais obsoletas. Como “um mar tempestuoso” essas ideias abalavam as fortalezas da Sé católica, que até então se acreditavam inexpugnáveis. 

Como bem pontuou André Daniel Reinke “a nova ordem do saber do século XVIII mudou a compreensão do texto bíblico, distanciando os Evangelhos da ‘realidade dos fatos’(3). E segue explicitando Reinke que:

“A Bíblia passou a ser examinada a partir do entendimento contemporâneo com uma hermenêutica de suspeita e disposição tão crítica quanto emancipatória dos dogmas da igreja.(4)”

Além desses problemas, os vastos territórios do Patrimônio de São Pedro estavam ameaçados com o avanço do processo de unificação italiano que poderia causar-lhe, como de fato causou, a perda dos Estados Pontifícios. 

Preocupada com os rumos desses novos e perigosos tempos, em 08 de dezembro de 1864, o Papa Pio IX proclamou a Encíclica Quanta Cura(5). Nessa encíclica ele registra toda a preocupação com o avanço da “horrível tempestade levantada por tantas opiniões perversas e os gravíssimos e nunca suficientemente lamentáveis danos que de tantos erros redundam ao povo cristão”.

Ao longo de toda a encíclica, Pio IX dispara pedidos de apoio e empenho contra o perigo iminente que vivia a instituição religiosa:

“Nossos Predecessores, com força apostólica, resistiram continuamente às maquinações nefastas de homens maus que, como as ondas de um mar tempestuoso, espalhando a espuma de seus próprios enganos e prometendo liberdade enquanto são escravos da corrupção, se esforçaram por suas opiniões enganosas e escritos mais perniciosos para demolir os fundamentos da religião católica e da sociedade civil, para acabar com toda virtude e justiça, para depravar as almas e mentes de todos, para desviar os incautos (…)”

Com unificação italiana, efetivada em 1870, aumentou o desespero da Igreja Católica. Apenas em 1929, a cidade-Estado do Vaticano é reconhecida pelo Tratado de Latrão, num território bem mais reduzido do que outrora a instituição religiosa dispunha.

Enquanto isso, na principal colônia lusa de além mares, a situação clerical não era das mais animadoras. Dados os problemas surgidos no continente europeu, a instituição religiosa colonial focou-se na necessidade da “romanização” da Igreja(6), estabelecendo a infalibilidade papal e tendo o bispo como seu “fiel executor das normas canônicas e guardião da doutrina ortodoxa, e para reforçar a paróquia no sentido da ortodoxia. O pároco deve controlar a ortodoxia dos seus paroquianos e assegurar-se da sua fidelidade na obediência a todos os deveres de bom católico”(7). 

Com essas medidas, a instituição procurou afastar as práticas mais próximas do povo, como as manifestações religiosas tidas por populares, acreditando que assim poderia manter um controle mais rígidos sobre seu rebanho. Essa seria uma empreitada muito difícil. A imensidão do país-continente com uma população de 10 milhões de almas, em 1872(8), tornaria inglória a tarefa.

Ao comentar as características do clero no período colonial brasileiro, esclarece o pesquisador Eduardo Hornaert(9) que 

“O primeiro aspecto que marca o clérigo no período colonial é o seu caráter de funcionário eclesiástico. Como regra geral, o sacerdócio é considerado nessa época como uma profissão, um ofício ou uma carreira à qual a pessoa se dedica em modo análogo às demais profissões então existentes. Recebendo a côngrua do governo, o padre passa a ser considerado como um funcionário público incumbido de exercer as funções litúrgicas próprias do catolicismo, que era a religião oficial da sociedade colônia”. 

Esse distanciamento dos clérigos com os fiéis teve desdobramentos ao longo do século, notadamente no nordeste brasileiro, quando figuras marcantes e carismáticas começaram a surgir naquele cenário inóspito e esquecido, como, entre outros, Frei Vidal de Frascarollo (1780/1820), Padre Ibiapina (1806/1883), Antônio Conselheiro (1830/1897) e Padre Cícero (1844/1934),  que interagiam com o povo sertanejo, levando mensagens evangélicas, de esperanças e expectativas positivas para aquela população carente e abandonada. 

Não é de estranhar, portanto, que o surgimento desses personagens carismáticos, com pensamentos e ações que atendiam as necessidades da população local e que desafiavam o status quo no âmbito religioso, daria início às transformações duradouras na trajetória histórica do século XIX, uma vez que no sertão, segundo Hoornaert

“numerosos clérigos apenas sabiam o essencial para a administração dos ritos da fé católica. Muitos viviam completamente alheios a qualquer atuação eclesiástica, conservando apenas o pouco que haviam aprendido na época da recepção das ordens sagradas.(10)”

Mas não apenas de figuras carismáticas constrói-se a linha do tempo do nordeste brasileiro, nesse período: a decadência e ruína financeira dos engenhos de açúcar, estava potencializada com o final do processo escravizador e do deslocamento das atenções metropolitanas para a região sudeste, na qual o ouro   havia sido encontrado, em fins do século XVII, no atual Estado de   Minas Gerais, para alegria da corte e dos cofres portugueses. 

Nesse quadro desanimador a seca intermitente assolava e destruía a atividade agrícola, a vida e a esperança do sertanejo. As sucessivas secas do século XVIII (11), arrastava o infortúnio por elas provocado para os períodos seguintes até que entre os anos de 1877 e 1879 ocorreu o mais terrível episódio de estiagem do nordeste brasileiro, que ficou registrado nos anais da história como a Grande Seca.

Padre Ibiapina e o cristianismo primitivo

O cristianismo primevo ou uma “seita” como se referem muitos pesquisadores foi concebido sem dogmas ou paramentos, sem rituais e templos; sem ostensórios e demais utensílios litúrgicos e sem apoio financeiro institucional ou imperial: o cristianismo primitivo se sustentou na simplicidade, na caridade e na figura de um homem também simples e exemplar: Jesus Cristo. 

“Havia culto para todas as raças, classes e gostos, cultos para todas as ocupações e todas as situações da vida. Uma nova forma de religiosidade surgiu pela primeira vez na história; não era uma nação celebrando seu culto patriótico, mas um grupo voluntário, no qual as diferenças sociais, raciais e nacionais eram transcendidas; homens e mulheres unidos em sua condição como simples indivíduos perante seu deus (sic). (12)”

 O que poderia existir de comum entre os preceitos basilares desse cristianismo nascente e as ideias e práticas de um cristão também conhecido por Padre mestre, Padre missionário, Peregrino da caridade, Pai espiritual ou Padre Ibiapina?

Aproximar a missão de Padre Ibiapina com o Novo Testamento, e em especial com a visão apostólica de Paulo de Tarso, não implica comparar anacronicamente as duas missões, mas compreender a essência que foi o axioma do Padre nordestino e do catolicismo primitivo, entendendo por essência que ela “define a natureza profunda de uma pessoa, objeto ou ideia. Refere-se ao que é fundamental, ao núcleo que dá identidade e sentido a algo. Quando falamos da essência de algo, estamos nos referindo ao que permanece mesmo quando tudo o mais muda. (13)”

José Antônio Pereira Ibiapina

O pesquisador Ralph Della Cava, que atribui o “renascimento religioso do Vale [do Cariri]” ao Padre Ibiapina, assinala que

“Não surpreende que a vida religiosa do Vale tenha sido revitalizada em meado do século. As transformações mais importantes nas estruturas religiosas do Cariri ocorreram na década de 1860/1870 e foram devidas, primordialmente, aos esforços de uma das personalidades mais conhecidas do Nordeste, o ardoroso missionário, nascido no Ceará, Padre Mestre Ibiapina.” (14)

Em 05 de agosto de 1806, nasceu José Antônio Pereira Ibiapina(15) na cidade de Sobral, no Ceará, próxima à Serra de Ibiapina, onde o capuchinho Frei Vitale entre   outros jesuítas, redentoristas, franciscanos ou lazaristas já haviam missionado. Entrou para o Seminário, optou pelo curso de Direito, em Olinda, onde também foi professor e “ingressou na carreira política cearense de modo promissor, interrompendo-a quando os maus fados políticos e pessoais o forçaram a deixar o Ceará, em 1837.” (16) Retornando a Recife, ficou conhecido como “defensor dos pobres e abandonados”, exercendo a advocacia por vários anos. 

Na busca por seu verdadeiro lugar no mundo e diante de tantos conflitos que  enfrentou, como a trágica participação e morte de seu pai e irmão na Confederação do Equador (1824), (17) o que resultou no confisco dos bens da família, quando teve que assumir os cuidados com os irmãos menores;  os problemas emocionais e  de foro íntimo, acrescidos das questões da miserabilidade vivida pelo sertanejo, notadamente na região do Cariri cearense, avassalado pelas epidemias de cólera, varíola e da fome, Ibiapina retorna ao princípio quando ingressara, aos 17 anos, no Seminário de Olinda: o clamor missionário foi mais forte: José Antônio Pereira  Ibiapina opta pelos pobres.

O Padre missionário

Quando Ibiapina se despiu das roupas bem talhadas usadas nos cargos públicos, no ofício de professor ou de deputado geral pelo Ceará; quando abriu mão dos   benefícios pecuniários oriundos desses cargos e da ascensão social que esses patamares lhe proporcionavam para entrar no sertão e cuidar das pessoas necessitadas, ele estava lançando a pedra fundamental de uma nova história daquela região. Sem qualquer comprometimento com ordens religiosas ou congregações, ele optou pelos pobres. Pobres de fé, de esperança. Pobres de pão, de dignidade. Pobres de famílias, como os órfãos, a quem dedicou atenção especial. Substituiu o sobrenome Pereira por Maria. José Antônio Maria Ibiapina ou, para seus seguidores e assistidos, Padre Ibiapina.

Conforme Comblin, Padre Ibiapina

“descobriu por intuição que a evangelização consiste em ir ao encontro das pessoas. Descobriu que o importante é anunciar o evangelho para provocar a conversão. Depois da conversão, a tarefa de administrar as comunidades na vida diária é mais fácil. Hoje em dia estamos vendo que o grande desafio da evangelização é justamente este: ir ao encontro das pessoas.” (18)

Ao abandonar a tudo e a todos e sair pelo sertão pregando o evangelho, Padre Ibiapina segue os princípios basilares do cristianismo primitivo, quando Jesus ordena a seus apóstolos que “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura.” (19) Em muitas passagens do Novo Testamento podemos atestar a importância da evangelização, Conforme o Apóstolo Mateus : “Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do filho, e do Espírito Santo. Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.” (20).

Carregou com ele apenas os saberes e experiências adquiridos na academia e no seminário para atingir o firme propósito de transformar a realidade daqueles lugares por onde passava, para melhorar a qualidade de vida do povo esquecido, enfim, para evangelizar.  Foi encontrar-se, encontrando com pessoas que, definitivamente, precisavam de sua voz e de suas ações. Estava determinado a levar a essas pessoas a oração, a caridade e o trabalho produtivo. Mesmo porque, registrou Tiago 2:17, a “fé se não tiver as obras, é morta em si mesma.”

Para tanto, procurou “inserir na missão obras sociais que respondiam às necessidades do povo e organizou a prática da caridade ativa. Conseguiu juntar milhares de trabalhadores, homens e mulheres, que, como obras de fé, levantaram edifícios para o serviço do povo. (21)

Uma das grandes preocupações do Padre Missionário era manter as pessoas em atividade, combater os vícios e desavenças: a caridade ativa. Procurou aproximar as pessoas em cooperação e harmonia, como bem explicita a Crônica da missão de Barbalho, Vila do Ceará, em 1868:

“No dia 29 de julho, partiu o Reverendo Missionário da cidade de Crato; chegando à Vila da Barbalha, deu princípio à missão neste mesmo dia à noite. A Barbalha, apesar da dedicação do Reverendo Vigário e da constante oração das mulheres, não está em paz: o verbo de Satanás tinha plantado ali intrigas gravíssimas, os homens estavam em dois campos opostos e todas as questões se tratavam conforme o gosto da política mesquinha e egoísta.” (22)

A chegada de Padre Ibiapina nas vilas provocava um rearranjo social, (BEZERRA, 2010) uma vez que ele agia para dirimir os conflitos sociais ali existentes. E segue a pesquisadora: “Além disso, solicitava que todos trabalhassem juntos em suas missões, desde ‘os principais senhores e senhoras’ da região até o ‘povo miúdo’.” (23)

Quantas vezes o Apóstolo Paulo não utilizou suas epístolas para aparar arestas nas comunidades cristãs nascentes em diversas localidades, como, por exemplo, narra na carta aos Coríntios:

“Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo sentido e em um mesmo parecer” e ainda, “Ousa alguém de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos?  (…), mas vós mesmas fazeis a injustiça e fazeis o dano: e isto aos irmãos.” (24)

Manter a ordem e a disciplina eram condições essenciais para o bom desenvolvimento de seus projetos assistenciais e a utilização de um método de trabalho – parte da eficiência que norteou a missão Ibiapina – foi indispensável 

“diante da necessidade de ordenar, organizar e resolver os problemas gerados pela miséria, pelas secas, pelas doenças, nos rincões do Nordeste, o Padre Ibiapina agia de forma racional e metódica; esta disposição foi fundamental durante a organização dos mutirões de trabalho, para erguer as instituições de caridade, açudes, cemitérios, etc.” (25)

Para melhor administrar e controlar as Casas, Padre Ibiapina se utilizava da troca de correspondências, nas quais orientava as irmãs – cuidadoras (26)e recebia delas os relatórios sobre a situação de cada uma das vinte e duas Casas.  Essas mulheres “não eram canonicamente religiosas”, pois “Padre Ibiapina não queria que elas ficassem presas por regras de disciplina da vida religiosa.” (27)

Com os dispersos pontos geográficos de suas atividades, ele centralizava suas ações na Casa de Caridade de Santa Fé, em Solânea, Paraíba.

Sobre o método utilizado pelo Apóstolo Paulo para melhor atuar em diversos lugares, pontua Marie-Françoise Baslez que as tradições da Igreja “sugerem a existência de polos que desempenharam um importante papel como pontos de partida da missão. O primeiro é, evidentemente, Jerusalém”.(28) No caso do Padre Ibiapina esse lugar era Solânea. 

Ainda analisando a missão do apóstolo Paulo acrescenta Baslez que ela foi organizada como uma penetração por capilaridade e que “a célula-tronco da missão é a ‘casa’, a oîkos, ao mesmo tempo comunidade familiar e com unicidade de atividade, exploração agrícola, fábrica ou loja”. A oîkos, segue a pesquisadora 

“reúne pessoas de estatuto diferente, incluindo mulheres e crianças, escravos e libertos em grande número nas famílias da elite (…) As atividades e as relações dos membros da oîkos a inserem em toda sorte de redes de sociabilidade, em função do desenvolvimento familiar ou por afinidades, para atender a interesses profissionais ou a serviços de ajuda mútua”. (29)

Também nas Casas de Padre Ibiapina o rigor e “disciplina do trabalho que orientavam o comportamento e ensino proporcionado nas Casas de Caridade eram referência na sociedade. As meninas das Casas eram bem-vistas e contam os biógrafos que famílias abastadas encaminhavam suas filhas como pensionistas para serem educadas”. (30)

“As Casas de Caridade destinavam-se a recolher órfãos. Mas, ao mesmo tempo, passaram também a ser escolas, hospitais, centros de assistência para toda a redondeza. Na Casa de Caridade de Santa Fé (Solânea, Paraíba) chegaram a morar 200 pessoas. Dessa maneira, Padre Ibiapina colocava em cada Casa de Caridade um grupo de senhoras e de moças dedicadas às necessidades mais urgentes do povo do sertão. A promoção humana acompanhava a conversão moral e espiritual.” (31)

A vida nas Casas de Ibiapina era austera pois ali se pregava o trabalho, o estudo e a oração. Para comandar tantas pessoas, em tempo relativamente pequeno e com pouquíssima renda para a tarefa, Padre Ibiapina deveria possuir uma habilidade inconteste para lidar e unir pessoas de seguimentos variados. Conseguiu resultados positivos, por onde passou.

Conforme a literatura e as biografias desse missionário, tem-se como verdadeiro uma liderança carismática associada a um princípio organizacional cuidadoso – como as cartas enviadas às cuidadoras das Casas de Caridade evidenciam – e o componente motivador em essência: a fé. 

Ao mobilizar multidões, conclamar pessoas – mesmo aquelas destituídas de todos os bens materiais – glorificando a Deus e mostrando a pobre realidade do lugar, ele demonstrava ser possível, através da solidariedade e da caridade, atingir o objetivo almejado.  

Se a força do trabalho era o único bem disponível daquelas pessoas, a construção de obras assistenciais que beneficiariam a todos era uma forma de reafirmação pessoal e da noção de pertencimento ao grupo comunitário. E assim, Padre Ibiapina pode “inventar um método original de missão”, conforme o Padre Comblin. Esse método, além do resultado concreto, tirava os grupos sociais da ociosidade, ocupando as pessoas do lugar com trabalho e tirando-as dos males prejudiciais, como entendia o Padre Ibiapina. 

As virtudes teologais da fé, esperança e caridade, eram ferramentas basilares para o sucesso dos empreendimentos de Padre Ibiapina. E essas virtudes, termos tão intimamente ligados aos cristãos, há dois mil anos, estão presentes no Novo Testamento. Vale a ressalva de que o Padre Ibiapina não tenha se preocupado em associar suas obras e conceitos a nenhum princípio teológico, no entanto, quanto mais se pesquisa a dedicação, pensamentos e ações desse missionário mais se evidencia as aproximações genuínas com os rumos que nortearam o cristianismo primitivo.

Conforme Bezerra, 

“todos os documentos, as poucas reflexões escritas por Ibiapina, suas biografias, os relatos escritos por terceiros, levam-nos a entender que sua motivação para agir como missionário na região Nordeste, andando a cavalo, a pé, ou carregado por outras pessoas quando ficou paralítico já nos últimos anos de vida, baseava-se nas virtudes teologais: fé, esperança e caridade (grifo nosso).  De fato, é preciso que algo mais forte que a própria razão, neste caso o fenômeno religioso e o transcendental, seja condutora da razão”. (32)

Sobre a fé, e a título de exemplo, pois são fartas as referências, diz Lucas 1:45 “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas” ou em Mateus 8:13 quando um centurião disse  a Jesus de Nazaré que rogava pela saúde de seu criado: “Vai e como creste te seja feito. E naquela mesma hora o seu criado salvou”. 

Com respeito à esperança e à justificação pela fé, o Apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Romanos 5, 3:5: 

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.”

Encorajando o cristão, ainda que tenha, para isso, passar por tribulações, o Apóstolo Paulo, um dos principais responsáveis pela sedimentação do cristianismo no mundo, disse em sua Carta aos Romanos 12:12: “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração.” 

Com as adversidades que os sertanejos lidavam em seus cotidianos, com tantas tribulações é difícil imaginar, então, como poderia ser incutido nesses sofredores alguma esperança. No entanto, o resultado das construções de açudes, cemitérios, Casas de Caridades, estradas, igrejas e tantas outras obras que a história, possivelmente, sequer registrou, é possível conjecturar que Padre Ibiapina incutiu esperança. Dele, do Padre Ibiapina, “saiu virtude”. 

A terceira das três virtudes teologais, a caridade, também é exemplo encontrado no Novo Testamento. Ela é parte constitutiva dos preceitos do Padre mestre Ibiapina e mencionada na epístola do Apóstolo Paulo, aos 1Coríntios 13:13:

“ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que eu tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria (…) agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três, mas a maior destas é a caridade.” (grifo nosso).

Construía suas obras assistenciais abarcando tanto a necessidade prática do dia a dia da comunidade quanto as aspirações espirituais e alentadoras para os sertanejos. Com isto comprovava que a junção desses dois elementos (material e espiritual) que podem apresentar características tão díspares podem, sim, ser complementares na busca de um mundo melhor.

E assim, nessa convergência de sagrado e profano, ele construía tanto     para os vivos quanto para os mortos; tanto no aspecto material quanto espiritual, tanto o trabalho árduo quanto a oração serena, tanto para o presente quanto para o futuro.

Padre Ibiapina e as crianças

Quando a pesquisadora Osicleide Bezerra de Lima visitou a casa em que viveu o Padre Ibiapina, atual Santuário da Fé observou que “a grande maioria dos agraciados [na sala dos Milagres] é de crianças. Uma relação provável com o fato de o Padre Ibiapina ter sido um acolhedor de crianças órfãs.” (33)

Tanto o evangelho de Mateus, quanto em Marcos e Lucas, a referência sobre deixar as crianças se aproximarem de Jesus, é registrada: “Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, pois delas é o reino dos céus.” (34)

E esse acolhimento infantil é observado em outras passagens da Bíblia, como em Lucas 9:48, “sobre qual deles [os discípulos] seria o maior. Mas Jesus, vendo o pensamento de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto a si e disse-lhes: qualquer que receber este menino em meu nome, recebe-me a mim. E qualquer que me recebe, recebe o que me enviou (…)”.

Ora, está implícito que para Jesus a criança era um caminho para se chegar a Deus. E esta prática foi um ponto crucial na doutrina de Padre Ibiapina, doutrina também respaldada pelo apóstolo Paulo, em Éfesos 6:1-4 que, depois de clamar que os filhos sejam obedientes aos pais, diz “E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor”.

Num contexto tolerante e permissivo, no que se refere à pratica de escravização humana por parte da Igreja Católica, onde até a própria instituição possuía homens escravizados, (35) Padre Ibiapina “acolhia em suas Casas de Caridade órfãos nascidos das relações forçadas entre senhores e suas escravas.” (36)

A preocupação em acolher as crianças – não apenas órfãs – foi uma premissa de Padre Ibiapina, à semelhança, como vimos, dos primórdios do cristianismo.  Mas não apenas esse fato aproxima o Padre Mestre da doutrina cristã primitiva.

Ao longo de seu périplo pelos cinco Estados por onde passou, difundindo e agindo em prol da sua “boa nova”, Padre Ibiapina criou vinte e duas Casas de Caridade, como já referido. Essas casas, com orientação para o trabalho, a oração e a caridade, organizadas e mantidas uniformemente através de regulamentos, “foram os centros de irradiação das ideias do missionário – de educar através do trabalho, de moralizar, de ensinar virtudes”. (37)

Importante observar que em sua pesquisa sobre Padre Ibiapina, Comblin utiliza o termo “obras” para se referir às diversas atividades desenvolvidas pelo Padre, por seus auxiliares e pelos voluntários: “obras sociais”, “obras de fé”, “obras úteis”, “construção de obras” e ainda as “obras” com referência aos trabalhos das mulheres que atendiam nas Casas de Caridade. Também no Novo Testamento, essa forma de se referir a “trabalhos” ou atividades é perceptível nos evangelhos do Novo Testamento com o termo “obras”. 

O trabalho 

Para alcançar seus objetivos, o Pai espiritual dos sertanejos fez do trabalho uma ferramenta essencial. Esse engajamento manifestava-se de diversas formas: nas construções, nos cuidados com os hóspedes e com o patrimônio edificado, na orientação espiritual, no ensino, na arrecadação de recursos e na própria ação evangelizadora.

Ao conclamar as pessoas dos lugares, pobres ou ricos, para construir obras de importância capital para os moradores, Padre Ibiapina reunia mutirões tanto que, ao longo de décadas de seu trabalho itinerante pelos cinco Estados que percorreu, o Padre missioneiro construiu vinte e duas Casa de Caridade, abriu e consertou estradas, construiu açudes, capelas, hospitais, cemitérios, montando uma rede de apoio de importância fundamental para o sertanejo que transitava pela região. Tudo isso sem ajuda financeira institucional, como já informado.

No que se refere ao suporte assistencial e à rede de capilaridade estruturados pelo Padre Ibiapina, observa-se paralelo com as práticas descritas no Novo Testamento, que evidencia a presença de complexas redes de apoio já nos primórdios do cristianismo, em um contexto geopolítico caracterizado por tensões socioculturais com o domínio do Império Romano.

O surgimento da comunidade cristã, que identificava em Jesus de Nazaré o Messias prometido, ressaltava a necessidade de uma organização comunitária pautada pelo cuidado mútuo, pela integração dos simpatizantes e pela acolhida aos neófitos.
Na terceira epístola joanina, essa dimensão da hospitalidade cristã é reiterada nos seguintes termos:

“Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos e para com os estranhos, que, em presença da igreja, testificaram da tua caridade. Aos quais, se conduzires de modo digno para com Deus, bem farás; (…) portanto, a tais devemos acolher, para que sejamos cooperadores da verdade.”

Para o desenvolvimento das tarefas, Padre Ibiapina conclamava a mobilização das pessoas, estimulando-as e despertando nelas o sentido e a importância do apoio ao próximo, de fazer algo útil para a comunidade. 

Num local que não alcançava mil habitantes (Bananeiras, PB),

“ele começou as obras de uma nova matriz, que de fato se transformou no edifício religioso mais prestigioso da Paraíba, embora realizado pelos pobres do interior (…) Todos trabalharam nas obras da matriz, tanto os ricos como os pobres.” (38)

Considerando as condições precárias dos locais por onde passou – comunidades impactadas pela epidemia de cólera (39) e pela Grande Seca e da constante falta de recursos financeiros – vale ressaltar a extensão e a importância das obras construídas em um tempo relativamente curto. As missões, acrescenta Comblin, “eram verdadeiras mobilizações populares livres e espontâneas”. 

A importância que Padre Ibiapina consagrava ao trabalho encontra similitudes Novo Testamento, notadamente no Apóstolo Paulo, ele próprio um obreiro de tendas, que aproxima o Pai espiritual dos sertanejos aos preceitos do cristianismo primitivo:  

“Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplos, para nos imitardes. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que se alguém não quiser trabalhar, não coma também.”  (40)

Seguindo os escritos paulinos, apenas para citar algumas dessas referências, em sua primeira epístola aos Tessalonicenses: 3:8-10: “Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois trabalhando noite e dia não seremos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus.” (41)

Para Comblin o trabalho, não perder tempo e a luta contra a preguiça “são os temas mais constantes nas exortações do Padre Mestre” pois a manutenção, organização e “disciplina das Casas de Caridade tornaram-se pouco a pouco a atividade mais absorvente do missionário.” (42)

Quando escreve aos Romanos 16:11, e ainda no que concerne ao trabalho, o Apóstolo Paulo indica “Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencréia”. 

Nos trabalhos de reconstrução da matriz de Bananeiras, acima citada, ao cavar nos alicerces, os obreiros encontraram restos mortais soterrados o que causou desconforto para a população, 

“e as mulheres ficaram com repulsão. O missionário mandou fazer um lugar próprio para servir de ossário e, no púlpito fez um pedido às jovens presentes para que desempenhassem o trabalho de sepultar os restos mortais e que fossem as “primeiras a carregar os ossos e a terra mais putrefata que houver nos alicerces.” (43)

E assim foi feito.

Naquele período de extrema seca, escassez de recursos e intenso sofrimento, as construções projetadas e erguidas ofereciam, além dos benefícios básicos a que todo ser humano tem direito, também um profundo sentido de dignidade — tanto aos vivos quanto aos mortos:

“Encontrando corpos expostos e jogados nas veredas e às vezes devorados pelos animais, Padre Ibiapina começou sua obra construindo cemitérios, capelas, igrejas, aguadas, açudes, cacimbas, cisternas, barragens, casas de caridade, hospitais, cruzeiros, estradas e asilos e a levar conforto através da palavra”. (44)

O cuidado e o respeito do Padre sertanejo ao cuidar dos mortos – muitos dos quais levados a óbito em virtude da epidemia de cólera e que eram abandonados nas estradas e locais públicos como retrata a literatura do período – se reflete na construção de cemitérios. Sobre isso relata o historiador francês, especialista em cristianismo antigo, Jean-Marie Salamito: 

“Os Atos dos Apóstolos atestam que, com base no modelo das comunidades judaicas, os primeiros ‘cristãos’ (ainda não se chamavam assim) de Jerusalém proporcionavam, pelo menos na forma de refeições coletivas, uma assistência às viúvas do seu grupo. Por volta do fim do século II, Tertuliano fala de contribuições dadas pelos crentes para a alimentação e a inumação (grifo nosso) dos indigentes, para a ajuda aos órfãos, aos serviçais idosos, aos náufragos e aos que haviam sido condenados às minas ou à prisão por causa da sua fé.” (45)

Entre os muitos  episódios que podem  simbolizar a trajetória desse Padre de tantos adjetivos como os estudiosos de sua trajetória  já se referiram a ele –   Pai espiritual, Padre mestre, Padre missionário, Padre dos nordestinos, Padre Apóstolo do nordeste, Peregrino da caridade, Pai dos órfãos, Defensor dos pobres e abandonados –  foi destacado  pelo Padre Comblin, ao narrar um acontecimento da trágica seca de 1877/1879, que consumiu, ainda mais, a pobre região nordestina e cuja penúria atingia, inclemente, as Casas de Caridade para onde os sertanejos sedentos iam em busca de alento: 

“Um dia, as Irmãs vieram dizer ao Padre Ibiapina que, se continuassem dando de beber a todos os que chegavam, dentro de pouco não haveria mais água para ninguém. Padre Ibiapina reagiu: “Enquanto tivermos água, haverá para todos. Quando não houver mais, morreremos de sede com eles todos.” (46)

Conclusão

As palavras, os atos e os ensinamentos que marcaram a missão de Padre Ibiapina refletem práticas presentes na atuação dos evangelistas nos primeiros anos e décadas do cristianismo. Não é necessário um esforço exegético para reconhecer a mesma essência que une essas duas missões. Se o Padre Sertanejo buscou, de forma consciente, inspiração nos evangelistas para conduzir sua obra; se foi movido por uma inspiração divina para agir assim; ou, ainda, se essas duas motivações convergiram, é difícil afirmar com precisão. Inequívoco, porém, é que, qualquer que tenha sido a fonte de sua inspiração, Padre Ibiapina resgatou, no sertão nordestino daquele contexto histórico, os princípios fundamentais do cristianismo primitivo.

Padre Comblin relata sobre um texto manuscrito por esse missionário, datado de 23 de março de 1879 (quatro anos e um mês antes de sua morte), e que fora entregue à “uma irmã dizendo”, entre outras coisas, que era um homem “do passado e do futuro”,  e que “se eu lhe fosse fiel [a Deus] como deveria, minha posição espiritual seria bem diferente da que me acho, que me julgo sempre noviço, vendo e lendo aqueles que o bom Deus me deixou para segui-los; Falo dos Santos (grifo nosso).” (47)

Esse depoimento pode sugerir que missão do Padre Ibiapina obedecia a uma intercessão divina que lhe ordenara seguir os “Santos” ainda que o Padre Apóstolo do nordeste tenha procurado se manter afastado das narrativas que o aproximava ou o levava a acontecimentos miraculosos.

As atitudes desse Pai espiritual aproximavam seus seguidores e beneficiados das práticas do cristianismo primitivo, especialmente no que diz respeito ao cuidado, ao respeito e à atenção mútua. Entre eles, o saber era compartilhado, e o trabalho comunitário, realizado em mutirão, promovia igualdade de esforço e de responsabilidades. Todos dividiam o mesmo pão – gesto que, provavelmente, não remetia a uma cerimônia formal, mas ao simples e significativo ato de fazer refeições em conjunto. Até hoje, partilhar uma refeição permanece como uma expressão de criação de laços e fortalecimento da identidade do grupo.” (48)

Nem mesmo a enfermidade incapacitante, que o perseguiu até o fim da vida, foi capaz de vergar o Padre Ibiapina. Confinado a uma cadeira de rodas ou a uma cama, dependente de seus companheiros para se mover, ele suportou o sofrimento sem nunca se entregar. Sua perseverança até o último suspiro é digna de comparação com a dos primeiros Apóstolos cristãos, que enfrentaram o cativeiro e a morte sem jamais negar a sua fé.

Nos últimos anos de sua vida, com momentos à beira do extremo, não parou de viajar (nos ombros de seus seguidores), acompanhado de suas “irmãs” e “irmãos”. Em 1875, empreendeu sua derradeira viagem, rumo a Baixa Verde (atual Triunfo, em Pernambuco):

“Resolveu ir pessoalmente para tomar providências. Mas, em lugar de tomar o caminho mais curto (600 km), decidiu aproveitar a viagem para visitar outras casas e rever lugares já missionados por ele. Foi pregando nos povoados encontrados no caminho, parou em Santa Luzia, Souza, Cajazeiras. De Cajazeiras foi para Piancó e parou em Misericórdia (hoje Itaporanga), onde fundou um asilo de órfãos e terminou a igreja. De Misericórdia, o missionário seguiu para Baixa Verde”. (49)   

As obras de Ibiapina não tiveram a sequência que ele gostaria, após sua morte. O clero estava cada vez mais “romanizado”. Apenas o Bispo era a autoridade para falar e agir em nome da Igreja e do Papa. Quase todo apoio que se personificava na figura de Padre Ibiapina foi perdido. 

Enquanto a Igreja Católica impunha dogmas canônicos inviáveis para a realidade do sertão, o Padre Ibiapina, vivenciando a miséria local, agia naquilo que era necessário para amenizar a dor de seu povo. Essa postura, no entanto, foi incompreendida: a Igreja e o episcopado brasileiro o taxaram de insubordinado e tentaram silenciá-lo, sem perceber que ele apenas replicava os atos de Jesus e do cristianismo primitivo.

A liturgia cristã “que originalmente significava ‘trabalho para o povo’, isto é, qualquer coisa feita para a comunidade” (50) e que Padre Ibiapina tão bem implementou não foi compreendida pelos seus pares contemporâneos. 

Atualmente, multidões sustentam o crescimento das hostes de fiéis que procuram a Casa de Caridade em Santa Fé e reconhecem a força intercessora de seu Pai espiritual, que nem a proximidade da morte fez abdicar da fé e da missão que recebera, ao se afastar das coisas terrenas. 

A missão tão bem conduzida por ele ainda não terminou. Cabe, agora, àqueles que acreditam em seu trabalho missionário e fecundo, dar continuidade aos resultados já conseguidos pelos postuladores da causa de Padre Ibiapina, uma vez que o Vatican News, de 31/03/2025, cento e quarenta e dois anos depois de sua morte, para alegria da multidão que segue fortalecendo as romarias em busca de sua intercessão em Solânea estampou que: 

“Torna-se Venerável o brasileiro José Antônio Maria Ibiapina.”

A missão do Padre sertanejo é, agora, a missão de todos aqueles que compartilham seus ideais: transformá-lo em Beato e em Santo. 

Trabalhos individuais, esforços coletivos. Mutirões… 


(1) O missionarismo, na época de Padre Ibiapina, “já era uma antiga tradição no Brasil, já que os missionários foram os fundadores da Igreja no país inteiro antes que se instalasse a estrutura canônica (…)Eram sacerdotes itinerantes que confirmavam a fé do povo e administravam os sacramentos nos lugares em que poucas vezes apareciam os vigários, que moravam nas cidades, ou seja, muito longe”, conforme COMBLIN, Joseph Jules. São Paulo: Paulus, 2011. p. 8.

(2) O movimento (intelectual e filosófico) iluminista (séculos XVII e XVIII) propunha o uso da razão como princípio fundamental para se atingir o progresso, a liberdade e a igualdade, em todos os setores da vida comum. Ao propor o uso da razão, o Iluminismo fazia oposição aos princípios da Igreja Católica. 

(3) REINKE, André Daniel. Nós e a Bíblia: história, fé e cultura do judaísmo e do cristianismo e sua relação com a Bíblia Sagrada.  Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2023. p.194.

(4) STEGEMANN, Wolfgang. Apud REINKE, ob. cit.   pp. 90-99.

(5) Íntegra da Encíclica citada in https://www.vatican.va/content/pius-ix/it/documents/encyclica-quanta-cura-8-decembris-1864.html, acesso em julho/2025. Em 1891, o então novo papa Leão XII lançou a Encíclica Rerum Novarum, com atenção especial e inovadora, por parte da Igreja, para a legislação social e trabalhista.

(6) Romanização: No século XIX a Igreja Católica procurou aumentar o controle sobre o Brasil. Para tal, estabeleceu a predominância de uma hierarquia centralizada na Cúria Romana e, cabendo a ela todas as diretrizes eclesiásticas.

(7) COMBLIN, Padre. Padre Ibiapina a caminho de beatificação. Disponível em  https://www.vidapastoral.com.br/artigos/entrevistas/padre-ibiapina-a-caminho-da-beatificacao. Acesso em 17 de agosto de 2025.

(8) O Censo de 1872 encontrou no país quase 10 milhões de “almas” (mais precisamente, 9.930.478). Hoje, como comparação, só a cidade de São Paulo tem 12,4 milhões de habitantes e o Brasil todo conta 215 milhões. Disponível em https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/1o-censo-do-brasil-feito-ha-150-anos. Acesso 31 de julho de 2025.

(9) HORNAERT, Eduardo (et al.)  HISTÓRIA DA IGREJA NO BRASIL: ensaio de interpretação a partir do povo: primeira época, Período Colonial. 5ª. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 183.

(10) HOORNAERT, ob. cit. p.  183.

(11) Períodos de seca, no século XVII: 1710/1711;  1721;  1723/1727;  1736/1737;   1745/1746; 

1777/1778;  1791/1793, conforme BEZERRA, Osicleide de Lima.   Padre Ibiapina (1806/1883) no nordeste brasileiro: análises e interpretações possíveis. 2010. Disponível em https://repositorio.ufrn.br/server/api/core/bitstreams. Acesso em julho/2025.

(12) JOHNSON, Paul. Historia del Cristianismo. Barcelona. Espanha. Javier Vergara Editor. 1999. p. 22.

(13) Conforme https://www.significados.com.br/essencia/ acesso em 08/08/2025.

(14) DELLA CAVA, Ralph. Milagre em Joaseiro. 2ª. ed.  Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985. p. 33.

(15) Várias biografias estão disponíveis sobre a vida de Padre Ibiapina. Partimos, como axioma para essa pesquisa, da tese de doutoramento em Ciências Sociais de BEZERRA (2010) e  a pesquisa de COMBLIN, José. Padre Ibiapina, obras citadas.

(16) DELLA CAVA, ob. cit. p. 33.

(17) Movimento irrompido no Nordeste brasileiro (cuja difícil situação econômica, política e social já foi comentada), centralizado em Pernambuco, buscava o fim do Império e a instalação da República.  Pedro I, que havia dissolvido a Assembleia Constituinte e outorgado a 1ª. Constituição brasileira (1824) reprimiu com violência esse movimento.

(18) COMBLIN,  https://www.vidapastoral.com.br/artigos/entrevistas/padre-ibiapina-a-caminho-da-beatificacao. Acesso em 25 de julho de 2025.

(19) Marcos, 16:16 in Bíblia Sagrada, Sociedade Bíblica do Brasil. Brasília (DF), 1969.  Todas as referências bíblicas se referem a essa impressão.

(20) Mateus, 28: 19-20.

(21) COMBLIN (2011) p. 9.

(22) COMBLIN (2011) p. 38.

(23) BEZERRA (2010) p. 123.

(24) Paulo 1:10.

(25) BEZERRA (2010), p. 13.

(26) Conforme Hill, era bem notório “que os cristãos se chamavam entre si de ‘irmão e irmã’ e os laços entre eles eram bem mais fortes do que aqueles entre os membros de uma família não-crente.” HILL, Jonathan. História do Cristianismo. São Paulo: Edições Rosari, 2008. p.52.

(27) COMBLIN, ob. cit. p. 9.

(28) BASLEZ, Marie-Françoise apud CORBIN, Alain (org). História do Cristianismo: para compreender melhor nosso tempo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. p. 25.

(29) CORBIN (2009). Ob. cit.  p. 29.

(30) BEZERRA, ob. cit. p. 142.

(31) COMBLIN. Pe. (2025).

(32) BEZERRA (2023), ob. cit. p. 16.

(33) BEZERRA, ob. cit. p. 113.

(34) Mateus 19:14 – Marcos 10:14 – Lucas 18:16.

(35) FRANCO, Vitor Hugo Monteiro. Escravos da religião: família e comunidade na Fazenda São Bento de Iguassú (Recôncavo do Rio de Janeiro, século XIX). 1ª.ed. Curitiba: Appris, 2021.

(36) BEZERRA, (2010), ob. cit. p. 61.

(37) BEZERRA, (2010), ob. cit. p.  133.

(38) COMBLIN, Pe. (2011). p. 36.

(39) “Conforme as estatísticas da época, ao longo do período em que vigorou a epidemia, entre 1855 e 1862, estima-se que, em todo o país, o número de mortes provocadas pelo cólera-morbo chegou a ultrapassar a soma de duzentos mil. Na região Nordeste, uma das mais afetadas, a província de Pernambuco registrou 37.586 casos fatais, a Bahia 36 mil, e a Paraíba o total de trinta mil vítimas”. Hist. cienc. saude-Manguinhos 23 (2) • Apr-Jun 2016, disponível em 30/07/2025.

(40) Segunda Carta do Apóstolo Paulo aos Tessalonicenses 3:8-10.

(41) Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Tessalonicenses 2:9. Também a citação do Apóstolo Paulo, em sua Carta aos Coríntios 3:8: “Ora o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho.”

(42) COMBLIN, ob. cit. p. 44.

(43) Idem, p. 36.

(44) LOPES, Diana Rodrigues apud BEZERRA (2010), ob. cit. p. 116.

(45) SALAMITO, Jean Marie apud CORBIM, Alain. ob. cit. p. 93. Tertuliano, nascido em Cartago, é destacado para “pai do cristianismo latino, do século II.

(46) COMBLIN, Pe. (2025) s/p.

(47) COMBLIN, Pe. (2025) p, 57.

(48) HILL, Jonathan, ob. cit. p.24.

(49) COMBLIN, ob. cit. p. 33.

(50) Hill, op. cit. p. 34.

(51) Cada crédulo que se dirige ao Santuário Padre Ibiapina ou que divulga sua causa, fortalece a missão de recuperar a história missionária de nosso Venerável Padre Ibiapina. Registramos a seguir a referência feita pelo Padre Comblin, em 2011, na página 10, sobre os iniciadores desse processo: “Novas experiências missionárias (a partir dos anos 80 do século passado) se inspiraram nos métodos de Padre Ibiapina. O primeiro bispo de Guarabira, Dom Marcelo Carvalheira, interessou-se e resolveu ressuscitar a mensagem de Padre Ibiapina. Com a ajuda eficaz de padre Cristiano Muffler, que conseguiu na Alemanha os recursos necessários, foi possível restaurar a antiga Casa de Caridade. Dom Antônio Muniz Fernandes O. Carm., segundo bispo de Guarabira, ficou mais entusiasmado ainda e construiu vários edifícios e um grande anfiteatro par as celebrações. O atual bispo de Guarabira, Dom Lucena, dá uma importância especial à memória de Ibiapina na pastoral da diocese.”

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